Some thoughts about my Camino Inglés

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Então nós partimos novamente.

Não posso esconder, como já partilhei aqui, que estava um pouco desalinhada com esta partida apesar de ter uma vontade imensa de ir e reviver a experiência do ano passado. Ainda ponderamos repetir exactamente o mesmo trajecto já que ficamos um pouco atordoados pelo facto de irmos apenas os dois e termos muita vontade de partilhar este Caminho com a mesma equipa do ano anterior. Contudo algo nos apontava para seguir um novo caminho, tal e qual já tínhamos predestinado. Passadas as dúvidas e feitas as decisões partimos do Porto rumo a Ferrol. Quando lá cheguei ainda sentia esta desconexão. Era como se o corpo tivesse feito uma decisão e a cabeça não o acompanhasse. Era como se não tivesse ainda interiorizado a viagem, apesar das seis horas de autocarro.
O ano passado tinha sido carregado de preparativos que este ano simplesmente não necessitou. Já estava tudo praticamente feito, o investimento era mínimo: era mesmo só fazer a mochila. A única preparação que havia a fazer era interna, pessoal, mental e emocional. A mais difícil porém. Porque é bastante fácil enganarmo-nos em listas de equipamento, guias e preparativos… e fazer de conta que o resto está pronto.
Já em Ferrol, depois do jantar resolvemos procurar o início do Caminho no cais das Cruxeiras, mesmo ao pé do mar. E apesar de estarmos no local há alguns minutos, estávamos com dificuldades em encontrar as setas amarelas que nos levariam ao Caminho na manhã seguinte. Não sei se foi sinal de que não me tinha preparado devidamente, mas a verdade é que olhava à minha volta e não encontrava nada. Claramente estava a procurar “o Caminho errado”. Percebi desde logo que tinha de relaxar e disse para mim “tens de ligar o modo peregrina porque essa independência toda não é real”. Depois de deambularmos um pouco sem sucesso, perdemos a vergonha e perguntamos por indicações a um senhor alemão num pequeno bar. Ele recomendou-nos olharmos para trás e indicou-nos o sentido do Caminho. Ora, mal nos voltamos vimos o vistoso posto de atendimento ao peregrino, o monólito que indicava o inicio do Caminho inglês e as primeiras setas. Se fossem monstros, tinham-nos comido. Regra número um no Caminho: uma pergunta nunca é muito idiota e o orgulho é sempre demais. Tantas voltas para quê? A partir daquele momento as setas começaram a aparecer à nossa frente, uma atrás da outra em locais óbvios pelos quais já havíamos passado. E assim, como que a gozar com a nossa prepotência, começava o Caminho Inglês…
E na verdade Caminho Inglês não foi apenas um percurso diferente, como eu pensava. Em tudo foi especial, em tudo é diferente, em tudo novo: as pessoas, os hábitos, o piso, o desnível, o tempo, a paisagem, os albergues, as circunstâncias. Aquele início de percurso era apenas um aviso. E de muito pouco servem conhecimentos anteriores. A única coisa que sabemos minimamente é o que nos espera em termos de rotinas… fora isso, tudo muda.

O Caminho Inglês tem, em primeiro lugar, uma paisagem muito diversa em comparação com o português. Em termos de paisagem é mais ou menos dividido em duas partes: uma feita à beira mar ou pela ria, a outra por montanhas, bosques e campos agrícolas. Só no que respeita a isso há já uma postura muito diferente: sentir a água ali tão perto, ver o céu espelhado no mar, na baía de Ferrol dá uma sensação etérea, não terrena. As entradas de mar fazem baias e a foz dos rios abre-se em grandes estuários cheios de biodiversidade. São literalmente zonas de transição cujo conceito remete para o mergulho incerto que é fazer o Caminho. Talvez por este paralelismo a paisagem fosse a ideal para a segunda vez que fazia o Caminho.
Depois a segunda parte da viagem, mais no interior remete para a mudança. No ano passado senti que os primeiros dias do Caminho não foram os mais fortes a nível da experiência interior: parece que precisamos de algum tempo para entrar no espírito. Dois dias é o necessário para baixarmos as rédeas e engolirmos o orgulho. O que senti este ano foi exactamente a mesma coisa: só ao terceiro dia é que se entra verdadeiramente na experiência e a paisagem litoral foi como uma terapia para os primeiros dias que nos obrigou a parar e nos preparou para etapas mais intensas a nível físico mas também psicológico.

O Caminho Inglês é mais duro também. Se o Caminho Portugês apresenta alguns desafios, o Caminho Inglês brinca com eles e fá-los repetir-se uma e outra vez para deleite das pernas e pés. Há apenas uma ou duas etapas completamente tranquilas. E, por oposição, há outras duas ou três que são desafios bem exigentes. As saídas de Pontedeume-Betanzos e Betanzos-Hospital de Bruma, logo pela manhã, são assustadoras. A única coisa que me lembro é de subir, subir e subir! Felizmente, depois daquele aquecimento, o resto da etapa tornava-se mais elástica. Como se o corpo tivesse atingido um nível de metabolismo adequado para aquele exercício diário, logo aos primeiros quilómetros. Mas na etapa de Betanzos a Hospital de Bruma, uma etapa com cerca de 28 km, para além dos primeiros quilómetros ameaçadores, era já aos 18km que nos apareceria aquela que é considerada a pior parte do Caminho Inglês. A verdade é que os comentários entre os peregrinos acerca deste troço eram incisivos… mas o que acabamos por verificar é que este troço era, ainda assim, um pouco mais fácil do que imaginávamos. Nada como ter as metas elevadas para relativizar a dificuldade do percurso. Por outro lado a etapa de chegada a Santiago era bastante tranquila, ao contrário da do Caminho Português na qual senti alguma frustração devido ao cansaço. Neste caso, pelo contrário, deu-me oportunidade de usufruir e seguir entretida entre outros peregrinos, como o merecido prémio por me deixar domesticar por um Caminho tão desafiante.

O Caminho Inglês tem albergues menos equipados. Bom, esta afirmação não é completamente verdadeira… Há excelentes albergues como é o caso de Betanzos. Porém, há dois ou três que nos confrontam com algumas dificuldades. Pontedeume é claramente o mais complicado, o mais desafiador e talvez o pior dos albergues em que já estive. Mas tudo passa porque não se faz o Caminho sozinho e, neste caso, o “modo rebanho” faz-nos conseguir ultrapassar as dificuldades. Outro albergue complexo é o de Hospital de Bruma, mas por outras razões. O albergue em si é bom, confortável e bem servido de equipamentos. O único problema é ser pequeno, ficar no fim de uma longa etapa e onde se cruza com o Caminho Inglês vindo da Corunha. Para além disso ficar, literalmente, no meio do nada, longe de qualquer centro. Há um pequeno restaurante onde se serve de tudo e com extrema boa qualidade, uma carrinha-mercado que passa pelas 18h com alguns bens, 5 ou 6 casas, um parque infantil, uma capela que abre apenas uma vez por mês para celebrar e o albergue. E campos. Campos a perder de vista a toda a volta. Mas se vos disser que, depois de Betanzos, foi o sítio onde mais gostei de ficar e que ali, ali sim, os locais recebem os peregrinos com carinho, todos os dias… Mas a questão dos albergues não ficou por aqui: Sigueiro, a última paragem antes de Santiago é uma vila bem recheada mas não tem albergue municipal. Por causa disso, e tal como no ano passado, acabamos por ficar uma noite num albergue privado. É um luxo não precisar de saco-cama, ter quem se responsabilize pela lavagem da roupa, ter mais condições nos duches e um pequeno almoço incluido. Mas foi o dia em que passamos menos tempo no albergue: o espírito perde-se, não estamos perto da nossa “familia Caminho” e por isso acabamos por nos encontrar todos cá fora longe dos locais de descanso. Não é igual e está muito longe de reproduzir a experiência. Facilmente eu trocava aqueles “luxos” por mais uma boa noite em “família”, a última antes de Santiago.

O Caminho inglês tem gente de “todo o lado”. Mais do que o Caminho Português, o Caminho Inglês obriga-nos a cruzar muitas fronteiras. Éramos os únicos portugueses e convivemos com gente de toda a parte. Mas as verdadeiras fronteiras foram as que encontramos dentro das pessoas. Se bem que o Caminho Português tem mais gente e é por isso mais difícil ligarmos-nos mais profundamente, devo dizer que o Caminho Inglês parece ter peregrinos com mais “razões” mais “motivos”, para além de uma proposta turística, do que o Caminho Português. Há muitas “mudanças de vida”, muitos “corações partidos”, muitas “relações para a vida”, muitas razões “religiosas”, muitas “aventuras”, muitas “promessas”, muitos “pedidos de casamento” por trás de cada um dos peregrinos. Há muitas histórias para contar, muitas experiências únicas que fizeram de cada peregrino que conheci uma pessoa especial e com a qual mantive contacto. Creio que me apercebi disso tarde demais. Hoje teria perguntado a todos pelos quais passei que motivações tinham para fazer o Caminho. Por outro lado, muito mais do que no Caminho Português, vêm-se muitos peregrinos sozinhos, casais, grupos de três no máximo, mas poucos, muito poucos grupos. O resultado disso é que as ligações ao longo do tempo se multiplicam: é fácil puxar uma cadeira e juntar mais um, é fácil partilhar o pouco que temos, é fácil dizer um segredo, confessar um pensamento porque há pouca gente a ouvir. É fácil seguir caminhando com outros, é fácil esperar por alguém, é fácil fazer poucas perguntas e receber muitas respostas. O Caminho Inglês é mais difícil mas é mais fácil chegar mais longe…

 

Then we left again.

I can not hide, as I have already shared here, that I was a bit out with this despite having a huge desire to go and live the experience of last year again. We considered repeating exactly the same route as last year because we were a bit stunned by the fact that there were just the two of us, and that we wanted to share this Camino with the same team of the previous year. Yet, something pointed us to follow a new Camino, just as expected. After the doubts and decisions, we left from Porto to Ferrol. When I got there I still felt this disconnection. It was as if my body had made a decision and my head did not. It was as if I had not yet internalized this trip, despite the six-hour bus ride until Ferrol.
Last year I had been loaded with preparations that this year simply did not required. It was all done, the investment was minimal: we just needed to fill our backpacks. The only preparation I had to do was internal, personal, mental and emotional. The most difficult however. Because it’s easy enough to fool ourselves into lists of equipment, guides and preparations… and pretend that the rest is ready too.
That night in Ferrol, after dinner, we decided to look for the beginning of the Camino Inglés in the Cruxeiras pier. And standing on the spot for a few minutes, we were having trouble finding the yellow arrows that would lead us on the Camino the next morning. I do not know if it was a sign that I had not prepared myself properly, but the truth was that we looked around and found nothing. Clearly we were looking for “the wrong way, the wrong Camino”. I realized right away that I had to relax and said to myself: “You have to call the pilgrim inside you because this whole independence you think you have is not real.” After wandering a little without success, we started to be a pilgrim and simply asked for directions to a German gentleman in a small bar. He advised us to look back and pointed us to the direction of the Camino. As soon we returned, we saw the colorful and huge and big service pilgrim station, the monolith that indicated the beginning of the Camino Inglés and the first arrows of the route! If they were all monsters, they’d eaten us is a second. Rule number one on the way: a question is never too stupid and pride is always too much. So many turns for what? From that moment the arrows began to appear before us, one behind the other in the most obvious places through which we had already passed! And so, as teasing us for our arrogance, the Camino Inglés began…
Actually, the Camino Inglés was not just a different route as I thought. Everything was special, everything was different, new: the people, the habits, the route, the weather, the landscape, the albergues, the circumstances. That start-up was just a warning! And I did very little use of previous knowledge. The only thing we know that is useful is some of the routines… everything else changes.

The Camino Inglés has, in the first place, a very diverse landscape compared to the Portuguese. In terms of landscape one can say it is divided into two parts: the first made by the sea or by the river, the second by the mountains, woods and agricultural fields. This provoked very different attitudes inside us: to feel the water there so close, to see the sky mirrored in the sea, in the bay of Ferrol gives an ethereal, not earthly sensation. The sea entrances create bays and the mouths of the rivers open in large estuaries full of biodiversity. This are literally zones of transition and the transition concept also reflects the uncertain dive that is to make the Camino. Perhaps this parallelism with landscape was the ideal one me, while walking my second Camino.
After this, the second part of the Camino, in the mountains refers to “change”. Last year I felt that the first days of the journey were not the strongest in the inner experience: it seems that we need some time to get into the spirit. Two days is what it takes to get the our routines out and swallow our pride. What I felt this year was exactly the same thing: it was only on the third day that I truly entered into the experience. And the coastal landscape was like a therapy for the first few days that forced us to stop and that prepared us for a more intense physical (but also psychologic) stages of the second part of the journey.

The Camino Inglés is tougher too. If the Portuguese way presents some challenges, the Camino Inglés doubles them and makes them repeat over and over again for the delight of our legs and feet. There are only one or two easy days. And, by contrast, there are another two or three that have very demanding challenges. The exits from Pontedeume-Betanzos and Betanzos-Hospital de Bruma days, at dawn, are scary. The only thing I remember is to go up, up and up! Fortunately, after that warm-up, the rest of the stage became more elastic. As if the body had reached a level of metabolism suitable for that daily exercise very soon, at the first kilometers of the journey. But in the stage from Betanzos to Hospital of Bruma, a stage with 28 km, in addition to the first threatening miles, it was only after 18km that we would venture on the worst part of the Camino Inglés. The truth is that the comments among the pilgrims about this section were incisive… but what we realized is that this section was not as harsh as we imagined. Nothing like having high goals to relativize the difficulties!
On the other hand the last stage and the arrival in Santiago de Compostela was quite quiet, unlike the one on the Portuguese Camino where I felt some frustration due to fatigue. In this case, the stage it gave me the opportunity to enjoy and remain entertained among other pilgrims, as the well-deserved prize for letting me tame during this challenging Camino.

The Camino Inglés has less equipped albergues. Well, this statement is not completely true… There are excellent albergues as is the case of Betanzos. However, there are two or three with some issues. Pontedeume is clearly the most complicated, the most challenging and perhaps the worst albergue I have ever been to. But everything passes because the Camino is not made alone and, in this case, the fact that we were all in the same situation helped us to manage and to overcome the difficulties. Another complex albergue is Hospital de Bruma, but for other reasons. The albergue itself is good, comfortable and well-equipped. The only problem is that it is more on the small side, stays at the end of a long journey from Betanzos and it crosses the Camino from La Coruña which means more pilgrims. Plus it stays literally in the middle of nowhere, far from any center. There is a small restaurant with extremely good quality food, a market in a van that passes at 6pm with some goods, 5 or 6 houses, a playground, a chapel that opens only once a month and the hostel. And fields. Fields everywhere you look and all around. But if I can tell you that, after Betanzos, it was the place where I most enjoyed staying and that where the locals receive the pilgrims with more affection, every day…
But the albergues issue did not stop here: in Sigueiro, the last stop before Santiago de Compostela, is a well equipped village but does not have a public albergue. Because of this, and just like last year, we ended up staying overnight at a private albergue. It is a luxury not to need a sleeping bag, to have someone responsible for washing clothes, to have better conditions in the showers and a breakfast included. But it was the day when we spent less time in the albergue: the camino spirit is lost, we are not close to our “camino family” and so we left our albergues and met all together out from the resting nest. It is not the same to stay at a private albergue as it is to stay at the public and is far from reproducing that experience. I easily exchanged those “luxuries” for another good night with my “camino family”, the last night one before Santiago de Compostela.

The Camino Inglés has people from “everywhere”. More than the Portuguese Camino, the Camino Inglés forces us to cross many boundaries. We were the only Portuguese in the group and we met people from all over the world. But the real frontiers were the ones we found inside people. Although the Portuguese Camino has more people and is therefore more difficult to connect more deeply, I must say that the Camino Inglés seems to have pilgrims with more “reasons”, in addition to a regular touristic motivation to walk, than the Portuguese Camino. There are many “life changes”, many “broken hearts”, many “relationships to life”, many “religious” reasons, many “adventures”, many “promises”, many “marriages” behind each one of the pilgrims the do the Camino Inglés. There are many stories to tell, many unique experiences that have made every pilgrim I met a special person and with whom I still have contact with. I think I realized that too late. Today I would have asked everyone I met what motivations they had to walk the Camino.
On the other hand, much more than in the Portuguese Camino, there are many pilgrims alone, or couples, groups of three maximum, but few, very few groups. The result is that the links over time are multiplied: it’s easy to pull a chair and add one more pilgrim to your table, it’s easy to share the little we have, it’s easy to tell a secret, confess a thought because there are few people listening. It is easy to keep walking with others, it is easy to wait for someone, it is easy to ask few questions and receive many answers. The Camino Inglés is harder but it’s easier to get further…

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A new Camino…

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O ano passado, por esta altura estava a preparar cuidadosamente o meu primeiro Caminho. A experiência foi tão importante que logo decidimos que gostaríamos de regressar este ano. Por isso, em breve estarei novamente de mochila às costas, e desta vez, porque as lesões são um aviso a ser ouvido, apenas a dois. Não posso deixar de dizer que este último aspecto nos fez ponderar… uma das coisas que o Caminho nos dá é alguma transformação ao nível das relações. Uma equipa é algo que deve ser muito reflectido, ponderado e discutido. Porque a relação entre os envolvidos nunca mais será a mesma. No fim do meu caderno sobre o Caminho Português, eu escrevi que os olhares entre peregrinos são particulares, como se guardássemos um grande e valioso segredo. Há uma compaixão, uma identificação que muda a nossa perspectiva do outro e nos aproxima.

Ora, quando um de nós, tem algum tipo de impedimento, há naturalmente uma nostalgia, um sentimento de perda, uma necessidade inconsciente de querer partilhar e não poder. Por isso, a ponderação é relevante. Apesar da lesão que não nos permitirá estar juntos desta vez, ficou claro que haveria vontade de todos de tentar concretizar o caminho com os restantes. Por isso, à parte as nostalgias, há a responsabilidade de ir e de levar na mochila um pouco mais do que nós mesmos.

A preparação este ano foi muito mais breve, o investimento financeiro foi mais reduzido e talvez porque a preparação também faz parte do caminho, agora, a poucos dias de partir, ainda estou a tentar apanhar o comboio para o estado de espírito com o qual desejo partir. Isto estava a criar alguma ansiedade: onde estava toda aquela concentração? Será que tinha ganho confiança demais após a primeira experiência no caminho? Algo perplexa com este sentimento: deixei de parte a escrita e vesti a indumentária de leitor, a vossa, e vagueei no blog à procura dos posts que escrevi sobre o caminho que percorri o ano passado, de forma a poder inspirar-me.

Confesso que inicialmente o que me apeteceu fazer foi reunir num post toda a minha primeira experiência. Foi tão intensa que recordar deixou-me, no mínimo esperançosa… por outro lado, voltar a pegar neste assunto parecia-me deslocado da possibilidade de uma nova experiência para a qual não tenho expectativas mas que pretendo viver com a abertura do caminho anterior. Assim, em vez de me focar na experiência anterior, venho apenas actualizar a minha perspectiva actual acerca do ponto de situação mental em que me encontro em relação a mais um caminho. E vou fazê-lo em relação aos aspectos que toquei aqui sobre o caminho do ano passado, sem contudo me deixar levar pela comparação ou pela criação de sobre-metas.

Assim, tal como no ano passado, não há propriamente uma história inspiradora que me leve a fazer a peregrinação. Se no ano passado a história foi simples… este ano ainda pior porque esta sensação de que ando atrasada fez-me duvidar de que estivesse tão pronta, decidida como no ano passado. Contudo, quando reflecti na experiência que tive, logo a minha mente despertou exactamente no local e momento em que decidimos que viríamos novamente este ano.

Não há também grandes expectativas, a não ser essa vontade de estar mais próxima de um Caminho natural e pouco frequentado. Porém, aprendi recentemente num podcast acerca do poder das expectativas, que muitas vezes as temos sem as assumir e que isso é o que lidera a concretização dos nossos sonhos: como diz Mark Twain, por vezes é o facto de não sabermos que as coisas são impossíveis que nos coloca à frente a real possibilidade de as concretizarmos. Por isso, embora não leve comigo nada em concreto, eu sei no meu íntimo que levo alguma ambição de pelo menos conseguir concretizar esta jornada tranquilamente.

Este ano, uma das coisas que quis que estivesse mais presente no blog era a proximidade com a natureza. Desde os meus habituais trilhos passando pelas páginas do meu Nature Journal e finalmente pela minha pequena coleção de produtos inspirados na natureza, acho que estou a conseguir concretizar a ambição que partilhei convosco em janeiro deste ano. Portanto, e visto que todos os caminhos são diferentes, resolvemos que gostaríamos de fazer uma variante do caminho mais marcada pela paisagem natural. E depois de ouvirmos alguns testemunhos de confiança, optamos por isso pelo Caminho Inglês a partir de Ferrol, na Corunha. Ao que parece, para além desta característica, é um Caminho menos percorrido pelo que a entrega interior e a paz são mais acentuadas.

No ano passado senti falta dos meus cartões de visita pelo que, este ano, vou levar alguns destes comigo!

A experiência de escrever foi tão gratificante que penso que quero repeti-la. Não sei ao certo o que irei escrever: ha quem opte por tratar alguns assuntos interiores. No ano passado eu preferi absorver o caminho e assentar aquilo que poderia passar despercebido diariamente. Para este efeito, certamente que levarei um nos meus Tide Pool Notebooks!

Ainda estive à procura de novos projectos handmade como este ou este. Contudo, acabei por perceber de que não precisava de mais nada na minha mochila para além destes projectos! O caminho é sobre o despojamento e vi-me obrigada a assumir que já tinha feito todos os projectos handmade que precisava para o caminho e até disso tive de me libertar. Penso que, a seguir a ter de deixar um companheiro, esta é a segunda coisa que mais me está a custar: perceber que tudo tem um limite sensato, até para as minhas idiossincrasias com as coisas feitas à mão.

Desta vez não levamos um guia como este porque não encontrei nenhum bom exemplar do Caminho Inglês. Preparei as etapas cuidadosamente com recurso a alguns testemunhos espalhados pela web e tudo o resto irei descobrir a caminhar!

Estou quase quase pronta para esta nova experiência!

By this time last year I was carefully preparing my first Camino. The experience was so important that we soon decided that we would like to return this year. So, soon I will be backpacking again, and this time, because the injuries are a warning to be heard, there will be only two of us. I can not help saying that this aspect made us consider… one of the things that the Camino gives us is some transformation in relationships. A team is something that should be carefully discussed. Because the relationship between those involved will never be the same. At the end of my notebook on the Portuguese Camino, I wrote that the looks among pilgrims became special, as if we kept a great and valuable secret among us. There is compassion, identification that changes our perspective the other pilgrims and brings us closer.

Now, when one of us has some sort of impediment, there is of course a nostalgia, a sense of loss, an unconscious need to share what we can’t share. Therefore, some wisdom is necessary. Despite the injury that will not allow us to be together this time, it is clear that it is everyone’s will to try to make the Camino work to the rest of us. So, aside from some nostalgia, there is the responsibility to go and carry in our backpack a little more than just ourselves.

The preparation this year was much brief, the financial investment was reduced and perhaps because preparation is also part of the Camino, now, just a few days before leaving, I am still trying to “catch this train” to the state of mind with which I wish leave. This was creating some anxiety: where was all that concentration I had last year? Had I gained too much confidence after the first experience along the Camino? Somehow perplexed by this feeling, I stopped writing and wandered a bit on the blog in search of the posts I wrote about the Camino last year, so that I could be inspired.

I confess that initially what I wanted to do was gather in one post all my first experience. It was so intense that remembering it left me at least hopeful… on the other hand, getting back on this subject seemed that I was trying to displace the possibility of a new experience that I intend to live again. So instead of focusing on my previous experience, I update my current perspective on the mental state about the things I wrote last year. Just that! No comparisons or over-goals.

So, just like last year, there is not really an inspiring story to lead me to make the pilgrimage again. Last year’s story was simple… this year is even worse because this feeling that I’m late has made me doubt that I was as ready to go. However, when I reflected on the experience I had, then my mind was awakened exactly at the time and place where we decided to come again this year. I was ready then, I am ready now!

There are also no great expectations, other than this desire to be closer to a nature. However, I recently learned in a podcast about the power of expectations, that we often have them without assuming them, and that is what leads the realization of our dreams: as Mark Twain says, it is sometimes the fact that we do not know that things are impossible that puts us before the real possibility of realizing them. So although I do not take anything concrete with me, I know in my heart that I have some ambition, some expectation, to at least be able to accomplish this journey quietly.

This year, one of the things I wanted to be more present on the blog was the proximity to nature. From my hiking trails, through the pages of my Nature Journal and finally to my small collection of nature-inspired products, I think I am accomplishing the ambition I shared with you in January of this year. Therefore, since all Caminos are different, we decide that we would like to make a variant of the Camino marked by the natural landscape. And after listening to some reliable testimonies, we opted for the English Way from Ferrol, in A Coruña. It seems that, beyond this characteristic, this variant is less popular among pilgrims and so it is more quiet and peaceful.

Last year I missed my business cards so this year I’m going to take some of these with me!

The experience of writing was so rewarding that I think I want to repeat it. I am not sure what I am going to write: there are those who choose to deal with some inner matters. Last year I preferred to absorb the Camino and write about the things unnoticed. For this purpose, certainly I will take one in my Tide Pool Notebooks!

I’ve still been looking for new handmade projects like this or this one. However, I finally realized that I did not need anything else in my backpack other than these projects! The way is about stripping and I was forced to assume that I had already done all the handmade projects I needed for the Camino and that I really had to free myself from this obsession. I think that, beside having to leave a partner, this is the second thing that is getting more challenging: to realize that everything has a sensible limit, even my idiosyncrasies for things done by hand.

This time we did not take a guide like this because I did not find any good example of the English Way. I have prepared the steps carefully using some testimonies spread over the web and everything else I will discover to walk!

I’m almost almost ready for this new experience!

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Tide Pool Scented Cushions on my on-line shop!

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Assim como fiz para os Tide Pool Notebooks, venho desta vez contar-vos a história e as características das almofadinhas de aroma na minha loja on-line: as Tide Pool Scented Cushions.

As almofadinhas de cheiro lembram-me a época de arrumações de verão em casa da minha mãe. E acontecia que das várias alternativas para dar aroma às gavetas e armários, estavam os sabonetes (há alguma tradição da produção de sabonetes no norte do país) e as saquetas de ervas secas, nomeadamente as de alfazema. Eu confesso que, naquela época, não era muito adepta de alfazema… não sei se foi uma fase, mas durante algum tempo desejei que houvessem outras alternativas, sobretudo de aroma mais fresco que me remetessem para os meses de verão!

Ora, se há erva que eu uso, vezes sem conta durante o verão é a hortelã pimenta. O chá frio de hortelã Pimenta é das melhores infusões para os meses quentes, e a erva fresca acompanha muito bem a limonada e dá um travo único à água aromatizada que eu levo para a praia. Naturalmente é a escolha óbvia para esta coleção.

Por isso, resolvi manter o tema das visitas à praia (quer seja verão ou inverno) e dar às minhas Tide Pool Scented Cushions a frescura da hortelã Pimenta que tanto me remete para a praia, para o mar e o seu ambiente revigorante, fresco, límpido e cristalino. As ervas usadas são biológicas e produzidas e secas localmente.

E para que todo o produto faça algum sentido, os restantes materiais utilizados remetem para as texturas e para a biodiversidade das poças de maré que dá o nome à coleção! Cada pack é constituído por três almofadinhas de linho português um tecido natural e muito fresco, que é o meu preferido para os meses quentes. As almofadinhas são ainda estampadas com padrões diferentes utilizando carimbos feitos à mão e tinta de tecido: um cavalo marinho, um peixe e um caranguejo!

Just as I did for the Tide Pool Notebooks, this time I’m going to tell you about the story and the characteristics of the Scented Cushions on my online shop: the Tide Pool Scented Cushions.

The scented cushions remind me of the summertime at my mother’s house, especially the tidying madness we used to perform at the end of summer, before getting back to school. And of the various alternatives for scenting the drawers and cabinets, there were the soaps (there is a tradition of soap production in the north of the country) and dried herbal sachets, especially those of lavender. I confess that, at that time, I was not a fan of lavender … I do not know if it was a phase, but for some time I wished there were other alternatives, especially with a fresher aroma, that would send me back to the summer months!

Now, if there is an herb that I use over and over again during the summer it is peppermint. The iced peppermint tea is the best infusion for the hot months, and the fresh herb goes so well with lemonade and gives a unique touch to the flavored water that I take to the beach. Of course it is the obvious choice for this collection!

So I decided to keep the theme of the visits to the beach (summer or winter) and give my Tide Pool Scented Cushions the freshness of the Peppermint that always brings me to the beach, the sea and its invigorating, fresh, clear and crystalline environment. The herbs used are biological and are produced and dried locally.

And for the product to make sense as a whole, the other materials used refer to the textures and biodiversity of the tide pools that give this collection its name! Each pack consists of three Portuguese linen cushions, a natural and very fresh fabric, which is my favorite for the warm months. These cushions are stamped with different patterns using handmade stamps and fabric paint: a seahorse, a fish and a crab!

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The Tide Pool Notebook Review

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O post de ontem já estava longo! Acho que o entusiasmo me levou e, para variar, eu deixei-me levar. Partilhar convosco as minhas motivações na escolha dos produtos da minha pequena loja online é uma espécie de prova de apreço por quem me segue e uma homenagem à minha obsessão pelo significado de todas as coisas que faço.
Hoje venho apresentar-vos outro ponto de vista: as características do meu Tide Pool Notebook. E não podia falar nisto sem, no entanto, vos falar desta espécie de coleção que estou a desenhar, baseada nas poças de maré, a “Tide Pool Collection”.

Eu sempre vivi perto do mar e, certamente que muitos dos que vivem ou viveram junto ao mar, guardam felizes memórias de infância a explorar as poças de maré quando a maré baixa nos deixava descobrir os tesouros que o mar alto trouxe, de novidade, à zona intertidal. Tal como muitos de vocês, eu lembro-me de explorar as poças à procura de caranguejos, estrelas do mar, algas de cores inesquecíveis e até dos famosos vidrinhos da praia. Há todo um quadro à volta desta recordação que me inspirou a desenhar esta colecção e, em especial, estes pequenos cadernos.
Desde a capa, salpicada com as cores que me recordam o borrifar das ondas que me traziam à face a frescura das gotículas de agua salgada cheia de vida!
A brancura do papel que representa o rebentar das ondas!
Os seres vivos carimbados que me recordam as vidas infinitas que encontrava nas poças de maré, e ainda o esqueleto de um cavalo marinho que a minha mãe guardava religiosamente.
E até as costuras cruzadas que unem todas as peças e que me lembram as redes dos camaroeiros que os mais aventureiros levavam consigo para apanhar polvos.

Este caderno é uma verdadeira concentração sensorial: de texturas, cores, cheiros, imagens e sensações das minhas próprias explorações das poças de maré quando era criança.

Quanto às características do caderno, este é um caderno feito com materiais ideais para quem escreve ou desenha! Perfeito para desenhos numa pausa ao lado do mar ou para as primeiras linhas de um romance!

O caderno tem tamanho A6 e contempla 120 páginas de 90g, perfeitas para escrever e desenhar com diversos tipos de materiais como lápis de grafite, de cor, esferográficas ou canetas de tinta permanente.
A capa é dupla e feita com papel de 200g pintado à mão com aguarela profissional. A capa é ainda estampada com carimbos desenhados e feitos por mim, à mão, e tinta de linogravura!
A lombada é cosida com costuras cruzadas, o mais seguro método de costura, e que permite que o caderno abra completamente na horizontal em qualquer página. Além disso, este tipo de costura tão resistente permite que fique à vista e se usufrua do desenho intrincado criado pelo entrelaçar do fio!
O fio utilizado é de polyester. Eu prefiro sempre fio de algodão, contudo, para o efeito, um fio resistente à quebra é a melhor opção quando se prevê que a pressão gerada pelo abrir e fechar do caderno seja intensa! E para um suporte suplementar das costuras, é aplicada uma camada de cola resistente à água que comprime os blocos uns aos outros e segura as costuras.
Por fim, e mais importante de tudo, foi feito à mão, com muito carinho!

Yesterday’s post was already long! I think the enthusiasm took me away and, for a change, I let myself go. Sharing with you my motivations about my choices regarding the products on my small online shop is like an appreciation for those who follow me and a tribute to my obsession with the meaning of the things I do by hand.
Today I am writing about another point of view: the characteristics of the Tide Pool Notebook. And I could not talk about it without, however, telling you about this “collection” I’m designing, based on the tide pool exploration, the Tide Pool Collection.

I have always lived near the sea and certainly many of you who live or lived by the sea keep many happy memories of your childhood while exploring the tide pools when the low tide let us discover the treasures that the high tide brought to the intertidal zone. Like many of you, I remember exploring the tide pools looking for crabs, starfish, seaweed of unforgettable colors and even the famous rounded pieces of green glass. There is a whole picture regarding this memory that inspired me to design this collection and, especially, these little notebooks.
The cover, sprinkled with the colors that remind me of the spray drops from the waves that hit my face!
The whiteness of the paper that represents the bursting of the waves!
The stamped living beings that remind me of the endless live I found in the tide pools, and still the skeleton of a seahorse that my mother kept religiously.
And even the sewn binding that unites all the pieces and reminds me of the fish nets that the more adventurous people took with them to catch an octopus!

This notebook is a true sensorial concentration: of textures, colors, smells, images and sensations of my own explorations of the tide pools as a child.

As for the characteristics of the notebook, this is a notebook made with materials that are ideal for those who write or draw! Perfect for drawings on a seaside break or the first few lines of a novel!

The notebook is A6 sized and includes 120 pages of 90gsm, perfect for writing and drawing with various types of materials such as graphite, colored pencils, ballpoint pens or fountain pens.
The cover is double and made with 200g paper hand painted with professional watercolors. The cover is also stamped with handmade stamps drawn and linography paint!
The spine is hand stitched using the sewn binding method, the most secure book binding method, that allows the notebook to always lay flat while opened. In addition, this type of stitching is so resistant that you don’t need a hardcover to cover it so you can enjoy the intricate design created by the interlacing of the thread!
The thread used is polyester. I always prefer cotton thread but, for this purpose, a break resistant thread is the best option if you think of the pressure generated by the intense opening and closing of the notebook! And for additional support of the binding, a layer of water-resistant glue is applied to compress the blocks to each other and to hold the binding tight.
Lastly, and most important of all, it was done by hand, with lots of love and care!

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