Basil, hammers and air ballons

As festas populares acontecem um pouco por todo o país. O Santo António de Lisboa é bem capaz de ser a mais disseminada pelos meios de comunicação. Ora, no Porto, nós festejamos um pouco de tudo mas é o São João que é vivido com um fulgor fora de série. Nunca me tinha apercebido mas aparentemente é bastante demarcado, tendo em conta as reacções dos que cá vêm, de outras partes do país e do mundo.

Desde as rusgas até à praia, o fogo de artifício, passando pelos famosos martelinhos e pelos místicos balões, o Porto enche-se de uma magia especial.

Os manjericos são mais ou menos transversais a um grande número de festas populares! Não se cheiram com o nariz, senão murcham. Tocam-se ao de leve com a mão e daí se inala o aroma. Oferecem-se como se de rosas se tratassem, enfeitados com um cravo e uma quadra saída da imaginação de todos: pequenos e grandes, desde que saibam escrever. Desde 1929 que o Jornal de Notícias premeia as melhores quadras Sanjoaninas. Algumas vêm carregadas de crítica social, mas são outras as que nos levam o coração…

1929
Ao saltar duma fogueira
Na noite de S. João,
Não sei bem de que maneira
Chamusquei o coração.

Euclides Sotto Mayor

1932

Tão branquinho como a neve,
Vermelho o cravo ficou:
Beijou-te o seio, de leve,
Teve vergonha, corou…

Samaritana

Agora, os martelinhos. Bom, não foi a primeira vez que tivemos visitas que se recusaram a comprar martelinhos de São João. As desculpas mais frequentes eram: “isso é mais para as crianças”, “não vou usar isso”, “não me parece que vá andar a martelar as cabeças das outras pessoas”, “isso magoa”. Desde aqueles que têm medo de arriscar, aos que acham que se safam com um chapéu… há de tudo. Eu penso “eles não estão bem a ver”. Não dou grandes explicações, aviso apenas que os martelos são mais caros na ribeira e no cais de Gaia na noite de São João e espero para ver o que acontece. Invariavelmente, quando chegamos à baixa, à ribeira ou ao cais temos de ir comprar martelos para toda a gente. Porque é assim que funciona: aqui toda a gente martela toda a gente, ninguém pede autorização, não, não se martela apenas na cabeça dos amigos, os polícias também levam marteladas e os tipos de chapéu são os mais requisitados. Alguns fazem questão de o tirar, quais cavalheiros, para receber uma boa martelada. E tudo isto é feito com um sorriso, uma cumplicidade pouco usual (sobretudo para uma grande cidade) e há até quem ofereça a sua cabeça, assim, de mão beijada ao próximo martelo.

Os balões são outra magia. Há uns tempos apercebi-me que algumas pessoas acham que se lançam um ou dois balões pela cidade. Que é uma coisa esporádica, programada e controlada. Não podia ser mais diferente: por cá lançam-se balões aos milhares, onde se quer, quando se quer. Ao ponto de alguns serviços ficarem em alerta (como é o caso dos bombeiros) ou condicionados (como é o caso do aeroporto).
Se já viram o céu estrelado, podem imaginar como ele fica cheio numa noite de São João: os balões são aos milhares e competem com as estrelas em brilho e adoração. Há quem lhes peça desejos, há quem veja levantar os sonhos, há quem lhes encomende mensagens, há quem lhes faça levar a fadiga, há quem não lhes peça nada e o faça apenas pelo prazer, pela magia de lançar um balão junto com os amigos ou com a família. E com um balão é certo que nunca estamos sozinhos: toda a gente à nossa volta, conhecidos ou desconhecidos, o olham, o festejam, o sopram fazendo-o voar, se entusiasmam com o balão que está nas nossas mãos. É uma experiência multiplicada! E o céu parece outro, parece mágico, como saído de um filme de fantasia ou de ficção e pergunto-me até como seria bonito se fosse possível ver os balões do espaço!
Os balões têm, contudo, sido motivo de controvérsia… Há quem se revolte por causa do seu possível impacto em incêndios florestais. Há quem se revolte por ter um voo alterado, por ter um balão caído em cima do carro ou pendurado nos fios da electricidade no dia seguinte.
É certo que antigamente não havia tantos balões, as pessoas juntavam-se mais para os lançar (chegavam a ser 20, alguns deles completamente desconhecidos, focados a lançar um mesmo balão), os balões eram feitos à mão ou pagavam-se caro nas drogarias. Talvez esta magia de milhares de balões não traduza tantos sorrisos, tanto carinho como aquele que eu aprendi a cultivar. Talvez para uns seja mais um balão, talvez para outros seja apenas importante dizer que puseram 10, 20 ou 30 balões no ar… talvez para muitos não haja desejos, não haja mensagens, sonhos ou cansaço. Talvez nem o entusiasmo de lançar um balão com um amigo ou a coragem de ver estampado num balão algo mais do que um bocado de papel, arame e serapilheira embebida em álcool. E se assim for, sim, há balões a mais, há possíveis incêndios para controlar, há voos cancelados que são uma grande chatice.
Senão… senão há magia, há cuidados (as mechas têm um tempo de vida cada vez mais curto para que se apaguem em tempo sensato), há alertas, há esforços conjuntos, há voos que ficam no chão para que saibamos, uma vez por outra, assumir que há mais cá dentro do que pessoas crescidas e homens sérios. Há manjericos que murcham se forem cheirados, há noites em que é possível martelar na cabeça de toda a gente. Nenhuma destas coisas foi criada por um espírito sério, mas antes por um coração humilde… Por qual outra razão teria durado até aos nossos dias? Porque razão faria parar voos e movimentar a atenção de bombeiros e polícias? É um equilíbrio difícil, aliás como todos os equilíbrios, mas é inexplicável a sua força.

1978

Cá vou na rusga contente,
Porque esta noite a cidade,
Mais do que um rio de gente,
É um mar de humanidade.

M. dos Prazeres de A. Lourenço

O quadro a óleo foi pintado por mim no início deste ano. Por cá toda a gente perguntou se aquela fotografia era a que tiramos há uns anos no São João… Não, não é, mas é uma imagem que está na memória de todos os portuenses. Bom São João!

 

At this time of the year, festivals take place all over the country. Santo António de Lisboa might be the most disseminated by the media. Now… in Porto, we celebrate a little bit of everything, but there’s no other festival in Porto as St John’s night. I had never been aware of it since I celebrate it every year since I was a child but, apparently, it is quite remarkable if you take into account the reactions of those who come here for the first time from other parts of the country and the world.

From the raids to the beach, the fireworks, to the famous plastic hammers and the mystical air balloons, Porto is filled with a special magic during St. Jonh’s night.

There’s this kind of basil plant that is more or less transversal to a large number of popular festivals! You can find it everywhere in small vases. You don’t smell it with your nose, or it will wither. You’ll touch it lightly with the hand and smell the arome from your hand. It’s a puzzle, but you don’t mess with traditions and no one whats a basil that withers. You can offer it as if it was a charming rose, and adorne it with a carnation and a verse. Since 1929, the Jornal de Notícias awards the best St John’s verses. Some come loaded with social criticism, but others can deeply enter your heart…

1929

When jumping over a bonfire
On the night of St. John,
I’m not sure how
I seared my heart.

Euclides Sotto Mayor

(jumping over bonfires is one of the popular traditions of this festivals and it’s usually performed by young men)

1932

As white as snow,
Red the carnation stayed:
He kissed her breast, lightly,
She was embarrassed, blushing…

Samaritana

Now the hammers… Here we use plastic hammers to hit other people’s heads. It’s odd, I know! Well, don’t feel bad. It was not the first time that we had visitors who refused to buy St. John’s hammers. The most frequent excuses are: “these are for kids to play”, “I will not use it”, “I don’t think I’m going to walk around hammering other people’s heads”, ” it might hurt”. From those who are afraid of a little bit of childish risk, to those who think they get away of hammers with a nice hat, there is a bit of everything. And I think to myself: “you’re not seeing it right”. I do not give any explanations, just notice that the hammers are more expensive near the river on St. John’s night and hope to see what happens! Invariably, when we get to downtown, to the river or the dock we have to go get hammers for everybody. Because that’s how it works: everyone here is hammering everybody, no one asks for authorization, no, you don’t only hammer on your friends’ heads, policemen are also hammered and balds and hat guys are the most requested. Some even make a point of taking it out, like proper gentlemens, to get a good hammering on their heads. And all this is done with countless smiles, laughs, an unusual complicity (especially for a big city) and there are even those who offer their head gladly to the next hammer.

Balloons are something magic during St. John’s night. Some time ago I realized that some people think that we throw one or two balloons through the city. That is a sporadic, programmed and controlled thing. It could not be more different: around here thousands of balloons are launched, every time, everywhere. They’re so many that some services are on alert (the firefighters) or conditioned (the airport).
If you have already seen a starry sky, you can imagine how crowded with small lights it could be is on a St. John’s night: the balloons with the stars in number, brightness and mysticism. There are those who make a wish, there are those who see their dreams rise with a ballon, there are those who send messages through them, there are those who feel their fatigue fly out, there are those who for nothing and do it only for pleasure, for the magic of throwing a balloon with their friends and family. In fact, while throwing a balloon, we are never alone: everyone around us, known or unknown, look at it, celebrate it, blows it to make it fly, is enthusiastic about the balloon that is in your hands. It is a focal experience! And the sky looks different, it seems magical, like the sky we sometimes see on a fantasy or fiction movie, and I wonder how beautiful it would be if you could see them from space!
However, the balloons have been controversial for quite a while… Some people get angry because of their possible impact on forest fires. There are those who get for having a flight delay, or for having a balloon fallen on the car or hanging on the electricity wires on the next day.
It is true that there weren’t that many balloons in the past, people join to launch a ballon (it might join 20 people, some of them completely unknown for each other, focused on launching the same balloon), the balloons were handmade or expensive. Maybe this magic of thousands of balloons does not translate the number of smiles or the affection I learned to nurture. Perhaps for some it is just another balloon. Perhaps for others it is only important the number of ballots they throw. Maybe for many there are no wishes to make, no messages to send, no dreams or fatigue. Maybe not even the enthusiasm of throwing a balloon with a friend or the courage to see something more than a bit of paper, wire and litter soaked in alcohol. And if so, yes, there are to much balloons, there are possible fires to control, there are canceled flights that are a big hassle.
Otherwise… well, otherwise there is magic, there is care (balloons have a shorter life time so they fade a few minutes after being launched), there are alerts, there are joint efforts, there are flights that stay on the ground so that we, once in a while, can assume that there are more inside us than grown people and serious men. There are vases of basil that are smelled, there are nights when it is possible to hammer everyone’s head. None of these things was created by a serious spirit, but rather by a humble heart… For what other reason would it have lasted until this day? Why would we stop flights and get the attention of firefighters and police? It is a difficult balance, like all balances, but its strength is inexplicable.

1978

Here I go in the raid,
Because tonight the city,
More than a river of people,
It is a sea of mankind.

M. dos Prazeres de A. Lourenço

 

The oil painting was painted by me earlier this year. Around here everybody asked if that photograph was the one we took sometime ago in a St John’s night … No, it isn’t, but it is an image that is in the memory of all of us, people from Porto. I hope you have a great St. John’s night if you happen to be in Porto!

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