Some thoughts about my Camino Inglés

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Então nós partimos novamente.

Não posso esconder, como já partilhei aqui, que estava um pouco desalinhada com esta partida apesar de ter uma vontade imensa de ir e reviver a experiência do ano passado. Ainda ponderamos repetir exactamente o mesmo trajecto já que ficamos um pouco atordoados pelo facto de irmos apenas os dois e termos muita vontade de partilhar este Caminho com a mesma equipa do ano anterior. Contudo algo nos apontava para seguir um novo caminho, tal e qual já tínhamos predestinado. Passadas as dúvidas e feitas as decisões partimos do Porto rumo a Ferrol. Quando lá cheguei ainda sentia esta desconexão. Era como se o corpo tivesse feito uma decisão e a cabeça não o acompanhasse. Era como se não tivesse ainda interiorizado a viagem, apesar das seis horas de autocarro.
O ano passado tinha sido carregado de preparativos que este ano simplesmente não necessitou. Já estava tudo praticamente feito, o investimento era mínimo: era mesmo só fazer a mochila. A única preparação que havia a fazer era interna, pessoal, mental e emocional. A mais difícil porém. Porque é bastante fácil enganarmo-nos em listas de equipamento, guias e preparativos… e fazer de conta que o resto está pronto.
Já em Ferrol, depois do jantar resolvemos procurar o início do Caminho no cais das Cruxeiras, mesmo ao pé do mar. E apesar de estarmos no local há alguns minutos, estávamos com dificuldades em encontrar as setas amarelas que nos levariam ao Caminho na manhã seguinte. Não sei se foi sinal de que não me tinha preparado devidamente, mas a verdade é que olhava à minha volta e não encontrava nada. Claramente estava a procurar “o Caminho errado”. Percebi desde logo que tinha de relaxar e disse para mim “tens de ligar o modo peregrina porque essa independência toda não é real”. Depois de deambularmos um pouco sem sucesso, perdemos a vergonha e perguntamos por indicações a um senhor alemão num pequeno bar. Ele recomendou-nos olharmos para trás e indicou-nos o sentido do Caminho. Ora, mal nos voltamos vimos o vistoso posto de atendimento ao peregrino, o monólito que indicava o inicio do Caminho inglês e as primeiras setas. Se fossem monstros, tinham-nos comido. Regra número um no Caminho: uma pergunta nunca é muito idiota e o orgulho é sempre demais. Tantas voltas para quê? A partir daquele momento as setas começaram a aparecer à nossa frente, uma atrás da outra em locais óbvios pelos quais já havíamos passado. E assim, como que a gozar com a nossa prepotência, começava o Caminho Inglês…
E na verdade Caminho Inglês não foi apenas um percurso diferente, como eu pensava. Em tudo foi especial, em tudo é diferente, em tudo novo: as pessoas, os hábitos, o piso, o desnível, o tempo, a paisagem, os albergues, as circunstâncias. Aquele início de percurso era apenas um aviso. E de muito pouco servem conhecimentos anteriores. A única coisa que sabemos minimamente é o que nos espera em termos de rotinas… fora isso, tudo muda.

O Caminho Inglês tem, em primeiro lugar, uma paisagem muito diversa em comparação com o português. Em termos de paisagem é mais ou menos dividido em duas partes: uma feita à beira mar ou pela ria, a outra por montanhas, bosques e campos agrícolas. Só no que respeita a isso há já uma postura muito diferente: sentir a água ali tão perto, ver o céu espelhado no mar, na baía de Ferrol dá uma sensação etérea, não terrena. As entradas de mar fazem baias e a foz dos rios abre-se em grandes estuários cheios de biodiversidade. São literalmente zonas de transição cujo conceito remete para o mergulho incerto que é fazer o Caminho. Talvez por este paralelismo a paisagem fosse a ideal para a segunda vez que fazia o Caminho.
Depois a segunda parte da viagem, mais no interior remete para a mudança. No ano passado senti que os primeiros dias do Caminho não foram os mais fortes a nível da experiência interior: parece que precisamos de algum tempo para entrar no espírito. Dois dias é o necessário para baixarmos as rédeas e engolirmos o orgulho. O que senti este ano foi exactamente a mesma coisa: só ao terceiro dia é que se entra verdadeiramente na experiência e a paisagem litoral foi como uma terapia para os primeiros dias que nos obrigou a parar e nos preparou para etapas mais intensas a nível físico mas também psicológico.

O Caminho Inglês é mais duro também. Se o Caminho Portugês apresenta alguns desafios, o Caminho Inglês brinca com eles e fá-los repetir-se uma e outra vez para deleite das pernas e pés. Há apenas uma ou duas etapas completamente tranquilas. E, por oposição, há outras duas ou três que são desafios bem exigentes. As saídas de Pontedeume-Betanzos e Betanzos-Hospital de Bruma, logo pela manhã, são assustadoras. A única coisa que me lembro é de subir, subir e subir! Felizmente, depois daquele aquecimento, o resto da etapa tornava-se mais elástica. Como se o corpo tivesse atingido um nível de metabolismo adequado para aquele exercício diário, logo aos primeiros quilómetros. Mas na etapa de Betanzos a Hospital de Bruma, uma etapa com cerca de 28 km, para além dos primeiros quilómetros ameaçadores, era já aos 18km que nos apareceria aquela que é considerada a pior parte do Caminho Inglês. A verdade é que os comentários entre os peregrinos acerca deste troço eram incisivos… mas o que acabamos por verificar é que este troço era, ainda assim, um pouco mais fácil do que imaginávamos. Nada como ter as metas elevadas para relativizar a dificuldade do percurso. Por outro lado a etapa de chegada a Santiago era bastante tranquila, ao contrário da do Caminho Português na qual senti alguma frustração devido ao cansaço. Neste caso, pelo contrário, deu-me oportunidade de usufruir e seguir entretida entre outros peregrinos, como o merecido prémio por me deixar domesticar por um Caminho tão desafiante.

O Caminho Inglês tem albergues menos equipados. Bom, esta afirmação não é completamente verdadeira… Há excelentes albergues como é o caso de Betanzos. Porém, há dois ou três que nos confrontam com algumas dificuldades. Pontedeume é claramente o mais complicado, o mais desafiador e talvez o pior dos albergues em que já estive. Mas tudo passa porque não se faz o Caminho sozinho e, neste caso, o “modo rebanho” faz-nos conseguir ultrapassar as dificuldades. Outro albergue complexo é o de Hospital de Bruma, mas por outras razões. O albergue em si é bom, confortável e bem servido de equipamentos. O único problema é ser pequeno, ficar no fim de uma longa etapa e onde se cruza com o Caminho Inglês vindo da Corunha. Para além disso ficar, literalmente, no meio do nada, longe de qualquer centro. Há um pequeno restaurante onde se serve de tudo e com extrema boa qualidade, uma carrinha-mercado que passa pelas 18h com alguns bens, 5 ou 6 casas, um parque infantil, uma capela que abre apenas uma vez por mês para celebrar e o albergue. E campos. Campos a perder de vista a toda a volta. Mas se vos disser que, depois de Betanzos, foi o sítio onde mais gostei de ficar e que ali, ali sim, os locais recebem os peregrinos com carinho, todos os dias… Mas a questão dos albergues não ficou por aqui: Sigueiro, a última paragem antes de Santiago é uma vila bem recheada mas não tem albergue municipal. Por causa disso, e tal como no ano passado, acabamos por ficar uma noite num albergue privado. É um luxo não precisar de saco-cama, ter quem se responsabilize pela lavagem da roupa, ter mais condições nos duches e um pequeno almoço incluido. Mas foi o dia em que passamos menos tempo no albergue: o espírito perde-se, não estamos perto da nossa “familia Caminho” e por isso acabamos por nos encontrar todos cá fora longe dos locais de descanso. Não é igual e está muito longe de reproduzir a experiência. Facilmente eu trocava aqueles “luxos” por mais uma boa noite em “família”, a última antes de Santiago.

O Caminho inglês tem gente de “todo o lado”. Mais do que o Caminho Português, o Caminho Inglês obriga-nos a cruzar muitas fronteiras. Éramos os únicos portugueses e convivemos com gente de toda a parte. Mas as verdadeiras fronteiras foram as que encontramos dentro das pessoas. Se bem que o Caminho Português tem mais gente e é por isso mais difícil ligarmos-nos mais profundamente, devo dizer que o Caminho Inglês parece ter peregrinos com mais “razões” mais “motivos”, para além de uma proposta turística, do que o Caminho Português. Há muitas “mudanças de vida”, muitos “corações partidos”, muitas “relações para a vida”, muitas razões “religiosas”, muitas “aventuras”, muitas “promessas”, muitos “pedidos de casamento” por trás de cada um dos peregrinos. Há muitas histórias para contar, muitas experiências únicas que fizeram de cada peregrino que conheci uma pessoa especial e com a qual mantive contacto. Creio que me apercebi disso tarde demais. Hoje teria perguntado a todos pelos quais passei que motivações tinham para fazer o Caminho. Por outro lado, muito mais do que no Caminho Português, vêm-se muitos peregrinos sozinhos, casais, grupos de três no máximo, mas poucos, muito poucos grupos. O resultado disso é que as ligações ao longo do tempo se multiplicam: é fácil puxar uma cadeira e juntar mais um, é fácil partilhar o pouco que temos, é fácil dizer um segredo, confessar um pensamento porque há pouca gente a ouvir. É fácil seguir caminhando com outros, é fácil esperar por alguém, é fácil fazer poucas perguntas e receber muitas respostas. O Caminho Inglês é mais difícil mas é mais fácil chegar mais longe…

 

Then we left again.

I can not hide, as I have already shared here, that I was a bit out with this despite having a huge desire to go and live the experience of last year again. We considered repeating exactly the same route as last year because we were a bit stunned by the fact that there were just the two of us, and that we wanted to share this Camino with the same team of the previous year. Yet, something pointed us to follow a new Camino, just as expected. After the doubts and decisions, we left from Porto to Ferrol. When I got there I still felt this disconnection. It was as if my body had made a decision and my head did not. It was as if I had not yet internalized this trip, despite the six-hour bus ride until Ferrol.
Last year I had been loaded with preparations that this year simply did not required. It was all done, the investment was minimal: we just needed to fill our backpacks. The only preparation I had to do was internal, personal, mental and emotional. The most difficult however. Because it’s easy enough to fool ourselves into lists of equipment, guides and preparations… and pretend that the rest is ready too.
That night in Ferrol, after dinner, we decided to look for the beginning of the Camino Inglés in the Cruxeiras pier. And standing on the spot for a few minutes, we were having trouble finding the yellow arrows that would lead us on the Camino the next morning. I do not know if it was a sign that I had not prepared myself properly, but the truth was that we looked around and found nothing. Clearly we were looking for “the wrong way, the wrong Camino”. I realized right away that I had to relax and said to myself: “You have to call the pilgrim inside you because this whole independence you think you have is not real.” After wandering a little without success, we started to be a pilgrim and simply asked for directions to a German gentleman in a small bar. He advised us to look back and pointed us to the direction of the Camino. As soon we returned, we saw the colorful and huge and big service pilgrim station, the monolith that indicated the beginning of the Camino Inglés and the first arrows of the route! If they were all monsters, they’d eaten us is a second. Rule number one on the way: a question is never too stupid and pride is always too much. So many turns for what? From that moment the arrows began to appear before us, one behind the other in the most obvious places through which we had already passed! And so, as teasing us for our arrogance, the Camino Inglés began…
Actually, the Camino Inglés was not just a different route as I thought. Everything was special, everything was different, new: the people, the habits, the route, the weather, the landscape, the albergues, the circumstances. That start-up was just a warning! And I did very little use of previous knowledge. The only thing we know that is useful is some of the routines… everything else changes.

The Camino Inglés has, in the first place, a very diverse landscape compared to the Portuguese. In terms of landscape one can say it is divided into two parts: the first made by the sea or by the river, the second by the mountains, woods and agricultural fields. This provoked very different attitudes inside us: to feel the water there so close, to see the sky mirrored in the sea, in the bay of Ferrol gives an ethereal, not earthly sensation. The sea entrances create bays and the mouths of the rivers open in large estuaries full of biodiversity. This are literally zones of transition and the transition concept also reflects the uncertain dive that is to make the Camino. Perhaps this parallelism with landscape was the ideal one me, while walking my second Camino.
After this, the second part of the Camino, in the mountains refers to “change”. Last year I felt that the first days of the journey were not the strongest in the inner experience: it seems that we need some time to get into the spirit. Two days is what it takes to get the our routines out and swallow our pride. What I felt this year was exactly the same thing: it was only on the third day that I truly entered into the experience. And the coastal landscape was like a therapy for the first few days that forced us to stop and that prepared us for a more intense physical (but also psychologic) stages of the second part of the journey.

The Camino Inglés is tougher too. If the Portuguese way presents some challenges, the Camino Inglés doubles them and makes them repeat over and over again for the delight of our legs and feet. There are only one or two easy days. And, by contrast, there are another two or three that have very demanding challenges. The exits from Pontedeume-Betanzos and Betanzos-Hospital de Bruma days, at dawn, are scary. The only thing I remember is to go up, up and up! Fortunately, after that warm-up, the rest of the stage became more elastic. As if the body had reached a level of metabolism suitable for that daily exercise very soon, at the first kilometers of the journey. But in the stage from Betanzos to Hospital of Bruma, a stage with 28 km, in addition to the first threatening miles, it was only after 18km that we would venture on the worst part of the Camino Inglés. The truth is that the comments among the pilgrims about this section were incisive… but what we realized is that this section was not as harsh as we imagined. Nothing like having high goals to relativize the difficulties!
On the other hand the last stage and the arrival in Santiago de Compostela was quite quiet, unlike the one on the Portuguese Camino where I felt some frustration due to fatigue. In this case, the stage it gave me the opportunity to enjoy and remain entertained among other pilgrims, as the well-deserved prize for letting me tame during this challenging Camino.

The Camino Inglés has less equipped albergues. Well, this statement is not completely true… There are excellent albergues as is the case of Betanzos. However, there are two or three with some issues. Pontedeume is clearly the most complicated, the most challenging and perhaps the worst albergue I have ever been to. But everything passes because the Camino is not made alone and, in this case, the fact that we were all in the same situation helped us to manage and to overcome the difficulties. Another complex albergue is Hospital de Bruma, but for other reasons. The albergue itself is good, comfortable and well-equipped. The only problem is that it is more on the small side, stays at the end of a long journey from Betanzos and it crosses the Camino from La Coruña which means more pilgrims. Plus it stays literally in the middle of nowhere, far from any center. There is a small restaurant with extremely good quality food, a market in a van that passes at 6pm with some goods, 5 or 6 houses, a playground, a chapel that opens only once a month and the hostel. And fields. Fields everywhere you look and all around. But if I can tell you that, after Betanzos, it was the place where I most enjoyed staying and that where the locals receive the pilgrims with more affection, every day…
But the albergues issue did not stop here: in Sigueiro, the last stop before Santiago de Compostela, is a well equipped village but does not have a public albergue. Because of this, and just like last year, we ended up staying overnight at a private albergue. It is a luxury not to need a sleeping bag, to have someone responsible for washing clothes, to have better conditions in the showers and a breakfast included. But it was the day when we spent less time in the albergue: the camino spirit is lost, we are not close to our “camino family” and so we left our albergues and met all together out from the resting nest. It is not the same to stay at a private albergue as it is to stay at the public and is far from reproducing that experience. I easily exchanged those “luxuries” for another good night with my “camino family”, the last night one before Santiago de Compostela.

The Camino Inglés has people from “everywhere”. More than the Portuguese Camino, the Camino Inglés forces us to cross many boundaries. We were the only Portuguese in the group and we met people from all over the world. But the real frontiers were the ones we found inside people. Although the Portuguese Camino has more people and is therefore more difficult to connect more deeply, I must say that the Camino Inglés seems to have pilgrims with more “reasons”, in addition to a regular touristic motivation to walk, than the Portuguese Camino. There are many “life changes”, many “broken hearts”, many “relationships to life”, many “religious” reasons, many “adventures”, many “promises”, many “marriages” behind each one of the pilgrims the do the Camino Inglés. There are many stories to tell, many unique experiences that have made every pilgrim I met a special person and with whom I still have contact with. I think I realized that too late. Today I would have asked everyone I met what motivations they had to walk the Camino.
On the other hand, much more than in the Portuguese Camino, there are many pilgrims alone, or couples, groups of three maximum, but few, very few groups. The result is that the links over time are multiplied: it’s easy to pull a chair and add one more pilgrim to your table, it’s easy to share the little we have, it’s easy to tell a secret, confess a thought because there are few people listening. It is easy to keep walking with others, it is easy to wait for someone, it is easy to ask few questions and receive many answers. The Camino Inglés is harder but it’s easier to get further…

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A new Camino…

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O ano passado, por esta altura estava a preparar cuidadosamente o meu primeiro Caminho. A experiência foi tão importante que logo decidimos que gostaríamos de regressar este ano. Por isso, em breve estarei novamente de mochila às costas, e desta vez, porque as lesões são um aviso a ser ouvido, apenas a dois. Não posso deixar de dizer que este último aspecto nos fez ponderar… uma das coisas que o Caminho nos dá é alguma transformação ao nível das relações. Uma equipa é algo que deve ser muito reflectido, ponderado e discutido. Porque a relação entre os envolvidos nunca mais será a mesma. No fim do meu caderno sobre o Caminho Português, eu escrevi que os olhares entre peregrinos são particulares, como se guardássemos um grande e valioso segredo. Há uma compaixão, uma identificação que muda a nossa perspectiva do outro e nos aproxima.

Ora, quando um de nós, tem algum tipo de impedimento, há naturalmente uma nostalgia, um sentimento de perda, uma necessidade inconsciente de querer partilhar e não poder. Por isso, a ponderação é relevante. Apesar da lesão que não nos permitirá estar juntos desta vez, ficou claro que haveria vontade de todos de tentar concretizar o caminho com os restantes. Por isso, à parte as nostalgias, há a responsabilidade de ir e de levar na mochila um pouco mais do que nós mesmos.

A preparação este ano foi muito mais breve, o investimento financeiro foi mais reduzido e talvez porque a preparação também faz parte do caminho, agora, a poucos dias de partir, ainda estou a tentar apanhar o comboio para o estado de espírito com o qual desejo partir. Isto estava a criar alguma ansiedade: onde estava toda aquela concentração? Será que tinha ganho confiança demais após a primeira experiência no caminho? Algo perplexa com este sentimento: deixei de parte a escrita e vesti a indumentária de leitor, a vossa, e vagueei no blog à procura dos posts que escrevi sobre o caminho que percorri o ano passado, de forma a poder inspirar-me.

Confesso que inicialmente o que me apeteceu fazer foi reunir num post toda a minha primeira experiência. Foi tão intensa que recordar deixou-me, no mínimo esperançosa… por outro lado, voltar a pegar neste assunto parecia-me deslocado da possibilidade de uma nova experiência para a qual não tenho expectativas mas que pretendo viver com a abertura do caminho anterior. Assim, em vez de me focar na experiência anterior, venho apenas actualizar a minha perspectiva actual acerca do ponto de situação mental em que me encontro em relação a mais um caminho. E vou fazê-lo em relação aos aspectos que toquei aqui sobre o caminho do ano passado, sem contudo me deixar levar pela comparação ou pela criação de sobre-metas.

Assim, tal como no ano passado, não há propriamente uma história inspiradora que me leve a fazer a peregrinação. Se no ano passado a história foi simples… este ano ainda pior porque esta sensação de que ando atrasada fez-me duvidar de que estivesse tão pronta, decidida como no ano passado. Contudo, quando reflecti na experiência que tive, logo a minha mente despertou exactamente no local e momento em que decidimos que viríamos novamente este ano.

Não há também grandes expectativas, a não ser essa vontade de estar mais próxima de um Caminho natural e pouco frequentado. Porém, aprendi recentemente num podcast acerca do poder das expectativas, que muitas vezes as temos sem as assumir e que isso é o que lidera a concretização dos nossos sonhos: como diz Mark Twain, por vezes é o facto de não sabermos que as coisas são impossíveis que nos coloca à frente a real possibilidade de as concretizarmos. Por isso, embora não leve comigo nada em concreto, eu sei no meu íntimo que levo alguma ambição de pelo menos conseguir concretizar esta jornada tranquilamente.

Este ano, uma das coisas que quis que estivesse mais presente no blog era a proximidade com a natureza. Desde os meus habituais trilhos passando pelas páginas do meu Nature Journal e finalmente pela minha pequena coleção de produtos inspirados na natureza, acho que estou a conseguir concretizar a ambição que partilhei convosco em janeiro deste ano. Portanto, e visto que todos os caminhos são diferentes, resolvemos que gostaríamos de fazer uma variante do caminho mais marcada pela paisagem natural. E depois de ouvirmos alguns testemunhos de confiança, optamos por isso pelo Caminho Inglês a partir de Ferrol, na Corunha. Ao que parece, para além desta característica, é um Caminho menos percorrido pelo que a entrega interior e a paz são mais acentuadas.

No ano passado senti falta dos meus cartões de visita pelo que, este ano, vou levar alguns destes comigo!

A experiência de escrever foi tão gratificante que penso que quero repeti-la. Não sei ao certo o que irei escrever: ha quem opte por tratar alguns assuntos interiores. No ano passado eu preferi absorver o caminho e assentar aquilo que poderia passar despercebido diariamente. Para este efeito, certamente que levarei um nos meus Tide Pool Notebooks!

Ainda estive à procura de novos projectos handmade como este ou este. Contudo, acabei por perceber de que não precisava de mais nada na minha mochila para além destes projectos! O caminho é sobre o despojamento e vi-me obrigada a assumir que já tinha feito todos os projectos handmade que precisava para o caminho e até disso tive de me libertar. Penso que, a seguir a ter de deixar um companheiro, esta é a segunda coisa que mais me está a custar: perceber que tudo tem um limite sensato, até para as minhas idiossincrasias com as coisas feitas à mão.

Desta vez não levamos um guia como este porque não encontrei nenhum bom exemplar do Caminho Inglês. Preparei as etapas cuidadosamente com recurso a alguns testemunhos espalhados pela web e tudo o resto irei descobrir a caminhar!

Estou quase quase pronta para esta nova experiência!

By this time last year I was carefully preparing my first Camino. The experience was so important that we soon decided that we would like to return this year. So, soon I will be backpacking again, and this time, because the injuries are a warning to be heard, there will be only two of us. I can not help saying that this aspect made us consider… one of the things that the Camino gives us is some transformation in relationships. A team is something that should be carefully discussed. Because the relationship between those involved will never be the same. At the end of my notebook on the Portuguese Camino, I wrote that the looks among pilgrims became special, as if we kept a great and valuable secret among us. There is compassion, identification that changes our perspective the other pilgrims and brings us closer.

Now, when one of us has some sort of impediment, there is of course a nostalgia, a sense of loss, an unconscious need to share what we can’t share. Therefore, some wisdom is necessary. Despite the injury that will not allow us to be together this time, it is clear that it is everyone’s will to try to make the Camino work to the rest of us. So, aside from some nostalgia, there is the responsibility to go and carry in our backpack a little more than just ourselves.

The preparation this year was much brief, the financial investment was reduced and perhaps because preparation is also part of the Camino, now, just a few days before leaving, I am still trying to “catch this train” to the state of mind with which I wish leave. This was creating some anxiety: where was all that concentration I had last year? Had I gained too much confidence after the first experience along the Camino? Somehow perplexed by this feeling, I stopped writing and wandered a bit on the blog in search of the posts I wrote about the Camino last year, so that I could be inspired.

I confess that initially what I wanted to do was gather in one post all my first experience. It was so intense that remembering it left me at least hopeful… on the other hand, getting back on this subject seemed that I was trying to displace the possibility of a new experience that I intend to live again. So instead of focusing on my previous experience, I update my current perspective on the mental state about the things I wrote last year. Just that! No comparisons or over-goals.

So, just like last year, there is not really an inspiring story to lead me to make the pilgrimage again. Last year’s story was simple… this year is even worse because this feeling that I’m late has made me doubt that I was as ready to go. However, when I reflected on the experience I had, then my mind was awakened exactly at the time and place where we decided to come again this year. I was ready then, I am ready now!

There are also no great expectations, other than this desire to be closer to a nature. However, I recently learned in a podcast about the power of expectations, that we often have them without assuming them, and that is what leads the realization of our dreams: as Mark Twain says, it is sometimes the fact that we do not know that things are impossible that puts us before the real possibility of realizing them. So although I do not take anything concrete with me, I know in my heart that I have some ambition, some expectation, to at least be able to accomplish this journey quietly.

This year, one of the things I wanted to be more present on the blog was the proximity to nature. From my hiking trails, through the pages of my Nature Journal and finally to my small collection of nature-inspired products, I think I am accomplishing the ambition I shared with you in January of this year. Therefore, since all Caminos are different, we decide that we would like to make a variant of the Camino marked by the natural landscape. And after listening to some reliable testimonies, we opted for the English Way from Ferrol, in A Coruña. It seems that, beyond this characteristic, this variant is less popular among pilgrims and so it is more quiet and peaceful.

Last year I missed my business cards so this year I’m going to take some of these with me!

The experience of writing was so rewarding that I think I want to repeat it. I am not sure what I am going to write: there are those who choose to deal with some inner matters. Last year I preferred to absorb the Camino and write about the things unnoticed. For this purpose, certainly I will take one in my Tide Pool Notebooks!

I’ve still been looking for new handmade projects like this or this one. However, I finally realized that I did not need anything else in my backpack other than these projects! The way is about stripping and I was forced to assume that I had already done all the handmade projects I needed for the Camino and that I really had to free myself from this obsession. I think that, beside having to leave a partner, this is the second thing that is getting more challenging: to realize that everything has a sensible limit, even my idiosyncrasies for things done by hand.

This time we did not take a guide like this because I did not find any good example of the English Way. I have prepared the steps carefully using some testimonies spread over the web and everything else I will discover to walk!

I’m almost almost ready for this new experience!

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June and July Nature Journal

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Junho e Julho foram muito diferentes no que diz respeito às minhas experiências na natureza.

June and July were very different in regard to my experiences in nature.

Junho foi dominado por uma viagem às terra altas e naturalmente, dediquei muitas páginas do meu diário de natureza às minhas experiências na Escócia.
Os cervídeos foram uma constante ao longo da minha estadia. Desde pequenos rastos até avistamentos mais ou menos próximos, houve pelo menos duas ou três experiências com Corços e Veados a reter. Por isso, na primeira semana de Junho resolvi representar um corço que avistei num trilho nos Cairngorms.

June was dominated by our roadtrip to the highlands and of course, I dedicated many pages of my nature journal to my experiences in Scotland.
The cervids were a constant throughout my stay. From small tracks some sights, there were at least two or three experiences with Deers to retain. So in the first week of June I decided to represent a Roe-dear that I saw on a trail in the Cairngorms.

Outra experiência que nunca passa despercebida em todo o Reino Unido são os característicos jacintos-do-campo. Na verdade pensei que já não iria ter oportunidade de os avistar porque sempre pensei que florescessem apenas no início da primavera. Contudo, o clima é muito diferente de Portugal e mesmo do sul de Inglaterra pelo que foi óbvio que o tempo de floração fosse mais longo. O seu aroma inconfundível atrai!

Another experience that never goes unnoticed all over the UK are the characteristic fields of bluebells. In fact, I thought I would not have a chance to spot them because I always thought they bloom only in the early spring. However, the climate there is very different from Portugal and even from the south of England so it is obvious that the flowering time is longer. Its unmistakable sweet aroma attracts us!

Apercebi-me que ainda não tinha feito nenhuma página no meu diário dedicado ao gado que encontro frequentemente em Portugal. E foi quando avistei estas vacas Highland que me apercebi que devia introduzi-las no meu diário e, a partir daí, ficar um pouco mais sensível ao gado.

I realized that I had not yet made any page in my journal dedicated to cattle that I often encounter in Portugal. And it was when I saw these Highland cows that I realized that I had to put them in my journal, and from then on, to be a little more aware to the cattle I see frequently!

Mas nem sempre as melhores experiências são feitas nas grandes viagens. E foi o que aconteceu na noite de São João, depois do jantar. Mesmo no terreno ao lado do dos meus pais avistei um pequeno e belíssimo mocho galego que estudava atento o terreno às procura de alimento. Não gostei muito do resultado do meu desenho contudo e apercebi-me que tenho de estudar melhor a representação de penas, sobretudo quando se trata de um padrão malhado ou pintalgado.

But the best experiences are not always found on big trips. And that’s what happened on St. John’s night, after dinner. On the land next to my parents house I saw a small and beautiful little owl who was looking for food. I did not like the result of my drawing, however, and I realized that I have to practice a lot the representation of feathers, especially when it comes to a patchy pattern.

 

O início do mês de julho, por outro lado, foi bastante atribulado e obrigou-me a recordar os momentos passados na Escócia. Resolvi então fazer ais uma representação de cervídeos, em particular o de um alistamento de um Veado-Vermelho junto ao rio Finnan. Era enorme e as suas agulhadas estavam a crescer. Sonhei poder voltar à Escócia em pleno outono ou percorrer Portugal à procura de veados com galhadas grandes!

The beginning of July, on the other hand, was very busy and forced me to remember the moments spent in Scotland. I then decided to make a representation of a red deer I saw near the Finnan River. It was huge and its antlers were growing. I dreamed about coming back to Scotland in the middle of autumn or go through Portugal in search of deer with big antlers!

Recordei ainda um momento junto ao lago Cluanie, quando quase a pisá-los, dei de caras com um conjunto incontável de girinos que, pela forma e tom quase preto me pareciam girinos de sapo-comum.

I remembered a moment next to Lake Cluanie, when I almost stepped on an uncountable set of tadpoles that, by the shape and almost black color, seemed to me Common toad tadpoles.

Por fim, já de volta, num passeio à beira mar pelo passadiço junto às dunas foi lindo descobrir os cardos-marítimos em flor! As dunas pareciam enfeitadas de pequenos pompons de uma tonalidade mágica, azul metálico e lilás!

Finally, back home, during a walk along the dunes by the sea, it was lovely to discover the sea holly blooming! The dunes seemed to be adorned with little pompoms of a magical tint, metallic blue and lilac!

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Around here: I danced in the highlands.

Tarde em Luss.

Afternoon in Luss.

O romper da manhã no vale de Orchy.

Dawn in the Orchy valley.

A vista em Bridge of Orchy.

The view in Bridge of Orchy.

O esmagador Glencoe.

The overwhelming Glencoe.

O Glenfinnan Viaduct para os fãs de Harry Potter.

The Glenfinnan Viaduct for the Harry Potter fans.

O início do Canal Caledoniano que atravessa o Great Glen.

The Caledonian Canal over the Great Glen.

A paisagem em Invergarry.

The view in Invergarry.

O incontornável Eilean Donan Castle.

The inescapable Eilean Donan Castle.

Os trilhos inesquecíveis na ilha de Skye.

The unforgettable trails in the Island of Skye.

As cinco irmãs vistas do Glenshiel.

The five Sisters from Glenshiel.

O marco de correio no meio do nada de onde enviei os meus postais.

The mail box of the fields somewhere near Kyle from where I sent my postcards.

O calmo Lago Cluanie.

The calm Loch Cluanie.

O misterioso Lock Ness.

The mysterious Loch Ness (We looked for Nessie of course!)

As livrarias em Inverness.

The bookshops in Inverness.

Os trilhos nos Cairngorms.

The trails over the Cairngorms.

Os lagos em Aviemore.

The Lakes in Aviemore.

 

Os jardins nos Castelos de Balmoral e Drum.

The Gardens in Balmoral and Drum Castle.

A adorável St Andrews onde eu jurei voltar um dia.

The beloved St. Andrews where I sweared I will come back one day.

O Urso nos Jardins de Princes Street com o Castelo de Edimburgo ao fundo.

The Bear in the Princes Street Gardens, with the Castle of Edinburgh in the back.

 

(scroll for the English version)

 

Estive uns dias fora que aproveitei para reflectir e abrir horizontes. Ainda ponderei agendar alguns posts mas pareceu-me forçado. Por isso preferi mostrar-vos que, de vez em quando é preciso respirar e acompanhar o nosso esforço com as devidas pausas. Durante este tempo houve uma montanha bem alta de coisas a acontecer: foi um período em que me entreguei a mim, e quando me ofereci aos outros de forma mais intensa, que reagi finalmente, que maturei e defini. Houve muitos “sim!” mas também alguns “não!” e outros “chega!”. Houve algum retrocesso e algum avanço. Neste tempo eu dancei, da esquerda para a direita, de cima para baixo, voei baixinho, aterrei colada ao chão, levantei-me, rodopiei e voltei ao centro, fortaleci alguns músculos, forcei outros, curei lesões. Acho que cresci um ou dos milímetros.

Entre algumas das coisas que se foram passando, trago-vos algumas imagens de um fabuloso passeio pelas terras altas que não só encheu os meus olhos de maravilhas como me inspirou a escrever, a pintar e sobretudo a estudar. Eu adoro história e viajar é a melhor forma de estudar história ou pelo menos de a consolidar.

I spent a few days out to think and open my horizons. I still pondered scheduling a few posts but it seemed forced to me. That is why I have chosen to show you that, from time to time, we must breathe and follow our effort with the necessary pauses. During this time there was a very high mountain of things that happen: it was a time when I confronted myself, and when I offered myself to others more intensely, a time when I finally reacted, matured and defined some issues. There were many “yes!” but also some “no!” and a few “enough!”. There was some setback and some breakthrough. While I was away I danced from left to right, from top to bottom, I flew, quietly, I landed glued to the ground, got up, whirled and returned to my center, strengthened some muscles, forced others, healed injuries. I think I’ve grown a millimeter.

Among some of the things that have been happening, I bring you some images of a fabulous road trip through the highlands that not only filled my eyes with wonders as it inspired me to write, to paint and especially to study. I love history and traveling is the best way to study history or at least to consolidate it.

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