Book Review: My guide for the Camino de Santiago

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Este mês está a ser desenhado à volta da minha experiência no Caminho de Santiago de Compostela, por essa razão, o meu “Book review” não podia ser outro senão sobre o guia que levei comigo no Caminho. Há uma enorme quantidade de livros sobre o Caminho de Santiago que visam cobrir os diferentes caminhos até Santiago de Compostela, as diversas vertentes a explorar (turística, religiosa, etc) e com diferentes profundidades. Mas apenas alguns são realmente guias…
Sendo que ia fazer o Caminho Português, consegui rapidamente reduzir esta variedade para um número mais limitado. Contudo, a diversidade continuava grande e por isso eu tive de ser prática. É muito diferente ter um guia para preparar o Caminho de outro para levar no Caminho. Pode, inicialmente parecer uma distinção absurda mas a minha experiência diz-me que um detalhe tão simples, durante o Caminho, faz toda a diferença. A maior parte dos guias são guias turísticos, tal como aqueles que levamos connosco para visitar uma cidade europeia. Estes são os melhores guias para preparamos o Caminho mas nem todos são os melhores para levarmos connosco na mochila. Um guia destes acompanhado com uma boa pesquisa on-line é a combinação ideal para quem se quer preencher de informação que o motive, que o faça apreciar mais o Caminho, que o faça entender o que está prestes a fazer.
Por outro lado, durante o Caminho, o guia, tal como muitas outras coisas que levamos connosco tem de ter as seguintes características: ser leve, pequeno, ter apenas a informação base, contactos dos albergues, espaço para alguns apontamentos, mapas das etapas, gráfico de desníveis, pontos de interesse e, acima de tudo, ser escrito por outros peregrinos. Esqueçam a ideia de que vão precisar de muita informação ou de que terão muitas oportunidades de se dedicarem a ela durante o Caminho.

O guia que, a meu ver, melhor cumpre o equilíbrio entre todas estas coisas é o guia “Caminho Português de Santiago de Compostela – MY WAY”. Este é um guia claramente informal, escrito de peregrinos para peregrinos: a linguagem é terra a terra, tal como tudo no Caminho. Não há palavras caras nem devaneios excessivos porque o Caminho é um exercício de desapego no qual todos caminhamos iguais. E o excesso de palavras e floreados também conta.
Precisamente porque não se perde com coisas extraordinárias é um guia pequeno: não pesa mais de 120g e cabe perfeitamente no bolso lateral de uns calções, calças ou no compartimento mais pequeno da mochila. Como tem um orifício, pode ainda ser pendurado por um mosquetão pequeno nos elásticos e fitas da mochila o que o torna igualmente acessível. Esta questão do peso/tamanho é imprescindível visto que o peso da mochila é das questões mais desafiantes e importantes a ter em conta para o bem-estar dos peregrinos.

O guia inicia-se com uma breve história dos Caminhos de Santiago, em especial o Caminho Português, os símbolos associados às peregrinações a Santiago de Compostela, uma série de perguntas e respostas e uma lista de material para o peregrino a pé ou de bicicleta. Daqui para a frente são apresentados os três principais caminhos em Portugal que levam a Santiago de Compostela: o Caminho de Braga, o Caminho da Costa e o Caminho Central.
Cada etapa está exposta da seguinte forma: número de quilómetros; frase de inspiração; uma breve descrição da etapa com os locais onde passa, as dificuldades a ter em conta e alguns conselhos práticos; espaço para apontamentos (eu preferi usar este espaço com post-its com conselhos de outros peregrinos); pontos de interesse ao longo da etapa por localidade; contactos de albergues e locais para comer; curiosidades; gráfico de desníveis e mapa da etapa. O livro finaliza com um pequeno guia para Santiago de Compostela, os principais “rituais” da chegada e locais a visitar.

Tudo isto parece muito pouco para quem quer explorar um local mais aprofundadamente ou entender todos os segredos da história do Caminho Português. A minha opinião é a seguinte: isso é uma coisa que se faz em casa ou nos eventuais momentos em que tivermos tempo e energia para mais. No caminho as tarefas são muito resumidas. À medida que avançamos no percurso, vemos como, na verdade, o dia do peregrino se foca num número muito pequeno de tarefas que são absolutamente essenciais: caminhar, comer e dormir… e repetir isto diariamente. É isso que o torna encantador. Há espaço para mais, claro que há… se for possível! E este tempo extra em geral é “gasto” a ajudar o corpo a recuperar, a conviver com outros peregrinos (sim, mesmo para introvertidos como eu), a reflectir e a passear um pouco pelas vilas onde estamos alojados. Se por acaso quisermos ter connosco algum material que nos permita uma consulta esporádica mais aprofundada o que eu aconselho é aproveitar as ligações wi-fi nos albergues e ter algum material digital no telemóvel do qual falarei noutro post!

This month is being developed around my experience on the Camino de Santiago de Compostela, so my “Book review” could not be other than about the guide I took with me on the Camino. There is a huge amount of books about the Camino de Santiago that cover the different routes to Santiago de Compostela, the different aspects to explore (tourism, religious, etc.) and with different depths. But only a few are true guides…
Since I was going to walk the Portuguese Camino, I was able to quickly reduce this variety to a more limited number of books. However, the diversity was still big and so I had to be practical. It is very different to have one guide to prepare the Camino than a guide to take on the Camino. At first, this may seem an odd distinction but my experience tells me that such a simple detail makes all the difference while you’re walking. Most guides are tour guides, just like those we take with us to visit an European city. These are the best guides to prepare the Camino but not all are the best to take with us in our backpack. A guide like these along with a good online research is the ideal combination for those who want to have all the information that might motivate and make us appreciate intensively the Camino in a historical way.
On the other hand, the guide you need during your pilgrimage must have the following characteristics: be light, small, have only basic information, albergue contacts, space for notes, slope graphics, points of interest and, above all, it must be written by other pilgrims. Forget the idea that you will need a lot of information or that you will have many opportunities to dedicate yourself to it during the Camino.

The guide that, in my opinion, meets the balance between all these things is the guide “Portuguese Way of Santiago de Compostela – MY WAY”. It is available in several languages: Portuguese, English, French, German and Spanish. This is an informal guide, written from pilgrims to pilgrims: the language is simple, just like everything on the Camino. There are no complicated words or excessive formality because the Camino is all about detachment, a path in which we all are the equal. And the excess of words and ornamentations also counts for this!
Precisely because the guide is base on the essencial, it is a very small guide: it weighs no more than 120g and fits perfectly in the side pocket of shorts or pants, in the smallest compartment of your backpack. As it has this hole, through it can be hung by a small carabiner on the backpack, which makes it equally accessible. This issue about weight/size is imperative since the backpack’s weight is one of the most challenging and important issues to take into account for the well-being of pilgrims on the Camino.

The guide begins with a brief history of the Camino de Santiago, especially about the Portuguese Camino of course, the symbols associated with the pilgrimages to Santiago de Compostela, a section of Q&A and a list of equipment for pilgrims on foot or bicycle. Then it explores the three main routes in Portugal that lead to Santiago de Compostela: the Camino from Braga, the Camino by the Coast and the Central Camino.
Each stage is exposed as follows: number of kilometers; inspirational sentence; a brief description of the stage with the places where it passes, the challenges to be taken into account and some practical advice; space for notes (I preferred to fill this space with post-its with some advice of other pilgrims); points of interest throughout the stage, by location; contacts of albergues and places to eat; curiosities; slope graphic and a stage map. The book ends with a short guide to Santiago de Compostela, the main “rituals” for your arrival and the places to visit.

All this might seem very little for those who want to explore a place more deeply or understand all the secrets of the history of the Portuguese Camino. My opinion is this: this is something that is done at home or at the very few times when your have the time and energy for more… That is not very common and does not worths a more complicated and heavy guide. On the Camino the everyday tasks are few. As we move forward, we see how the pilgrim’s day really focuses on a very small number of tasks that are absolutely essential: walking, eating and sleeping… and repeat this every single day. That’s what makes it special! There is room for more, of course there is … if it is possible! And this extra time is usually “spent” helping the body to recover, socialize with other pilgrims (even for an introvert like me), to reflect a bit and to take a walk around the villages where you’re are staying. If you happen to want to have some extra material that allows you a more detailed (sporadic) consultation, my I advise is to take advantage of the wi-fi connections in the albergues and to have some digital material on your mobile phone. I might be explore this in another post!

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Camino de Santiago: no expectations.

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Já falei aqui antes sobre a pergunta “porquê?”. Mas confesso que a primeira questão que me colocaram foi “quais as tuas expectativas?”
A minha resposta foi tão honesta quanto possível: “eu não tenho expectativas.”
Em troca recebi um nariz torcido. “Como assim? Vais andar quilómetros a pé sem teres nada em mente? Não é coisa que se faça apenas por fazer… Tens de ter algo para te guiar!”

Hoje em dia há uma certa confusão entre objectivos e expectativas, é certo. Porque eu nunca disse que não tinha objectivos. Em princípio todos temos objectivos: é isso que nos faz tomar decisões em vez de ir apenas na maré. Expectativas são uma consequência de compromisso e, por isso, habituei-me a tê-las para aquilo que depende apenas do meu próprio esforço e dos que me amam como a família e amigos de coração… nunca para algo que não posso controlar. Já o fiz, e não foi bom.
Quantos de nós esperávamos que o nosso dia de aniversário fosse “aquele dia” e, em vez disso, tivemos direito a um dia chuvoso, cheio de trabalho no qual todos pareciam fazer o frete de vir dar-nos os parabéns e ainda levamos um ralhete do chefe que até estava mal disposto? E o trânsito que ficou ao fim do dia? E o bolo que ainda vamos ter de fazer ao chegar a casa? Que grande chatice…

Não quero com isto dizer que não possamos sonhar, mas exigirmos isso como “real” faz-nos ficar frustrados com qualquer outra coisa que apareça em sua substituição. Mesmo que seja igualmente boa, não é o que imaginamos… Quando procuramos muito uma coisa perdemos a noção de tudo o resto porque estamos focados apenas nela. Se o olho humano tem visão periférica, saibamos aproveitá-la quando há oportunidade para isso já que estamos, hoje em dia, em modo constante de focagem automática.

O Caminho é um desafio mental, físico, social, emocional e espiritual… Pode não ser todas estas coisas ao mesmo tempo para todos os que o fazem mas, invariavelmente, batemos de encontro a pelo menos duas ou três destas coisas.
Atracar isso a ter dias solarengos, dias de isolamento total, dias completos no meio da natureza, noites dormidas profundamente por força do cansaço, dias de mudança de vida, de fazer amigos de todo o mundo, de comer bem, de resolver relações amorosas, de resolver problemas do trabalho, de despertar, de voltar outra pessoa, de encontrarmos resposta para a nossa relação com Deus ou outras missões que tais, e sobretudo em condições tão desafiantes, é puxar a corda. É não facilitar a vida a ninguém. É não ser amigo de nós próprios. É criar frutrações numa experiência que é suposto ser vivida e não apenas cumprida.
Se o caminho é facilitador em alguma coisa é em deixar cair tudo isto. É uma questão biológica: nenhum de nós fica preocupado com o aquecimento global enquanto tiver fome, sede, frio, sono, cansaço e uma enorme vontade de ir à casa de banho. Há prioridades. Enquanto as necessidades básicas não estão supridas, nada mais importa. Está nos genes, felizmente, porque é uma questão de sobrevivência. Não podemos simplesmente escolher.

Por esta razão, eu quero ir sem expectativas. Quero ficar aberta, isso sim, ao que vier: ficarei animada se houver dias de sol; para alguém tímido como eu, poder ficar isolada alguns minutos por dia seria uma benção; seria óptimo se pudesse realmente dormir acampada perto de um charco sem o ressonar do peregrino da cama do lado ou adormecer à luz das estrelas; seria excelente vir com certezas sobre o meu futuro ou deixar os medos de parte; comeria com prazer, estaria com Deus a cada segundo e fortaleceria as minhas relações com os meus companheiros de caminho… Mas não posso controlar nenhuma destas coisas, sobretudo se estiver ocupada em gerir o cansaço, em comprar algo para comer que preencha as minha necessidades metabólicas ou a tentar encontrar um local onde pernoitar.

Ficar aberta é receber o que vier, é ficar atenta, é ver nas pequenas coisas as maiores maravilhas do mundo, é ficar emocionada com o canto de uma ave, é ter um sorriso cúmplice com outros peregrinos, é compreender outras culturas que se cruzam comigo, é estar à distância de um simples “olá” e perceber que afinal eu até preciso de falar de vez em quando (porque, sejamos sinceros, quando não há trabalho, não há ensaios, não há livros, projectos handmade, hobbies, quando há quilómetros pela frente, sem tablet, televisão, pipocas, sofá e um filme, sem internet, quando a energia e os dados são limitados e estamos rodeados das mesmas pessoas 24h por dia… nós acabamos por falar, e falamos de coisas fascinantes!). Ficar aberta é conhecer a força interior, é perceber o valor das coisas que temos, é criar espaço para filosofar sem vergonha, é receber de braços abertos, é perceber que alguém precisa da nossa mão. É conhecer para amar melhor.
Todas estas coisas podem, isso sim, levar a experiências maravilhosas e inesquecíveis… sem haver a obsessão com nenhuma que nos feche os olhos a tudo o que se passa à nossa volta.

Normalmente vivemos convencidos de que sabemos exactamente o que precisamos. A maior parte das vezes não é verdade. A maior parte das vezes o que acontece é que não nos damos o espaço para ouvir o nosso corpo e a nossa alma pedirem… E raramente o sabemos até fazermos a seguinte experiência: dar-nos um momento e ver o que o corpo e alma absorvem. É disso que temos sede.

Estas fotografias foram tiradas na albufeira do Azibo, numa das últimas caminhadas que fiz como treino para o Caminho de Santiago. These photos were taken in albufeira do Azibo, Portugal,  during one of my last hiking trails as training to the Camino de Santiago.

 

I have already wrote about the question “why?”. But I confess that the first question someone ever made me was “what are your expectations on the Camino?”
My answer was as honest as possible: “I have no expectations.”
I got a twisted nose from the person that asked. It’s ok… “How? Are you going to walk miles without having anything in mind? It’s not something you do just go for… You have to have something to guide you!”


Nowadays there is a certain confusion between goals and expectations, that’s for sure. Because I never said I had no goals. Usually we all have goals: this is what makes us take decisions instead of going in with the tide. Expectations, on the other hand are a consequence of commitment, and so I became used to having them only for what depends only on my own effort and those who love me as family and friends at heart… rather on something I can not control. I already did, and it wasn’t nice.
How many of us expected our anniversary to be “just as we imagined” and, instead we got that rainy day, full of work in which everyone seemed to make the a huge effort to congratulate us or had a bad meeting with our boss? What about the traffic at the end of the day? What about the cake we still have to make when we get home? What a mess…

I do not mean by this that we can not dream, but to think about it as “must be” makes us frustrated by anything else that appears in its place. Even though it is equally good, it is not what we have imagined… When we look for one specific thing, we lose the notion of everything else because we are focused only on it. If the human eye has peripheral vision, let us take advantage of it when there is opportunity for it, since nowadays, we seem to be in a constant mode of autofocus.

The Camino is a mental, physical, social, emotional and spiritual challenge… It may not be all these things at the same time for all who walk the Camino but, invariably, we hit against at least two or three of those things.
Think about the Camino as an amount of sunny days, days of total isolation into nature, great nights of sleep through exhaustion, life changing moments, days about making friends from all over the world, about great food, about solving romantic relationships, solving problems at work and came back to another person, clear our relationship with God, with ourselves or other types of “missions” in such challenging conditions… come on, is to be out of line! This is just not making life easier for anyone. It is not being friends with ourselves. It is to create frustration about an experience that is supposed to be lived and not just performed.
If the Camino is a facilitator in something is on dropping all this. It’s a biological issue: none of us are worried about global warming as long as you are hungry, thirsty, cold, sleepy, tired, and a huge urge to go to the bathroom. These are priorities. While basic needs are not met, nothing else matters. It’s in the genes, fortunately, because it’s a matter of survival. We can not just choose.

For this reason, I wanted to go on the Camino without expectations. On the other hand I wanted to be open, yes, to whatever comes: I will be happy if there are sunny days; for someone shy like me, being able to be isolated for a few minutes a day will be a blessing; if I could actually camping near a pond without the pilgrim’s snoring from the bed on my side and fall asleep under the starry sky it would be nice; it would also be great to come back with certainties about my future or leave the fears aside; I would eat with pleasure, I would be with God every second and strengthen my relationships with others… But I can not control any of these things, especially if I am busy managing fatigue, buying something to eat that fulfills my metabolic needs or trying to find a place to stay overnight.

To be open is to accept what comes, to be attentive, to see great stuff in the small things the, is to be moved by the song of a bird, to trade a smile with other pilgrims, to understand other cultures that cross us, is to be as distant from someone as a simple “hello”, and realize that, after all, even I need to speak from time to time (because, let’s face it, when there is no work, there are no tasks, no books, handmade projects, hobbies, no tablet, television, popcorn, sofa and movie or the internet, when energy and data are limited and we are surrounded by the same people 24 hours a day… we end up…talking! And we talk about fascinating things. Be open is knowing our inner strength, to realize the value of the things we have, to create space to philosophize without embracement, to receive with open arms and feel like we deserve it, to realize that someone needs our hand. Is to know how love better.
All these things can lead to wonderful and unforgettable experiences… and are out of any of our expectations.

Usually we live convinced that we know exactly what we need. Most of the time this is not true. Most often what happens is that we do not give ourselves the space to listen to our body and our souls to ask… And we rarely know until we do the following experience: give us a moment and see what the body and soul absorb. This is what we are thirsty for.

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My reasons for walking the Camino

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Ide então, meu pequeno Livro, e mostrai a toda a gente
Que vos queira e acolha calorosamente,
O que guardais no vosso peito encerrado;
E desejo que seja, o que lhes for mostrado,
Para eles bom, e os leve a escolher ser
Peregrinos, de longe, melhores do que o nosso ser.
Falai-lhes da Misericórdia; aquela compaixão
Que bem cedo iniciou a sua peregrinação.

A epígrafe de “As Mulherzinhas” de Louisa May Alcott é uma adaptação de uma passagem da alegoria de John Bunyan (1678) chamada  The Pilgrim’s Progress.

A primeira coisa em que pensamos é: porquê?

Fazer mais de uma centena de quilómetros a pé no espaço de uma semana não é para todos, não prova nada e há quem assuma compromissos, caminhos maiores. O Caminho Francês tem mais de 800km feitos geralmente no espaço de 30 dias. Há quem venha de muito longe para o fazer, quem “gaste” todas as suas férias anuais nisso e deixe a família e o conforto em troca de uma experiência. Bom, uma decisão dessas não pode ser feita só “porque sim”.
Este é o meu primeiro Caminho e, apesar de o meu sonho ser muito para além dos 122km que vou percorrer, sem grandes remorsos decidi que ia fazer, para já, no mínimo os últimos 100km do Caminho Português que vai desde a fronteira, em Valença, até Santiago de Compostela. Muito embora o número de quilómetros, o esforço e o período de resiliência envolvidos para cada caminho sejam muito diferentes, as razões que nos levam a fazê-lo podem ser igualmente nobres, fortes, decisivas.

O momento que marcou a minha decisão de fazer o caminho tem data e podia até ter hora marcada. Foi em Fevereiro, enquanto estava fora do país. Estava a ler um clássico num momento de descanso, e nada de concreto ou consciente me indiciou para isso. O certo é que houve um pensamento que passou alto na minha cabeça como um viajante sem destino trazido pela brisa que eu estava a sentir naquele preciso momento. Já antes tinha pensado em fazer O Caminho mas por diferentes razões adiei sempre esse compromisso… Desta vez era diferente: eu não tinha “pensado”, “reflectido”, “programado”. Eu apenas senti. E face ao momento, acontecimentos e estado de espírito que caracterizava os últimos tempos, eu soube no minuto seguinte: eu ia fazê-lo.

Comentei com o Carlos o que me tinha passado pela cabeça com a mesma leveza com que aquele pensamento me tocou e, como se estivesse já predestinado, ele respondeu “pronto, vamos lá!”. Confesso que, de início esta reacção tão “pronta” me surpreendeu. Normalmente tendemos sempre a ver prós, contras, partilhar vontades e definir programas antes de avançar com um “vamos lá!”. O certo é que aquele pensamento vindo sei lá de onde, o sentimento que tive de que já tinha feito uma decisão, aquela confirmação quase instantânea daquele que é o meu óbvio companheiro do Caminho, me deram a sensação de que eu não precisava de fazer mais perguntas… não queria fazer a pergunta “porquê” assim tão cedo… e deixar-me surpreender por tudo isto e, aos poucos, ver o que acontece. E o espaço de tempo entre o momento em que aquele pensamento cruzou a minha mente e a decisão não decorreram mais do que 5 minutos.
Não é uma grande história é certo. Não posso dizer que tenha sentido um chamamento, não tive nenhum sonho, ninguém me aconselhou fazê-lo nem tenho intenção de mudar por completo a minha vida. A primeira resposta no meu coração foi um simples “porque sim”, mas um “sim” com tanto compromisso que as palavras são vazias, pequenas para o definir.

O primeiro instinto foi saber mais sobre O Caminho, procurar outros peregrinos, fazer o programa, pedir alguns conselhos. A questão “porquê” parecia desviar-se de mim, não porque eu não queria o confronto mas porque essa interrogação ainda voava leve como a brisa que me tocara naquele primeiro pensamento… Ela via-me sorridente, como uma fada algo envergonhada que me seguia sem querer aproximar-se, e eu gostava de a ter por perto. Eu sabia: ela aproximar-se-ia, eu havia de conquistar a sua confiança sem a obrigar a vir ter comigo.

Entretanto, alguns meses mais tarde quando as primeiras grandes questões logísticas foram resolvidas (datas, percurso, alojamento, mochila e botas), comecei a procurar testemunhos de outros peregrinos. Desde então tenho ouvido muitas histórias sobre as razões que levaram tantos peregrinos a fazer O Caminho (não necessariamente o Português…porque qualquer caminho é sempre O Caminho), as histórias mais inspiradoras sobre acontecimentos durante O Caminho e os impactos nas suas vidas. É bem interessante!

Aos poucos, essa pequena fada foi percebendo que se podia aproximar. À data em que escrevo este post ela ainda não adormeceu no meu colo, ainda não trocamos uma palavra. Ela apenas se sentou no meu ombro e observa-me, sorri e trocamos alguns olhares cúmplices. Mas desta relação eu já a fui conhecendo um pouco melhor e já consigo perceber algumas razões da sua presença…

 

 

Go then, my little Book, and show to all
That entertain and bid thee welcome shall,
What thou dost keep close shut up in thy breast;
And wish what thou dost show them may be blest
To them for good, may make them choose to be
Pilgrims better, by far, than thee or me.
Tell them of Mercy; she is one
Who early hath her pilgrimage begun.

The epigraph to “Little Women” is Louisa May Alcott’s adaptation of a passage from John Bunyan’s 1678 allegory The Pilgrim’s Progress.

The first thing we think about is: why?

Doing more than a hundred kilometers on foot in just a week is not for everyone, it proves nothing and there are those who make bigger compromises, bigger paths. The Camino Francês has more than 800km usually done in 30 days. There are those who come from far far away to do it, those who “spend” all their annual vacations on it and leave their family and comfort in exchange for a remarkable experience. Well, such a decision can not be made “just because”.
This is my first Camino and although my dream is far beyond the 122km I am going to go, without regrets I decided that I would do, for now, at least the last 100km of the Portuguese Camino that goes from the Portuguese border in Valença, to Santiago de Compostela. Although the number of kilometers, the effort and the resilience involved for each Camino are very different, the reasons that lead us to do it can be equally noble, strong, decisive.

The moment that marked my decision to walk the Camino has a date and could even be scheduled on my agenda. It was in February while, out of the country, I was just reading a classic. The truth is that there was a thought that came very high over my head like a traveler without destiny brought by the breeze that I was feeling at that precise moment. I had previously thought of doing the Camino but, for different reasons, I had always postponed this commitment… This time it was different: I had not “thought” about it, “reflected” it, “scheduled” it. I just felt it. And regarding the moment, the recent events events and state of my mind at that time, I knew that I was going to do it.

In the next minute I talked about it with my husband Carlos as lightly as that thought touched me and, as if it were already predestined, he replied: “So, ok, here we go!” I confess: at first, this “ready to go” reaction really surprised me. We usually tend to see all the pros and cons, share wills and define programs before moving on a commitment. The thing is that that thought that came out of nowhere, the feeling that I had already made a decision, the almost instantaneous confirmation of the one who is my obvious companion of the Camino, all these gave me the feeling that I didn’t need to do any more questions… just go! I did not want to ask the question “why” so soon… and let myself be surprised by all this and gradually see what happens. What is certain is that between the moment that thought crossed my mind and the decision, no more than 5 minutes passed.
Not a great story, hem? Well, I can not say that I felt a call, I had no dream, no one advised me to do it, nor did I intend to change my life completely after that. The first reaction in my heart was a simple “go, full of commitment, so full that all the words are empty, small to define it.

My first instinct was to know more about the Camino, to look for other pilgrims, do my program, ask for some advice. The “why” question seemed to hide away from me, not because I did not want the confrontation but because that interrogation was still flying light as the breeze that had touched me at that first thought about it… It saw me smiling, like a fairy following me without wanting to get close, and I liked to have her around. I knew: she would approach, I would gain her confidence without forcing her to come to me.

A few months later, when the first major logistical issues were resolved (dates, route, accommodation, backpack and boots), I began to look for testimony from other pilgrims. Since then I have heard many stories about the reasons that led so many pilgrims to walk the Camino (not necessarily the Portuguese… because any Camino is always The Camino), the most inspiring stories about events during the Camino and the impacts on pilgrim’s lives. It’s very interesting!

Little by little, this little fairy realized that she could approach me. At the time I am writing this post she has not fallen asleep in my lap yet, we have not yet exchanged a word. She just sat on my shoulder and watched me, smiled and trade few complicit glances with me. But from this recent relationship I have already known her a little better and I can already understand some reasons for her presence…

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Walking the Camino de Santiago

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Há anos que pretendia fazer O Caminho e já nem lembro das justificações que dei para não o fazer até hoje. A verdade é que nunca senti que tinha de ir. O que eu tinha era apenas pura curiosidade e nem sempre isso determina uma aventura.

Ora, em Fevereiro, eu soube que este ano faria o meu primeiro Caminho.
Dentro de algum tempo vou partir de Valença do Minho, pelo Caminho Português Central, em direcção a Santiago de Compostela. Vou a pé, numa série de 6 jornadas diárias entre os 15 e os 25Km, num total aproximado de 122Km anteriormente percorridos por milhares de outros peregrinos.
Vou por minha conta: de mochila às costas, sem carros de apoio para aliviar o peso dos ombros, tendo como únicas companhias o meu marido e um amigo e levando apenas o indispensável e sensato para caminhar, pernoitar e caminhar novamente. É só isto, nada que nunca outra pessoa tenha feito. O Caminho é mesmo assim, simples.

No entanto, e durante algum tempo, este será um assunto mais ou menos regular no blog. Não porque me queira gabar daquilo que vou fazer ou para convencer-vos a embarcar na onda das peregrinações. Vou escrever sobre o assunto porque me apercebi de quão importante e ao mesmo tempo tão insuficiente foi para mim a informação que consegui encontrar acerca do Caminho na internet. Foi muito… sobre exactamente o mesmo. Eu não consegui compreender porquê. É que independentemente da simplicidade e vulgaridade desta pequena aventura e do número de testemunhos espalhados pela web, há muitos pesos na balança que determinam a partida. E o número, o tamanho e gravidade desses pesos é diferente para cada um de nós. Ora eu não encontrei nenhuma balança por aí com um conjunto de pesos igual ao que me empurrou nesta aventura.

Não quero com isto, no entanto, deixar de publicar o habitual! Nada disso! Quero partilhar convosco como o pensamento que desenvolvo no blog é transversal a todos os acontecimentos na vida e verão como o feito-à-mao, a comunhão com a natureza e os seus ritmos podem descer mais intensamente sobre nós quando nos predispomos a cingir-nos ao essencial.

I have been thinking about walking the Camino de Santiago for years, and I no longer remember the excuses I gave for not doing so. The truth is, I never felt that I had to go. What I had was pure curiosity, and it does not always determines an adventure.

Well, last February, I knew that this year I would walk my first Camino.
Soon, I will leave from Valença do Minho and walk through the Central Portuguese Camino towards Santiago de Compostela. I will go on foot, during 6 days, each journey between 15 and 25 km, a total of 122 km previously traveled by thousands of other pilgrims.
I go on my own: backpacking, no support cars to lighten my shoulders from the weigh of backpacks, my only company will be my husband and a dear friend. I will only take the indispensable and wise to walk, spend the night in the albergue and walk again. It’s just this, pretty basic, everyone does it. The Camino is like this, simple.

For some time, this will be a regular subject on the blog. Not because I want to boast about what I’m going to do or to convince you to embark on pilgrimage. I will write about it because I realized how important and, at the same time, so insufficient was the information I was able to find on the internet about the Camino. It’s just… to much of the same thing. I couldn’t understand it because, regardless the simplicity and vulgarity of this little adventure and the number of testimonies spread across the web, there are many weights in the scale that determine the departure. The number, the size of these weights is different for each one of us. And nothing about what I found had the exact same set of weights that pushed me in this adventure.

However, I do not want to stop publishing the themes and issues I always do here! Not at all! I just want to share with you how these themes that I develop on the blog can be transversal to all events in life. And you will see how handmade, nature contact and nature rhythms can embrace us more intensely when we are predisposed to reduce some things to the bare essencial!

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