Some thoughts about my Camino Inglés

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Então nós partimos novamente.

Não posso esconder, como já partilhei aqui, que estava um pouco desalinhada com esta partida apesar de ter uma vontade imensa de ir e reviver a experiência do ano passado. Ainda ponderamos repetir exactamente o mesmo trajecto já que ficamos um pouco atordoados pelo facto de irmos apenas os dois e termos muita vontade de partilhar este Caminho com a mesma equipa do ano anterior. Contudo algo nos apontava para seguir um novo caminho, tal e qual já tínhamos predestinado. Passadas as dúvidas e feitas as decisões partimos do Porto rumo a Ferrol. Quando lá cheguei ainda sentia esta desconexão. Era como se o corpo tivesse feito uma decisão e a cabeça não o acompanhasse. Era como se não tivesse ainda interiorizado a viagem, apesar das seis horas de autocarro.
O ano passado tinha sido carregado de preparativos que este ano simplesmente não necessitou. Já estava tudo praticamente feito, o investimento era mínimo: era mesmo só fazer a mochila. A única preparação que havia a fazer era interna, pessoal, mental e emocional. A mais difícil porém. Porque é bastante fácil enganarmo-nos em listas de equipamento, guias e preparativos… e fazer de conta que o resto está pronto.
Já em Ferrol, depois do jantar resolvemos procurar o início do Caminho no cais das Cruxeiras, mesmo ao pé do mar. E apesar de estarmos no local há alguns minutos, estávamos com dificuldades em encontrar as setas amarelas que nos levariam ao Caminho na manhã seguinte. Não sei se foi sinal de que não me tinha preparado devidamente, mas a verdade é que olhava à minha volta e não encontrava nada. Claramente estava a procurar “o Caminho errado”. Percebi desde logo que tinha de relaxar e disse para mim “tens de ligar o modo peregrina porque essa independência toda não é real”. Depois de deambularmos um pouco sem sucesso, perdemos a vergonha e perguntamos por indicações a um senhor alemão num pequeno bar. Ele recomendou-nos olharmos para trás e indicou-nos o sentido do Caminho. Ora, mal nos voltamos vimos o vistoso posto de atendimento ao peregrino, o monólito que indicava o inicio do Caminho inglês e as primeiras setas. Se fossem monstros, tinham-nos comido. Regra número um no Caminho: uma pergunta nunca é muito idiota e o orgulho é sempre demais. Tantas voltas para quê? A partir daquele momento as setas começaram a aparecer à nossa frente, uma atrás da outra em locais óbvios pelos quais já havíamos passado. E assim, como que a gozar com a nossa prepotência, começava o Caminho Inglês…
E na verdade Caminho Inglês não foi apenas um percurso diferente, como eu pensava. Em tudo foi especial, em tudo é diferente, em tudo novo: as pessoas, os hábitos, o piso, o desnível, o tempo, a paisagem, os albergues, as circunstâncias. Aquele início de percurso era apenas um aviso. E de muito pouco servem conhecimentos anteriores. A única coisa que sabemos minimamente é o que nos espera em termos de rotinas… fora isso, tudo muda.

O Caminho Inglês tem, em primeiro lugar, uma paisagem muito diversa em comparação com o português. Em termos de paisagem é mais ou menos dividido em duas partes: uma feita à beira mar ou pela ria, a outra por montanhas, bosques e campos agrícolas. Só no que respeita a isso há já uma postura muito diferente: sentir a água ali tão perto, ver o céu espelhado no mar, na baía de Ferrol dá uma sensação etérea, não terrena. As entradas de mar fazem baias e a foz dos rios abre-se em grandes estuários cheios de biodiversidade. São literalmente zonas de transição cujo conceito remete para o mergulho incerto que é fazer o Caminho. Talvez por este paralelismo a paisagem fosse a ideal para a segunda vez que fazia o Caminho.
Depois a segunda parte da viagem, mais no interior remete para a mudança. No ano passado senti que os primeiros dias do Caminho não foram os mais fortes a nível da experiência interior: parece que precisamos de algum tempo para entrar no espírito. Dois dias é o necessário para baixarmos as rédeas e engolirmos o orgulho. O que senti este ano foi exactamente a mesma coisa: só ao terceiro dia é que se entra verdadeiramente na experiência e a paisagem litoral foi como uma terapia para os primeiros dias que nos obrigou a parar e nos preparou para etapas mais intensas a nível físico mas também psicológico.

O Caminho Inglês é mais duro também. Se o Caminho Portugês apresenta alguns desafios, o Caminho Inglês brinca com eles e fá-los repetir-se uma e outra vez para deleite das pernas e pés. Há apenas uma ou duas etapas completamente tranquilas. E, por oposição, há outras duas ou três que são desafios bem exigentes. As saídas de Pontedeume-Betanzos e Betanzos-Hospital de Bruma, logo pela manhã, são assustadoras. A única coisa que me lembro é de subir, subir e subir! Felizmente, depois daquele aquecimento, o resto da etapa tornava-se mais elástica. Como se o corpo tivesse atingido um nível de metabolismo adequado para aquele exercício diário, logo aos primeiros quilómetros. Mas na etapa de Betanzos a Hospital de Bruma, uma etapa com cerca de 28 km, para além dos primeiros quilómetros ameaçadores, era já aos 18km que nos apareceria aquela que é considerada a pior parte do Caminho Inglês. A verdade é que os comentários entre os peregrinos acerca deste troço eram incisivos… mas o que acabamos por verificar é que este troço era, ainda assim, um pouco mais fácil do que imaginávamos. Nada como ter as metas elevadas para relativizar a dificuldade do percurso. Por outro lado a etapa de chegada a Santiago era bastante tranquila, ao contrário da do Caminho Português na qual senti alguma frustração devido ao cansaço. Neste caso, pelo contrário, deu-me oportunidade de usufruir e seguir entretida entre outros peregrinos, como o merecido prémio por me deixar domesticar por um Caminho tão desafiante.

O Caminho Inglês tem albergues menos equipados. Bom, esta afirmação não é completamente verdadeira… Há excelentes albergues como é o caso de Betanzos. Porém, há dois ou três que nos confrontam com algumas dificuldades. Pontedeume é claramente o mais complicado, o mais desafiador e talvez o pior dos albergues em que já estive. Mas tudo passa porque não se faz o Caminho sozinho e, neste caso, o “modo rebanho” faz-nos conseguir ultrapassar as dificuldades. Outro albergue complexo é o de Hospital de Bruma, mas por outras razões. O albergue em si é bom, confortável e bem servido de equipamentos. O único problema é ser pequeno, ficar no fim de uma longa etapa e onde se cruza com o Caminho Inglês vindo da Corunha. Para além disso ficar, literalmente, no meio do nada, longe de qualquer centro. Há um pequeno restaurante onde se serve de tudo e com extrema boa qualidade, uma carrinha-mercado que passa pelas 18h com alguns bens, 5 ou 6 casas, um parque infantil, uma capela que abre apenas uma vez por mês para celebrar e o albergue. E campos. Campos a perder de vista a toda a volta. Mas se vos disser que, depois de Betanzos, foi o sítio onde mais gostei de ficar e que ali, ali sim, os locais recebem os peregrinos com carinho, todos os dias… Mas a questão dos albergues não ficou por aqui: Sigueiro, a última paragem antes de Santiago é uma vila bem recheada mas não tem albergue municipal. Por causa disso, e tal como no ano passado, acabamos por ficar uma noite num albergue privado. É um luxo não precisar de saco-cama, ter quem se responsabilize pela lavagem da roupa, ter mais condições nos duches e um pequeno almoço incluido. Mas foi o dia em que passamos menos tempo no albergue: o espírito perde-se, não estamos perto da nossa “familia Caminho” e por isso acabamos por nos encontrar todos cá fora longe dos locais de descanso. Não é igual e está muito longe de reproduzir a experiência. Facilmente eu trocava aqueles “luxos” por mais uma boa noite em “família”, a última antes de Santiago.

O Caminho inglês tem gente de “todo o lado”. Mais do que o Caminho Português, o Caminho Inglês obriga-nos a cruzar muitas fronteiras. Éramos os únicos portugueses e convivemos com gente de toda a parte. Mas as verdadeiras fronteiras foram as que encontramos dentro das pessoas. Se bem que o Caminho Português tem mais gente e é por isso mais difícil ligarmos-nos mais profundamente, devo dizer que o Caminho Inglês parece ter peregrinos com mais “razões” mais “motivos”, para além de uma proposta turística, do que o Caminho Português. Há muitas “mudanças de vida”, muitos “corações partidos”, muitas “relações para a vida”, muitas razões “religiosas”, muitas “aventuras”, muitas “promessas”, muitos “pedidos de casamento” por trás de cada um dos peregrinos. Há muitas histórias para contar, muitas experiências únicas que fizeram de cada peregrino que conheci uma pessoa especial e com a qual mantive contacto. Creio que me apercebi disso tarde demais. Hoje teria perguntado a todos pelos quais passei que motivações tinham para fazer o Caminho. Por outro lado, muito mais do que no Caminho Português, vêm-se muitos peregrinos sozinhos, casais, grupos de três no máximo, mas poucos, muito poucos grupos. O resultado disso é que as ligações ao longo do tempo se multiplicam: é fácil puxar uma cadeira e juntar mais um, é fácil partilhar o pouco que temos, é fácil dizer um segredo, confessar um pensamento porque há pouca gente a ouvir. É fácil seguir caminhando com outros, é fácil esperar por alguém, é fácil fazer poucas perguntas e receber muitas respostas. O Caminho Inglês é mais difícil mas é mais fácil chegar mais longe…

 

Then we left again.

I can not hide, as I have already shared here, that I was a bit out with this despite having a huge desire to go and live the experience of last year again. We considered repeating exactly the same route as last year because we were a bit stunned by the fact that there were just the two of us, and that we wanted to share this Camino with the same team of the previous year. Yet, something pointed us to follow a new Camino, just as expected. After the doubts and decisions, we left from Porto to Ferrol. When I got there I still felt this disconnection. It was as if my body had made a decision and my head did not. It was as if I had not yet internalized this trip, despite the six-hour bus ride until Ferrol.
Last year I had been loaded with preparations that this year simply did not required. It was all done, the investment was minimal: we just needed to fill our backpacks. The only preparation I had to do was internal, personal, mental and emotional. The most difficult however. Because it’s easy enough to fool ourselves into lists of equipment, guides and preparations… and pretend that the rest is ready too.
That night in Ferrol, after dinner, we decided to look for the beginning of the Camino Inglés in the Cruxeiras pier. And standing on the spot for a few minutes, we were having trouble finding the yellow arrows that would lead us on the Camino the next morning. I do not know if it was a sign that I had not prepared myself properly, but the truth was that we looked around and found nothing. Clearly we were looking for “the wrong way, the wrong Camino”. I realized right away that I had to relax and said to myself: “You have to call the pilgrim inside you because this whole independence you think you have is not real.” After wandering a little without success, we started to be a pilgrim and simply asked for directions to a German gentleman in a small bar. He advised us to look back and pointed us to the direction of the Camino. As soon we returned, we saw the colorful and huge and big service pilgrim station, the monolith that indicated the beginning of the Camino Inglés and the first arrows of the route! If they were all monsters, they’d eaten us is a second. Rule number one on the way: a question is never too stupid and pride is always too much. So many turns for what? From that moment the arrows began to appear before us, one behind the other in the most obvious places through which we had already passed! And so, as teasing us for our arrogance, the Camino Inglés began…
Actually, the Camino Inglés was not just a different route as I thought. Everything was special, everything was different, new: the people, the habits, the route, the weather, the landscape, the albergues, the circumstances. That start-up was just a warning! And I did very little use of previous knowledge. The only thing we know that is useful is some of the routines… everything else changes.

The Camino Inglés has, in the first place, a very diverse landscape compared to the Portuguese. In terms of landscape one can say it is divided into two parts: the first made by the sea or by the river, the second by the mountains, woods and agricultural fields. This provoked very different attitudes inside us: to feel the water there so close, to see the sky mirrored in the sea, in the bay of Ferrol gives an ethereal, not earthly sensation. The sea entrances create bays and the mouths of the rivers open in large estuaries full of biodiversity. This are literally zones of transition and the transition concept also reflects the uncertain dive that is to make the Camino. Perhaps this parallelism with landscape was the ideal one me, while walking my second Camino.
After this, the second part of the Camino, in the mountains refers to “change”. Last year I felt that the first days of the journey were not the strongest in the inner experience: it seems that we need some time to get into the spirit. Two days is what it takes to get the our routines out and swallow our pride. What I felt this year was exactly the same thing: it was only on the third day that I truly entered into the experience. And the coastal landscape was like a therapy for the first few days that forced us to stop and that prepared us for a more intense physical (but also psychologic) stages of the second part of the journey.

The Camino Inglés is tougher too. If the Portuguese way presents some challenges, the Camino Inglés doubles them and makes them repeat over and over again for the delight of our legs and feet. There are only one or two easy days. And, by contrast, there are another two or three that have very demanding challenges. The exits from Pontedeume-Betanzos and Betanzos-Hospital de Bruma days, at dawn, are scary. The only thing I remember is to go up, up and up! Fortunately, after that warm-up, the rest of the stage became more elastic. As if the body had reached a level of metabolism suitable for that daily exercise very soon, at the first kilometers of the journey. But in the stage from Betanzos to Hospital of Bruma, a stage with 28 km, in addition to the first threatening miles, it was only after 18km that we would venture on the worst part of the Camino Inglés. The truth is that the comments among the pilgrims about this section were incisive… but what we realized is that this section was not as harsh as we imagined. Nothing like having high goals to relativize the difficulties!
On the other hand the last stage and the arrival in Santiago de Compostela was quite quiet, unlike the one on the Portuguese Camino where I felt some frustration due to fatigue. In this case, the stage it gave me the opportunity to enjoy and remain entertained among other pilgrims, as the well-deserved prize for letting me tame during this challenging Camino.

The Camino Inglés has less equipped albergues. Well, this statement is not completely true… There are excellent albergues as is the case of Betanzos. However, there are two or three with some issues. Pontedeume is clearly the most complicated, the most challenging and perhaps the worst albergue I have ever been to. But everything passes because the Camino is not made alone and, in this case, the fact that we were all in the same situation helped us to manage and to overcome the difficulties. Another complex albergue is Hospital de Bruma, but for other reasons. The albergue itself is good, comfortable and well-equipped. The only problem is that it is more on the small side, stays at the end of a long journey from Betanzos and it crosses the Camino from La Coruña which means more pilgrims. Plus it stays literally in the middle of nowhere, far from any center. There is a small restaurant with extremely good quality food, a market in a van that passes at 6pm with some goods, 5 or 6 houses, a playground, a chapel that opens only once a month and the hostel. And fields. Fields everywhere you look and all around. But if I can tell you that, after Betanzos, it was the place where I most enjoyed staying and that where the locals receive the pilgrims with more affection, every day…
But the albergues issue did not stop here: in Sigueiro, the last stop before Santiago de Compostela, is a well equipped village but does not have a public albergue. Because of this, and just like last year, we ended up staying overnight at a private albergue. It is a luxury not to need a sleeping bag, to have someone responsible for washing clothes, to have better conditions in the showers and a breakfast included. But it was the day when we spent less time in the albergue: the camino spirit is lost, we are not close to our “camino family” and so we left our albergues and met all together out from the resting nest. It is not the same to stay at a private albergue as it is to stay at the public and is far from reproducing that experience. I easily exchanged those “luxuries” for another good night with my “camino family”, the last night one before Santiago de Compostela.

The Camino Inglés has people from “everywhere”. More than the Portuguese Camino, the Camino Inglés forces us to cross many boundaries. We were the only Portuguese in the group and we met people from all over the world. But the real frontiers were the ones we found inside people. Although the Portuguese Camino has more people and is therefore more difficult to connect more deeply, I must say that the Camino Inglés seems to have pilgrims with more “reasons”, in addition to a regular touristic motivation to walk, than the Portuguese Camino. There are many “life changes”, many “broken hearts”, many “relationships to life”, many “religious” reasons, many “adventures”, many “promises”, many “marriages” behind each one of the pilgrims the do the Camino Inglés. There are many stories to tell, many unique experiences that have made every pilgrim I met a special person and with whom I still have contact with. I think I realized that too late. Today I would have asked everyone I met what motivations they had to walk the Camino.
On the other hand, much more than in the Portuguese Camino, there are many pilgrims alone, or couples, groups of three maximum, but few, very few groups. The result is that the links over time are multiplied: it’s easy to pull a chair and add one more pilgrim to your table, it’s easy to share the little we have, it’s easy to tell a secret, confess a thought because there are few people listening. It is easy to keep walking with others, it is easy to wait for someone, it is easy to ask few questions and receive many answers. The Camino Inglés is harder but it’s easier to get further…

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Book Review: Cloth Lullaby

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Há poucos dias recebi uma encomenda com o livro “Cloth Lullaby” escrito por Amy Novesky e ilustrado pela fabulosa Isabelle Arsenault. A minha obsessão por livros infantis não é novidade aqui no blog e posso dizer que, apesar de folheá-los nas livrarias e gerir o impulso de adquirir estas obras seja a minha forma preferida de os ir conhecendo e fazer a minha colecção, comecei a ter os eus escritores e ilustrador favoritos e a dirigir cada vez mais a minha pequena colecção para as minhas preferências pessoais. Entre os temas que mais me interessam estão, naturalmente as histórias relacionadas o contacto com a natureza, as emoções, a arte e o fazer à mão.

 

“Cloth Lulaby, the woven life of Louise Bourgeois” não é mais do que uma história ilustrada, e ricamente transformada, da biografia da artista parisiense Louise Bourgeois. Não poso deixar de confessar que encontrei este livro por causa das suas ilustrações mas acabei por fazer uma descoberta extraordinária. A obra mais conhecida de Loiuse é a incontornável Maman, uma aranha de tamanho colossal exposta no Museu Guggenheim Bilbao e acerca da qual eu não sabia muito mais do que o facto de ter como inspiração a mãe de Louise. Ora, este pequeno livro dirigido aos mais pequenos conta que a família de Loiuse era na verdade especialista em produção e restauro de tapeçaria, um trabalho levado a cabo pela família materna de Louise e que esta acompanhara mais de perto através da sua mae e pelo seu próprio trabalho na fábrica. Diz-se que como era ainda muito pequena quando começou, era particularmente boa a restaurar os pés das personagens desenhadas nas grandes tapeçarias que chegavam à fábrica. A sua mae era, como dizia Louise, “Deliberada… Paciente, assertiva… Subtil, indispensável… e tão útil como uma aranha.” Tal como uma aranha remenda a sua teia, Louise via na sua mãe uma forte inspiração para o acto de fazer à mão e de forma artística e positiva.
Louise começa por estudar matemática entusiasmada pela sua estabilidade semelhante ao nascer do sol, as estrelas no céu e a geometria. Mas desanima ao compreender que na verdade nada disso, nem mesmo a matemática, é absolutamente previsível. Após a morte da mãe desiste de estudar matemática e dedica-se às artes aplicando todas as competências que adquirira em criança com a mãe e com o seu trabalho na fábrica de família na área da tapeçaria, utilização de tecidos, costura e escultura.
Hoje é considerada uma das maiores artistas europeias contemporâneas fortemente influenciada pelas vertentes surrealista, primitivista e modernista. Os seus trabalhos são carregados de simbolismo e por essa razão altamente abstratos e elaborados. Contudo, envolvem processos e técnicas que podemos reconhecer no nosso dia a dia e pelas quais eu e muitos artesãos e amantes do “saber fazer” se apaixonam e tentam colocar ao serviço do seu quotidiano. Conhecer um pouco melhor a história e o trabalho da Louise, sobretudo através de textos e ilustrações com as mesmas características primárias, aproxima-me mais ainda de todos os “lavores” que tenho vindo a aprender ao longo da minha vida.

 

A few days ago I finally received an order with the book “Cloth Lullaby” written by Amy Novesky and illustrated by the fabulous Isabelle Arsenault. My obsession with children’s books is not new for those who follow me here and I can say that although I love to wander over bookstores discovering new books, I began to have and follow my favorite writers and illustrators and to slowly direct my small collection to my personal preferences with means that, sometimes, I simply order them on-line. The stories that I am most interested are, naturally, the stories related to the contact with nature, the emotions, the art and the handmade.
 

 

“Cloth Lulaby, the woven life of Louise Bourgeois” is an illustrated and richly transformed story of the biography of the Parisian artist Louise Bourgeois. I can not help confessing that I found this book because of the illustrations but I ended up doing an extraordinary discovery. The best-known work of Louise is the unique Maman, a colossal-sized spider exhibited at the Guggenheim Museum in Bilbao. I knew very little about it. I just knew that the inspiration for the art piece was Louise’s mother. Well, this small children book tells us that the family of Loiuse was in fact a specialist in the production and restoration of tapestry, a work that she had followed more closely through her mother and her own work in the fabric. It is said that since she was still very small when she started working with her mom, she became particularly good at weaving the feet of the characters drawn in the huge tapestries that arrived at the fabric. She became fascinated by her mother skills. Louise said that her mother was “Deliberate … Patient, shooting… Subtle, indispensable … and as useful as an araignée.” Just as a spider mends her web, Louise saw in her mother as a strong inspiration for the act of doing by hand and developed a strong, positive and artistic point of view about her work.
Louise studied mathematics for a while excited by its stability similar to the sunrise, the stars in the sky and geometry. But she suddenly she realize that none of this, even mathematics, is absolutely predictable. After her mother’s death she gave up studying mathematics and devoted herself to the arts applying all the skills she had acquired as a child with her mother and her work in the family factory. She worked with weaving, fabrics, sewing and sculpture.
Today she is considered one of the greatest contemporary European artists, strongly influenced by the surrealist, primitivist and modernist dimensions. Her works are heavily charged with symbolism and for that reason, are highly abstract and elaborate. However, her art pieces always they involve processes and techniques that we can all recognize in our daily lives and for which I and many artisans and lovers of the “handmade” fall in love and try to apply to our daily lives. Knowing Louise’s story and work a little better, especially through texts and illustrations with the same primary characteristics, brings me closer to all the “lessons” on handmade that I have been learning throughout my life.
 
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Book Review: O livro de Pantagruel

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O Livro de Pantagruel. Esta é a minha bíblia culinária e dispensa apresentações: deve ser a Bíblia culinária de quase todas as portuguesas de diversas gerações! Alguns destes exemplares já devem, inclusive, ter passado de mães para filhas, várias vezes desde que foi editado pela primeira vez. Escrito pela cantora lírica Berta Rosa Limpo, é um excelente exemplo do tempo em que os livros de cozinha que eram da autoria de bons cozinheiros amadores.

“Mas afinal ela é cantora ou cozinheira? Compõe músicas ou refogados? Pois podem crer que faço ambas as coisas com o mesmo entusiasmo.”

Berta Rosa Limpo

No tempo em que o segredo profissional dos grandes chefs era a alma do seu negócio, eram as boas cozinheiras amadoras que se dedicavam a escrever livros básicos para quem quer aprender a cozinhar!
Muito mudou até hoje e, no que diz respeito ao Livro de Pantagruel, desde 1946 que já foram editadas 73 edições daquela que é considerada a maior obra de culinária em língua portuguesa. As edições mais recentes contam com a reavaliação de ambos os filhos de Berta Rosa Limpo e 5000 receitas testadas.

Creio que muitos de nós guardam uma imagem infantil deste livro: aquele que parecia tão grosso que achávamos ser impossível de ler mas que entre mães e avós parecia conter uma enorme quantidade de sabedoria e credibilidade. Era um livro sério, algo misterioso. Tão sério como uma boa enciclopédia, como um livro de feitiços, de magias, que ensinavam as mãos de todas as senhoras a cozinhar as coisas mais maravilhosas!

E a verdade é que o Livro de Pantagruel é, tal e qual nos lembramos, um livro intenso: aliás, como se queria de um livro naquele tempo. Um livro que ensinasse a cozinhar desde os processos mais simples às receitas internacionais mais complexas. Desde os licores (foi aqui que encontrei a receita base para o meu licor de menta), ao pão, aos assados e aos cocktails! Este livro contaram recolha intensa de 5000 receitas densamente apresentadas mas carinhosamente escritas. A apresentação pouco se alterou desde a primeira edição, os termos parecem ter saído do discurso das nossas avós e são muitas vezes intercalados com pequenos versos ou citações de autores como Eça de Queiroz ou Fernando Pessoa. Ficamos logo a saber que estamos perante um livro sério, escrito por quem sabe, por quem fez e testou, vezes sem conta, e quis disponibilizar ao mundo os segredos, não de um chef de alta cozinha, mas de um cozinheiro caseiro. Contudo não podemos esconder que são inúmeros os chefs profissionais que o utilizam e o reconhecem como um livro insubstituível em pequenas e grandes bibliotecas culinárias!

The “Livro do Pantagruel”. This is my cooking bible and, in Portugal, it doesn’t need any kind of presentations: it is probably the cooking bible of almost all Portuguese of several generations! Some of the copies of this book have passed from mothers to daughters, several times since it was first published in 1946. Written by the lyrical singer Berta Rosa Limpo, it is an excellent example of the time in which cookbooks were written by good amateur cooks.

“But is she a singer or a cook after all? Does she makes music or food? You must believe that I do both with the same enthusiasm.”

Berta Rosa Limpo

At a time when the professional secret of the great chefs was the lifeblood of their business, amateur cooks were the ones that dedicated themselves to writing basic books for anyone who wants to learn how to cook!
Much has changed until today and, as far as the “Livro de Pantagruel” is concerned, since 1946, 73 editions have been edited of what is considered the greatest written work about cooking in Portuguese language. The most recent editions are reviewed by both Berta’s children and already have 5000 tested recipes.

I think many of Portuguese have a childish picture of this book: the one in our grandmother’s bookshelf that looked so thick we thought it was impossible to read it in a lifetime, but that also seemed to contain an enormous amount of wisdom and credibility. It was a serious book, something mysterious. As serious as a good encyclopedia, or a book of spells which taught the hands of all the ladies to cook the most wonderful things!

And the truth is that the “Livro de Pantagruel” is, as we recall, an intense book in fact, as expected from a book at that time. A book that taught cooking from the simplest processes to the most complex international recipes. From liqueurs (this is where I found the base recipe for my mint liqueur), bread, baked goods and cocktails! This book features an intense collection of 5000 densely presented, but lovingly written, recipes. The presentation has hardly changed since the first edition, the terms seem to have come out of the discourse of our grandmothers and are often interspersed with small verses or quotes from authors such as Eça de Queiroz or Fernando Pessoa. We soon learn that we are dealing with a serious book, written by someone who really knows about cooking at home. Someone who has done and tested her recipes over and over again and who wanted to make her secrets available to the world, not from a gourmet restaurant point of view, but from a homemade kitchen. However we can not hide that there are countless professional chefs who use it and recognize it as an irreplaceable book in small and large culinary libraries!

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Book Review: Dark Sky Alqueva

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Há uns tempos visitei pela segunda ou terceira vez a zona do Alqueva. Esta é uma das minhas zonas favoritas em Portugal. Eu viveria ali, oh, sem dúvidas.
Já demonstrei aqui e aqui a minha paixão pela astronomia e não pude deixar de visitar a sede do Dark Sky. Inscrevi-me numa actividade com a Miguel Claro que adorei do primeiro ao último minuto! No fim não consegui conter-me e trouxe uma cópia do livro “Dark Sky Alqueva” com um autógrafo do autor. Mais, a memória desta actividade tinha de ficar gravada no meu Diário de Natureza, como vos mostrei no Instagram.

Livros são o meu calcanhar de Aquiles. Já partilhei a minha paixão por livros infantis e prometo fazer um novo post com mais sugestões, mas a minha paixão não fica por aí. Assim como quem põe flores em casa, eu adoro ter livros, sobretudo livros de imagens como pintura e fotografia, espalhados aqui e ali, à mão de semear, e que qualquer pessoa possa rapidamente pegar e deixar-se inspirar. E quando vi as primeiras páginas do Dark Sky percebi como une de forma perfeita a relação entre a ciência e a arte, um assunto que está (cada vez mais) relacionado com a minha área de estudo e trabalho. Eu tinha mesmo de o trazer comigo sobretudo depois daquela actividade com o autor!

O Miguel é muito “terra-a terra” e tem uma atitude honesta, humilde e feliz por partilhar um pouco do que sabe com aqueles que se dirigem ao fim do dia a uma aldeia perdida no meio do nada, para parar e olhar para o espetáculo de luzes que a natureza nos oferece em qualquer lugar. Mas ali, ali há uma janela com menos filtros, menos poluição e uma paixão enorme pelo que se faz que nos desperta para o que a rotina nos retira: esse poder que o cosmos tem de nos absorver por completo, de nos abstrair e nos fazer sonhar um pouco, acordados e sem vergonha. Ora o seu livro partilha um pouco dessa atitude inspiradora, algo misteriosa, que os astros provocam em nós e que se captura com muito trabalho, muito equipamento, muita técnica mas sobretudo muitos sonhos. Ali respeita-se a ciência, a constância aparente das esrelas, os ritmos fieis da Lua, traz-se o passado para o presente, encolhem-se distâncias, focam-se mundos distantes e nada disso é ilusão. Parece até mentira! Mas brinca-se. Até para brincar é preciso saber. O Miguel brinca… com a luz e o tempo.

Nota: vêm aquela manta em crochet no canto da primeira fotografia? É esta manta!

Some time ago I visited the Alqueva area for the second or third time. This is one of my favorite locals in Portugal, I could live there, for sure.
I have already demonstrated my passion for astronomy here and here, so I could not miss visiting the main spot of the Aqueva Dark Sky. I enrolled in an activity with Miguel Claro that I loved from the first to the last minute! In the end I could not contain myself and I brought a copy of the book “Dark Sky Alqueva” with an autograph of the author. Plus, this activity was also represented in my Nature Journal as you could see in my Instagram profile.

Books are my Achilles heel. I have already shared my passion for children’s books and I promise to make a new post with more suggestions, but my passion does not end there. Just like spreading flowers at home, I love having books, especially picture books like painting and photography, here and there so that anyone can quickly pick one and let themselves be inspired. And when I saw the first pages of the book Dark Sky I realized how perfectly it proves the beautiful relationship between science and art, a subject that is (more and more) very related to my area of study and work. I really had to bring it with me, especially after that activity with the author!

Miguel is very friendly and has an honest, humble and happy attitude about sharing a little of what he knows with those who go, at the end of the day, to a village lost in the middle of nowhere, to stop and look at the spectacle of lights that nature offers us everywhere. But there, there is a window with less filters, less pollution, and a huge passion for what he does and that awakens us to what routine takes from our mind: this power that the cosmos has to absorb us completely, to abstract us and make us dream a little, awake and without shame. And his book shares a bit of that inspiring, somewhat mysterious attitude that the stars provoke in us and that he captures with a lot of work, a lot of equipment, a lot of technique but above all a lot of dreams. There, science is respected as long as the apparent constancy of the stars, the faithful rhythms of the moon. And the past is brought into the present, distances are shrunk, distant worlds are focused and none of this is illusion. It seems like a lie but it is real! But there is also a lot of playing… And even to play we must have knowledge. Miguel plays… with the light and time.

Note: see that crochet blanket in the corner of the first photo? It is this blanket!

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