Workshop on… small goals!

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Como vos falei no último post, este fim de semana liderei um workshop sobre coroas de Natal feitas à mão com materiais naturais no MyNinho, da Ana Paula.

 

Devo dizer que estava receosa porque não sabia o que eu poderia ter para oferecer… tudo o que faço aqui aprendi de forma autodidata e não me considero especialista em nada. A única coisa em que me tornei especialista foi em colocar mãos à obra e em gerir bem os projectos em que me envolvo.

 

Ouço vezes sem conta as pessoas dizerem “não tenho jeito”, “não sei fazer” e fico a pensar se este dom que tenho seja um talento e não mais do que isso. Mas é então que olho para trás e começo a refletir no caminho que fiz até agora: este blog é, sem sombra de dúvidas, o repositório das minhas evoluções, dos meus progressos naqueles que são os projectos em que eu não sou, de todo, especialista. Isto de “ter jeito” é algo que requer alguma sensibilidade é certo, mas muito do que está por trás do sucesso é a versão mais genuína do trabalho: a prática, o empenho e a dedicação. Se muitas vezes achamos que no nosso meio profissional as coisas não são tão literais, se eu pensar nos pequenos e grandes projetos que fiz aqui, convosco, a maior parte das vezes a regras do jogo são sempre as mesmas: 99% de transpiração e 1% de inspiração. A inspiração pode, porém ser determinante no trabalho e parecer 200%, enquanto os 99% de transpiração envolvem alguma organização e gestão que, se bem conduzida e prazerosa, nos parece apenas 2%. Qualquer um de nós se sente esmagado por um grande projecto no qual não tem qualquer experiência. Mais ainda se ele requer algum investimento a diversos níveis. O primeiro instinto é dizer precisamente que não temos jeito. Isso acontece porque estamos a sair da nossa zona de conforto! Mas não há nada que não se faça: basta transferir a energia envolvida nesse receio todo em dividir o desafio em pequenas metas e depois fazer uma de cada vez, tal como um bebé que aprende a caminhar.

 

Ora neste workshop, mais do que fazer uma série de coroas de Natal (e outras nem tanto…) o importante para mim foi passar esta mensagem às minhas queridas “alunas”: procurar inspiração, desconstruir o projecto em partes e por fim em materiais. Uma espécie de engenharia inversa que torna qualquer grande desafio em simples metas alinhadas como um colar de contas. Foi um grande prazer para mim, gostava muito de voltar a ensinar workshops!

 

As I told you in the last post, this weekend I led a workshop on handmade Christmas wreaths made with natural materials, in Ana Paula’s MyNinho.

 

I must say: I was afraid of the challenge because I did not know what I could have to offer… everything I do here I learned in a self-taught way and I do not consider myself an expert at anything. The only thing I have become a specialist in is putting my hands to work and managing well the projects in which I am involved.

 

I often hear people say “I can’t do this”, “I do not know how” and I wonder if this gift I have is a talent and not more than that. But it is then that I look back and start to reflect on the path I have taken so far: this blog is, without a doubt, the repository of my evolutions, my progress in those projects that I am not, at all, a specialist. This “know how” is something that requires some sensitivity, for sure, but much of what is behind success is the most genuine version of work: practice, commitment and dedication. While we often find that in our professional environment things are not so literal, if I think about the small and big projects I have done here, with you, most of the times the rules of the game are always the same: 99% perspiration and 1% inspiration. Inspiration can, however, be so decisive that seem like having 200% impact, while 99% perspiration can be so enjoyable that seems to us only 2% of the pack. Everyone feels crushed by a major project in which we have no experience. Even more if it requires some investment at various levels. The first instinct is to say precisely that we can’t do it. This is because we are coming out of our comfort zone! But there is nothing that can not be done: just transfer the energy involved in this fear into splitting the challenge into small goals and then go into one at a time, just like a baby who learns how to walk.

 

Well, during this workshop, more than making a number of Christmas wreaths (and some not so much christmas…), the important thing for me was to pass this message on to my beloved “students”: to seek inspiration, to deconstruct the project in parts and finally in materials. A kind of “reverse engineering” that turns any big challenge into simple goals aligned like a beaded necklace. It was a great pleasure for me, I really enjoyed teaching and hope to teach workshops again!
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Autumn tones and a workshop!

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O Outono é, sem sombra de dúvidas a minha estação favorita e talvez o momento em que me sinto mais comprometida a colocar projecros em prática. Desta vez resolvi partilhar convosco alguns dos meus posts favoritos sobre projectos de outono.

 

O primeiro post é sobre o passeio em Serralves no Outono que para mim é incontornável e me faz sentir que estou a acompanhar a chegada da estação nos locais que mais gosto. Serralves para mim é mesmo no outono e traz-me as recordações de infância mais divertidas sempre que me passeio na incontornável avenida das Tílias e acabo a apanhar os raios quentes de sol junto à quinta…

 

A inspiração dada por um passeio num local como Serralves envolve-nos e provoca-nos a fazer um pouco de “foraging”. É desta necessidade de aproveitar os recursos naturais que surge o meu ritual de apanhar pinhas para a lareira. Este ano quase que não precisava e encontrei mais um local especial onde as apanhar… Contudo, ainda que estas não venham a ser para mim, o ritual de apanhar as pinhas para a lareira é como uma terapia que faço já com as luvas nas mãos em meados de Outubro… Este ano, parece-me, vou ter um pequeno cabaz de pinhas para oferecer!

 

Depois de ter respirado as influências da natureza, trago-a para dentro de casa sob a forma de pequenos projectos. O meu mini-quilt de Outono, foi pequeno projecto de aprendizagem que resultou completamente da minha cabeça. Desde o design inicial, passando pela escolha das cores e padrões e depois, em cada ponto à máquina e à mão. É um quilt que costumo colocar em casa quando sinto o Outono chegar porque sem sempre as estações se sentem no dia dos equnócios ou solestícios. Por vezes é mais cedo, outras vezes mais tarde, quando às primeiras horas da manhã se sente o frio caracteristicamente outonal!

 

Mas o outono não é apenas sobre as cores, a luz ou a temperatura… é também sobre os aromas. Não há outono sem cheiro a marmelada a cozer na panela ou potes e potes de papa de maçã para sobremesa.

 

E é quando se fecham as janelas ao fim do dia que apetece o primeiro e indulgente chocolate quente da época enquanto se folheia um bom livro para mais um projecto outonal ou quem sabe, já com o Natal em vista.

 

E é precisamente num desses projectos que tenho estado secratamente a trabalhar! Este ano faço uma parceria com a Ana Paula do MyNinho e vou estrear com ela um workshop de Coroas de Natal feitas com materais naturais, tecidos e papel! O workshop vai decorrer na Casa do MyNinho que recebe os mais simpáticos hóspedes, dia 24 de Novembro entre as 15h e as 18h. As condições e inscrições podem ser feitas aqui.

 

Autumn is, no doubt, my favorite season and perhaps the moment when I feel more committed new projects. This time I decided to share with you some of my favorite posts about autumn projects.

 

The first post is about my autumn walks in Serralves that for me are a must do thing iduring the fall and make me feel that I am following the arrival of the season at the places that I love. For me, Serralves during fall, awakes the sweetest childhood memories and I always remember walking over the leaves and catching the last hot rays of sun next to the farm… 

 

The inspiration from my walks through Serralves engages us to do a bit of “foraging”. I take advantage of the natural resources to make my anual pine cones picking for the fireplace. This year I almost did not need more cones and I found another special place to pick them up… However, even if these are not for me, the ritual of picking the pine cones for the fireplace is like a therapy that I already do with my gloves in my hands in the end of October… This year, it seems to me, I will have a small basket of pine cones to offer!

 

After having breathed in nature, I bring it into the house in the form of small projects. My fall mini-quilt was a small learning project that resulted completely from my head. From the initial design, through the choice of colors and patterns and then in each machine or handmade stitch. It is a quilt that I usually use at home when I feel the autumn coming in. Sometimes it’s early, sometimes it’s later: but generally is when you feel the characteristically autumnal cold in the early hours of the morning! 

 

But autumn is not just about the colors, the light or the temperature… it’s also about the aromas. There is no autumn without the smell of quince paste boiling in the pan or pots and pots of apple sauce for dessert http://www.therabbithole.pt/ 2017/10/26 / applesauce-is-our-favorite-dessert /.

 

And when you close the windows at the end of the day you feel the need of the first and indulgent hot chocolate of the cold season, as you leaf through a good book for one more autumnal project or, who knows, already with Christmas in sight.

 

And it is precisely in one of these projects that I have been working on this last weeks! This year I made a partnership with Ana Paula from MyNinho and we will share a workshop on Christmas Wreaths made with natural materials, fabrics and paper! The workshop will take place at MyNinho Airbnb, which always have the most friendly guests, on November 24 between 3pm and 6pm. The conditions and registrations can be made here.
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Happy birthday: what if I launch a giveaway?

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Esta toca faz dois anos! E acreditem, quase não dava conta e quase não queria acreditar. Ao longos dos dois últimos anos houve muita coisa a modificar-se para mim e este cantinho tem sido algo muito estável onde tenho feito crescer uma nova forma de estar na vida, que sobretudo me deu confiança e intensificou ou apurou a minha personalidade. É onde eu me vejo crescer, onde tudo fica escrito como um testemunho que eu posso comprovar. Mais ainda, revelou para os outros alguém que vivia um pouco escondida para o seu interior. Portanto a partilha não só me fez crescer como me deu a conhecer ao mundo. O meu público é ainda bebé ao lado dos grandes bloggers da actualidade mas curiosamente eu nunca me senti pequena. Tem sido muito gratificante perceber que este pequeno público que angariei surgiu do meu trabalho e empenho já que nunca antes pedi ou forcei ninguém para me seguir. E todos sabemos que “vender” estilos de vida, cativar dando trabalho ou apenas inspiração é difícil no meio consumista em que vivemos. Na verdade, “apurar” o nosso público é um exercício muito esclarecedor sobre nós mesmos, a nossa individualidade numa sociedade que valoriza a unicidade mas cultiva a homogeneidade. Eu tenho em mente aquelas pessoas que me seguem sempre: aquelas que me dão força e me encorajam e se deixam inspirar, que me vêm como elas. Tenho-as sempre na minha cabeça e, apesar de muitas nem sequer conhecer pessoalmente, a cada dia, eu faço isto por mim mas também, e cada vez mais, por elas também. Partilhar convosco um estilo de vida consciente, com significado, alimentado pelos ritmos e contacto com a natureza, alimentado pela criatividade humana tem sido a maior inspiração por trás de cada post.

É claro que nem tudo têm sido fases boas. Ter um blog e alimentá-lo das nossas entranhas, oferecer o que temos de melhor expõe-nos de formas nunca antes imaginadas. Desde que comecei que me soube proteger um pouco por conselhos de pessoas mais experientes. Mas já aprendi muitas coisas novas sobre gerir o que partilho, como partilho e o que deixo passar. Já aprendi coisas novas sobre os outros e sobre os limites que eu preciso de criar. O que aqui vos escrevo é muito, muito pouco daquilo de que a minha vida é preenchida: entre as melhores e as piores coisas. Eu gosto de pensar que vos trago o melhor de mim mas também aprendi a guardar algumas coisas boas, alguns projectos, para mim mesma porque, como introvertida, eu ainda preciso desse espaço. Já me senti mal por sentir que dava mais do que recebia, já senti que se apropriavam da minha criatividade, até que tentavam ser eu…!? E isso já me obrigou a parar e gerir os sentimentos para nunca deixar de escrever ou voltar a fechar-me em mim mesma. Porque apesar de tudo, a minha experiência aqui, convosco, tem sido sobretudo carregada de coisas boas.

Por isso, é para vocês que lanço um presente de aniversário, e pela primeira vez, no formato de giveaway! O meu giveaway vai acontecer através do meu perfil do Instagram que tem sido a rede social com a qual mais me tenho identificado na partilha de conteúdo do blog. O giveaway vai sortear um exemplar dos meus “Tide Pool Notebooks” para qualquer um de vocês que cumpra os seguintes requisitos: seguir-me no Instagram, gostar da publicação do giveaway (que será lançada durante o dia 24 de outubro com a hashtag #therabbitholeblogsecondbirthday), comentar essa mesma publicação com o nome de 3 novos amigos com quem gostassem de partilhar o perfil do blog. Podem participar o número de vezes que desejarem aumentando assim a vossa chance de ganhar. O giveaway está aberto até às 23h59m59s (UTC) do dia 31 de Outubro e é válido para todo o mundo! Boa sorte e obrigada por continuarem desse lado!

This rabbit hole is two years old! And believe me, I barely noticed and almost couldn’t believe. Over the last two years there has been a lot of changes for me and this little corner has been a very stable spot for me, where I have grown a new way of being in life, which mainly gave me the confidence and intensified my personality. It is where I see myself growing, where everything is written as a testimony that prove all that growth. More than that, the blog revealed to the others someone (me) who lived a little hidden inside herself. So this sharing exercise not only made me grow as it made me known to the world. My audience is still a baby alongside the great bloggers of today but, curiously, I never felt small. It has been very gratifying to realize that this small audience that I raised came from my own work and commitment since I have never asked or forced anyone to follow me. And we all know that captivating an audience with handmade testimonials and inspiration is very difficult in the consumerist environment in which we live today. In fact, clarifying our audience is a very enlightening exercise about ourselves, our individuality in a society that values ​​uniqueness but cultivates homogeneity. I have in mind those people who always follow me: those who give me strength and encourage me and inspire me, the ones who come to me and fell just like me. I have them all in my head and, although many I do not even know personally, I do this for them as well as for myself. Sharing with you a conscious, meaningful lifestyle, fueled by natural rhythms, contact with nature and human creativity has been the greatest inspiration behind every post.

Of course, not everything has been good. Having a blog and feeding it from our guts, offering what we have best, exposes us in ways never before imagined. Since I started that I knew how to protect myself a little by taking advices from more experienced people. But I’ve learned a lot of new things about managing what I share, how I share, and what I let go. I have learned new things about others and the limits that I needed to create even now. What I am writing to you here is very, very little of what my life is filled with: among the best and the worst things. I like to think that I bring you the best of me but I also learned to keep some good things, some projects, for myself because, as an introvert, I still need that space. I already felt bad for feeling that I gave more than I received, I felt that there were some that took the change using my creativity with bad intensions regarding myself, some really tried to be me on this competitive way affecting more things than I would ever allow… this has already forced me to stop and manage the feelings to never stop writing or close me again within myself. Because despite of everything, my experience here, with you, has been mainly loaded with all the good things.

So it’s for you that I throw a birthday present, and for the first time, in the giveaway format! My giveaway will happen through my Instagram profile that has been the social network with which I can identify myself the most while sharing the blog content. The giveaway will offer one copy of my “Tide Pool Notebooks” for any of you who meets the following requirements: follow me on Instagram, enjoy the giveaway publication on Instagram (which will be released during October 24th with the hashtag #therabbitholeblogsecondbirthday), comment on this same publication with the name of 3 new friends who you like to share the blog’s profile with. You can participate as many times as you wish increasing your chances of winning. The giveaway is open until 23:59:55 UTC on October 31 and is valid worldwide! Good luck and thank you for all your support!

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Some thoughts about my Camino Inglés

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Então nós partimos novamente.

Não posso esconder, como já partilhei aqui, que estava um pouco desalinhada com esta partida apesar de ter uma vontade imensa de ir e reviver a experiência do ano passado. Ainda ponderamos repetir exactamente o mesmo trajecto já que ficamos um pouco atordoados pelo facto de irmos apenas os dois e termos muita vontade de partilhar este Caminho com a mesma equipa do ano anterior. Contudo algo nos apontava para seguir um novo caminho, tal e qual já tínhamos predestinado. Passadas as dúvidas e feitas as decisões partimos do Porto rumo a Ferrol. Quando lá cheguei ainda sentia esta desconexão. Era como se o corpo tivesse feito uma decisão e a cabeça não o acompanhasse. Era como se não tivesse ainda interiorizado a viagem, apesar das seis horas de autocarro.
O ano passado tinha sido carregado de preparativos que este ano simplesmente não necessitou. Já estava tudo praticamente feito, o investimento era mínimo: era mesmo só fazer a mochila. A única preparação que havia a fazer era interna, pessoal, mental e emocional. A mais difícil porém. Porque é bastante fácil enganarmo-nos em listas de equipamento, guias e preparativos… e fazer de conta que o resto está pronto.
Já em Ferrol, depois do jantar resolvemos procurar o início do Caminho no cais das Cruxeiras, mesmo ao pé do mar. E apesar de estarmos no local há alguns minutos, estávamos com dificuldades em encontrar as setas amarelas que nos levariam ao Caminho na manhã seguinte. Não sei se foi sinal de que não me tinha preparado devidamente, mas a verdade é que olhava à minha volta e não encontrava nada. Claramente estava a procurar “o Caminho errado”. Percebi desde logo que tinha de relaxar e disse para mim “tens de ligar o modo peregrina porque essa independência toda não é real”. Depois de deambularmos um pouco sem sucesso, perdemos a vergonha e perguntamos por indicações a um senhor alemão num pequeno bar. Ele recomendou-nos olharmos para trás e indicou-nos o sentido do Caminho. Ora, mal nos voltamos vimos o vistoso posto de atendimento ao peregrino, o monólito que indicava o inicio do Caminho inglês e as primeiras setas. Se fossem monstros, tinham-nos comido. Regra número um no Caminho: uma pergunta nunca é muito idiota e o orgulho é sempre demais. Tantas voltas para quê? A partir daquele momento as setas começaram a aparecer à nossa frente, uma atrás da outra em locais óbvios pelos quais já havíamos passado. E assim, como que a gozar com a nossa prepotência, começava o Caminho Inglês…
E na verdade Caminho Inglês não foi apenas um percurso diferente, como eu pensava. Em tudo foi especial, em tudo é diferente, em tudo novo: as pessoas, os hábitos, o piso, o desnível, o tempo, a paisagem, os albergues, as circunstâncias. Aquele início de percurso era apenas um aviso. E de muito pouco servem conhecimentos anteriores. A única coisa que sabemos minimamente é o que nos espera em termos de rotinas… fora isso, tudo muda.

O Caminho Inglês tem, em primeiro lugar, uma paisagem muito diversa em comparação com o português. Em termos de paisagem é mais ou menos dividido em duas partes: uma feita à beira mar ou pela ria, a outra por montanhas, bosques e campos agrícolas. Só no que respeita a isso há já uma postura muito diferente: sentir a água ali tão perto, ver o céu espelhado no mar, na baía de Ferrol dá uma sensação etérea, não terrena. As entradas de mar fazem baias e a foz dos rios abre-se em grandes estuários cheios de biodiversidade. São literalmente zonas de transição cujo conceito remete para o mergulho incerto que é fazer o Caminho. Talvez por este paralelismo a paisagem fosse a ideal para a segunda vez que fazia o Caminho.
Depois a segunda parte da viagem, mais no interior remete para a mudança. No ano passado senti que os primeiros dias do Caminho não foram os mais fortes a nível da experiência interior: parece que precisamos de algum tempo para entrar no espírito. Dois dias é o necessário para baixarmos as rédeas e engolirmos o orgulho. O que senti este ano foi exactamente a mesma coisa: só ao terceiro dia é que se entra verdadeiramente na experiência e a paisagem litoral foi como uma terapia para os primeiros dias que nos obrigou a parar e nos preparou para etapas mais intensas a nível físico mas também psicológico.

O Caminho Inglês é mais duro também. Se o Caminho Portugês apresenta alguns desafios, o Caminho Inglês brinca com eles e fá-los repetir-se uma e outra vez para deleite das pernas e pés. Há apenas uma ou duas etapas completamente tranquilas. E, por oposição, há outras duas ou três que são desafios bem exigentes. As saídas de Pontedeume-Betanzos e Betanzos-Hospital de Bruma, logo pela manhã, são assustadoras. A única coisa que me lembro é de subir, subir e subir! Felizmente, depois daquele aquecimento, o resto da etapa tornava-se mais elástica. Como se o corpo tivesse atingido um nível de metabolismo adequado para aquele exercício diário, logo aos primeiros quilómetros. Mas na etapa de Betanzos a Hospital de Bruma, uma etapa com cerca de 28 km, para além dos primeiros quilómetros ameaçadores, era já aos 18km que nos apareceria aquela que é considerada a pior parte do Caminho Inglês. A verdade é que os comentários entre os peregrinos acerca deste troço eram incisivos… mas o que acabamos por verificar é que este troço era, ainda assim, um pouco mais fácil do que imaginávamos. Nada como ter as metas elevadas para relativizar a dificuldade do percurso. Por outro lado a etapa de chegada a Santiago era bastante tranquila, ao contrário da do Caminho Português na qual senti alguma frustração devido ao cansaço. Neste caso, pelo contrário, deu-me oportunidade de usufruir e seguir entretida entre outros peregrinos, como o merecido prémio por me deixar domesticar por um Caminho tão desafiante.

O Caminho Inglês tem albergues menos equipados. Bom, esta afirmação não é completamente verdadeira… Há excelentes albergues como é o caso de Betanzos. Porém, há dois ou três que nos confrontam com algumas dificuldades. Pontedeume é claramente o mais complicado, o mais desafiador e talvez o pior dos albergues em que já estive. Mas tudo passa porque não se faz o Caminho sozinho e, neste caso, o “modo rebanho” faz-nos conseguir ultrapassar as dificuldades. Outro albergue complexo é o de Hospital de Bruma, mas por outras razões. O albergue em si é bom, confortável e bem servido de equipamentos. O único problema é ser pequeno, ficar no fim de uma longa etapa e onde se cruza com o Caminho Inglês vindo da Corunha. Para além disso ficar, literalmente, no meio do nada, longe de qualquer centro. Há um pequeno restaurante onde se serve de tudo e com extrema boa qualidade, uma carrinha-mercado que passa pelas 18h com alguns bens, 5 ou 6 casas, um parque infantil, uma capela que abre apenas uma vez por mês para celebrar e o albergue. E campos. Campos a perder de vista a toda a volta. Mas se vos disser que, depois de Betanzos, foi o sítio onde mais gostei de ficar e que ali, ali sim, os locais recebem os peregrinos com carinho, todos os dias… Mas a questão dos albergues não ficou por aqui: Sigueiro, a última paragem antes de Santiago é uma vila bem recheada mas não tem albergue municipal. Por causa disso, e tal como no ano passado, acabamos por ficar uma noite num albergue privado. É um luxo não precisar de saco-cama, ter quem se responsabilize pela lavagem da roupa, ter mais condições nos duches e um pequeno almoço incluido. Mas foi o dia em que passamos menos tempo no albergue: o espírito perde-se, não estamos perto da nossa “familia Caminho” e por isso acabamos por nos encontrar todos cá fora longe dos locais de descanso. Não é igual e está muito longe de reproduzir a experiência. Facilmente eu trocava aqueles “luxos” por mais uma boa noite em “família”, a última antes de Santiago.

O Caminho inglês tem gente de “todo o lado”. Mais do que o Caminho Português, o Caminho Inglês obriga-nos a cruzar muitas fronteiras. Éramos os únicos portugueses e convivemos com gente de toda a parte. Mas as verdadeiras fronteiras foram as que encontramos dentro das pessoas. Se bem que o Caminho Português tem mais gente e é por isso mais difícil ligarmos-nos mais profundamente, devo dizer que o Caminho Inglês parece ter peregrinos com mais “razões” mais “motivos”, para além de uma proposta turística, do que o Caminho Português. Há muitas “mudanças de vida”, muitos “corações partidos”, muitas “relações para a vida”, muitas razões “religiosas”, muitas “aventuras”, muitas “promessas”, muitos “pedidos de casamento” por trás de cada um dos peregrinos. Há muitas histórias para contar, muitas experiências únicas que fizeram de cada peregrino que conheci uma pessoa especial e com a qual mantive contacto. Creio que me apercebi disso tarde demais. Hoje teria perguntado a todos pelos quais passei que motivações tinham para fazer o Caminho. Por outro lado, muito mais do que no Caminho Português, vêm-se muitos peregrinos sozinhos, casais, grupos de três no máximo, mas poucos, muito poucos grupos. O resultado disso é que as ligações ao longo do tempo se multiplicam: é fácil puxar uma cadeira e juntar mais um, é fácil partilhar o pouco que temos, é fácil dizer um segredo, confessar um pensamento porque há pouca gente a ouvir. É fácil seguir caminhando com outros, é fácil esperar por alguém, é fácil fazer poucas perguntas e receber muitas respostas. O Caminho Inglês é mais difícil mas é mais fácil chegar mais longe…

 

Then we left again.

I can not hide, as I have already shared here, that I was a bit out with this despite having a huge desire to go and live the experience of last year again. We considered repeating exactly the same route as last year because we were a bit stunned by the fact that there were just the two of us, and that we wanted to share this Camino with the same team of the previous year. Yet, something pointed us to follow a new Camino, just as expected. After the doubts and decisions, we left from Porto to Ferrol. When I got there I still felt this disconnection. It was as if my body had made a decision and my head did not. It was as if I had not yet internalized this trip, despite the six-hour bus ride until Ferrol.
Last year I had been loaded with preparations that this year simply did not required. It was all done, the investment was minimal: we just needed to fill our backpacks. The only preparation I had to do was internal, personal, mental and emotional. The most difficult however. Because it’s easy enough to fool ourselves into lists of equipment, guides and preparations… and pretend that the rest is ready too.
That night in Ferrol, after dinner, we decided to look for the beginning of the Camino Inglés in the Cruxeiras pier. And standing on the spot for a few minutes, we were having trouble finding the yellow arrows that would lead us on the Camino the next morning. I do not know if it was a sign that I had not prepared myself properly, but the truth was that we looked around and found nothing. Clearly we were looking for “the wrong way, the wrong Camino”. I realized right away that I had to relax and said to myself: “You have to call the pilgrim inside you because this whole independence you think you have is not real.” After wandering a little without success, we started to be a pilgrim and simply asked for directions to a German gentleman in a small bar. He advised us to look back and pointed us to the direction of the Camino. As soon we returned, we saw the colorful and huge and big service pilgrim station, the monolith that indicated the beginning of the Camino Inglés and the first arrows of the route! If they were all monsters, they’d eaten us is a second. Rule number one on the way: a question is never too stupid and pride is always too much. So many turns for what? From that moment the arrows began to appear before us, one behind the other in the most obvious places through which we had already passed! And so, as teasing us for our arrogance, the Camino Inglés began…
Actually, the Camino Inglés was not just a different route as I thought. Everything was special, everything was different, new: the people, the habits, the route, the weather, the landscape, the albergues, the circumstances. That start-up was just a warning! And I did very little use of previous knowledge. The only thing we know that is useful is some of the routines… everything else changes.

The Camino Inglés has, in the first place, a very diverse landscape compared to the Portuguese. In terms of landscape one can say it is divided into two parts: the first made by the sea or by the river, the second by the mountains, woods and agricultural fields. This provoked very different attitudes inside us: to feel the water there so close, to see the sky mirrored in the sea, in the bay of Ferrol gives an ethereal, not earthly sensation. The sea entrances create bays and the mouths of the rivers open in large estuaries full of biodiversity. This are literally zones of transition and the transition concept also reflects the uncertain dive that is to make the Camino. Perhaps this parallelism with landscape was the ideal one me, while walking my second Camino.
After this, the second part of the Camino, in the mountains refers to “change”. Last year I felt that the first days of the journey were not the strongest in the inner experience: it seems that we need some time to get into the spirit. Two days is what it takes to get the our routines out and swallow our pride. What I felt this year was exactly the same thing: it was only on the third day that I truly entered into the experience. And the coastal landscape was like a therapy for the first few days that forced us to stop and that prepared us for a more intense physical (but also psychologic) stages of the second part of the journey.

The Camino Inglés is tougher too. If the Portuguese way presents some challenges, the Camino Inglés doubles them and makes them repeat over and over again for the delight of our legs and feet. There are only one or two easy days. And, by contrast, there are another two or three that have very demanding challenges. The exits from Pontedeume-Betanzos and Betanzos-Hospital de Bruma days, at dawn, are scary. The only thing I remember is to go up, up and up! Fortunately, after that warm-up, the rest of the stage became more elastic. As if the body had reached a level of metabolism suitable for that daily exercise very soon, at the first kilometers of the journey. But in the stage from Betanzos to Hospital of Bruma, a stage with 28 km, in addition to the first threatening miles, it was only after 18km that we would venture on the worst part of the Camino Inglés. The truth is that the comments among the pilgrims about this section were incisive… but what we realized is that this section was not as harsh as we imagined. Nothing like having high goals to relativize the difficulties!
On the other hand the last stage and the arrival in Santiago de Compostela was quite quiet, unlike the one on the Portuguese Camino where I felt some frustration due to fatigue. In this case, the stage it gave me the opportunity to enjoy and remain entertained among other pilgrims, as the well-deserved prize for letting me tame during this challenging Camino.

The Camino Inglés has less equipped albergues. Well, this statement is not completely true… There are excellent albergues as is the case of Betanzos. However, there are two or three with some issues. Pontedeume is clearly the most complicated, the most challenging and perhaps the worst albergue I have ever been to. But everything passes because the Camino is not made alone and, in this case, the fact that we were all in the same situation helped us to manage and to overcome the difficulties. Another complex albergue is Hospital de Bruma, but for other reasons. The albergue itself is good, comfortable and well-equipped. The only problem is that it is more on the small side, stays at the end of a long journey from Betanzos and it crosses the Camino from La Coruña which means more pilgrims. Plus it stays literally in the middle of nowhere, far from any center. There is a small restaurant with extremely good quality food, a market in a van that passes at 6pm with some goods, 5 or 6 houses, a playground, a chapel that opens only once a month and the hostel. And fields. Fields everywhere you look and all around. But if I can tell you that, after Betanzos, it was the place where I most enjoyed staying and that where the locals receive the pilgrims with more affection, every day…
But the albergues issue did not stop here: in Sigueiro, the last stop before Santiago de Compostela, is a well equipped village but does not have a public albergue. Because of this, and just like last year, we ended up staying overnight at a private albergue. It is a luxury not to need a sleeping bag, to have someone responsible for washing clothes, to have better conditions in the showers and a breakfast included. But it was the day when we spent less time in the albergue: the camino spirit is lost, we are not close to our “camino family” and so we left our albergues and met all together out from the resting nest. It is not the same to stay at a private albergue as it is to stay at the public and is far from reproducing that experience. I easily exchanged those “luxuries” for another good night with my “camino family”, the last night one before Santiago de Compostela.

The Camino Inglés has people from “everywhere”. More than the Portuguese Camino, the Camino Inglés forces us to cross many boundaries. We were the only Portuguese in the group and we met people from all over the world. But the real frontiers were the ones we found inside people. Although the Portuguese Camino has more people and is therefore more difficult to connect more deeply, I must say that the Camino Inglés seems to have pilgrims with more “reasons”, in addition to a regular touristic motivation to walk, than the Portuguese Camino. There are many “life changes”, many “broken hearts”, many “relationships to life”, many “religious” reasons, many “adventures”, many “promises”, many “marriages” behind each one of the pilgrims the do the Camino Inglés. There are many stories to tell, many unique experiences that have made every pilgrim I met a special person and with whom I still have contact with. I think I realized that too late. Today I would have asked everyone I met what motivations they had to walk the Camino.
On the other hand, much more than in the Portuguese Camino, there are many pilgrims alone, or couples, groups of three maximum, but few, very few groups. The result is that the links over time are multiplied: it’s easy to pull a chair and add one more pilgrim to your table, it’s easy to share the little we have, it’s easy to tell a secret, confess a thought because there are few people listening. It is easy to keep walking with others, it is easy to wait for someone, it is easy to ask few questions and receive many answers. The Camino Inglés is harder but it’s easier to get further…

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