Postcrossing: handwritten postcards around the world!


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Uma das coisas que recordo com muito carinho é o tempo em que escrevíamos, todos em geral, à mão. Não estou a falar dos trabalhos da escola mas antes das cartas que escrevia às minhas amigas, às minhas pen-friends, dos postais que enviava nas férias, no Natal, etc. Uma letra limpa e rigorosa era um desafio constante mas também nos dava alegrias e nos motivava a melhorar, a escrever continuamente, a não desistir e a ter alguma fluência de pensamento que, hoje em dia, é facilmente camuflada num texto escrito no computador: ninguém fica a saber os erros que demos, as vezes que nos enganamos nem o “corte e cose” que fizemos para melhorar o nosso texto… ou esconder o que nos vai realmente na alma.
Hoje, na época em que o escrever foi praticamente substituído pelo “clicar”, há até quem considere escrever à mão uma autêntica terapia que nos devolve alguma sensação de autonomia e controlo.
Já tenho vindo a partilhar algumas das minhas experiências de escrever à mão aqui ou aqui, mas a verdade é que, há vários meses que me inscrevi numa rede de troca de postais que tem acalmado um pouco mais estas saudades e que me tem deixado um pouco mais feliz!

O Postcrossing é um projecto mundial originalmente lançado por Portugueses! A ideia do projecto é trocar postais com moradas que nos são atribuídas. Não implica necessariamente manter uma conversa, a não ser que queiramos, posteriormente, fazê-lo. Apenas enviar postais e partilhar um pouco da nossa cultura, dos nossos dias e até dos nossos sonhos! Inicialmente esta vertente “sem compromisso” não me estava a cativar. Não ter nada de especial para dizer, poder enviar um postal apenas com “Olá! Espero que gostes deste postal!” era um pouco estranho mas acho que temos de aceitar que nem todos temos as mesmas ambições em relação ao projecto. Uns pretendem apenas trocar postais porque são coleccionadores! Outros, como eu, vibram com o entusiasmo de receber algo na caixa do correio com um pouco daquilo que nem sempre nos sentimos confortáveis a partilhar com estranhos. Não quero dizer que partilhe coisas da minha vida pessoal que não deva, nada disso. Mas como a maior parte dos utilizadores do projecto têm um perfil com uma pequena biografia e ambições em relação ao projecto, é muitas vezes possível encontrar coincidências connosco ou questões que o destinatário gostava de ver respondidas! Desta forma, acabamos por partilhar um pouco mais de nós do que aquilo que estávamos à espera sem, contuso, comprometer a nossa privacidade. Além disso, tenho apreciado muito a caligrafia e as descrições dos meus correspondentes têm-me feito imaginar um pouco como será viver no seu país!

Nestes meses já recebi postais dos Estados Unidos da America, da Rússia, da Bielorússia, da Itália, do Brasil e da Alemanha. E já enviei para Os Estados Unidos da América, Taiwan, Rússia, Finlândia e Alemanha! É sempre com muito entusiasmo que verifico a minha caixa de correio e posso dizer que todos os postais que recebi têm qualquer coisa de especial pelo que os guardei religiosamente no local onde moram todas as coisas boas.

Quantos mais enviar, maior probabilidade tenho de receber. Mas para não me perder (para enviar um postal gasto aproximadamente 1 euro: cerca de 50 cêntimos no postal e outros 50 no selo) decidi estabelecer que enviaria um mínimo de um e um máximo de três postais por mês!

One of the things I remember very fondly is the time when we all wrote by hand. I’m not talking about school work! I am talking about the letters I wrote to my friends, my pen-friends, the postcards I sent on vacations, Christmas, etc. A clean handwriting letter was a constant challenge but it also gave us joy and motivated us to improve, to write continuously, not to give up and to have some fluency of thought that, nowadays is easily camouflaged in a text written in the computer: nobody will know the mistakes we made, the times we fooled ourselves or the “cut and paste” we did to improve our text… or how we managed to hide what really goes in our souls.
Nowadays writing has been almost completely replaced by the “click”, handwriting is already considered a therapy that gives us some sense of autonomy and control.
I have already been sharing some of my experiences of writing by hand here or here but, several months ago, I have signed up for a postcard exchange network that has calmed down a bit my memories of handwriting and made me a little happier!

Postcrossing is a worldwide project originally launched by two Portugueses! The idea is to exchange postcards with addresses that are assigned to us. It does not necessarily imply holding a conversation, unless we want to do it. Just send postcards and share some of our culture, our days and even our dreams! Initially, this “no commitment” aspect was not captivating me. Not having anything special to say, being able to send a postcard just with “Hello! I hope you like this postcard!“ was a bit strange but I think we have to accept that not everyone has the same ambitions regarding the project. Some just want to trade postcards because they are collectors! Others, like me, vibrate with the enthusiasm of receiving something in the mailbox with a little of what we do not always feel comfortable sharing with strangers. I do not mean that I share things in my personal life that I should not. But since most users of the project have a profile with a small biography and ambitions regarding the project, it is often possible to find coincidences or even questions that the recipient would like to see answered by us! In this way, we ended up sharing a little more of ourselves than what we were expecting without compromising our privacy. Besides, I have been very fond of the calligraphy and the descriptions that my correspondents make to me! This always makes me wonder what it will be like to live in the country and the life they live!

During the past few these months I have already received postcards from the United States of America, Russia, Belarus, Italy, Brazil and Germany. And I already sent to the United States of America, Taiwan, Russia, Finland and Germany! I always check my mailbox with great enthusiasm and I can say that all the postcards I received have something special so I kept them religiously in the place where all good things live.

The more I send, the more likely I am able to receive. But in order not to get lost on this project (to send a postcard I spend about 1 euro: about 50 cents on the postcard and another 50 cents on the stamp), I decided to establish that I would send a minimum of one and a maximum of three postcards per month!

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Winter experiences: Arenaria!

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O Inverno é uma estação desconcertante para muita gente! E a natureza parece morta, cinzenta, sem interesse. Apetece passar os dias enfiada no sofá, literalmente a hibernar, à espera que o inverno passe e que venha a incontornável explosão primaveril. Mas é quando saímos da nossa zona de conforto, quando nos predispomos a ver as coisas boas que esta estação tem para oferecer, que nos surpreendemos…

Quando pensamos que a natureza nos abandonou no Outono, ao cair das folhas, é no Inverno que há coisas novas para ver, projectos para colocar em prática e preparar “a nossa casa” para um novo ciclo! Ao contrário do que podemos pensar, é precisamente durante o inverno que alguns seres vivos se atrevem um pouco mais junto dos humanos, procurando fontes de alimento e provocando encontros próprios de Inverno. É também tempo de observar as aves migratórias que chegaram no outono dos países frios, e nos fazem companhia apenas durante uns meses, regressando ao norte assim que tempo volta a aquecer. E se há seres vivos a hibernar, há também aqueles que espreitam cá para fora quando as temperaturas descem e há mais humidade, como os anfíbios, tornando qualquer zona húmida uma autêntica sala de concerto! As dunas e areais das praias ficam lisos, sem ninguém, e deixam descobrir pegadas e sinais de quem lá vive. E é esta a melhor de todas as épocas para visitar estuários e as lagoas espalhadas pelo nosso país! Se queremos sentir a natureza de uma forma intensa, com maior impacto no nosso interior em vez de nos deixarmos simplesmente absorver pela enorme exuberância dos meses de calor, o Inverno é certamente a estação que mais nos desafia. Até as cores neutras do Inverno são interessantes: as saturações e os contrastes são atenuados, tudo parece coberto de um manto de tule que indefine os traços e de uma neblina que deixa tudo calmo, enevoado, como se estivéssemos a sonhar acordados.

É precisamente durante o Inverno que ocorre a maior parte do projectos de censos de aves. E sendo que estes são, em grande parte, projectos de ciência cidadã (ou seja, projectos científicos que contam com a colaboração do público sensibilizando-o também para as temáticas abordadas) são uma excelente oportunidade para sair cá para fora e sair surpreendido!

Este ano, participei pela primeira vez no projecto ARENARIA. O projecto tem como objectivo obter uma estimativa da distribuição e abundância das aves costeiras invernantes, através da cobertura da costa marítima. Eu sou bióloga, é certo que estou sensibilizada para o assunto e fazer uma contagem, não é para mim assustador! Contudo, a maior parte das vezes, estes projectos não exigem mais do que algum treino, um guia de aves, uma leitura cuidada da metodologia e preparar a nossa contagem. E, para qualquer dificuldade, à vontade para pedir conselhos aos organizadores regionais que estão sempre prontos a colaborar.

Fiquei responsável por cobrir uma quadrícula de 10km ao longo da costa e fazer a contagem das aves na zona entre marés. Isto implicou andar pelo menos 10km pelo areal onde normalmente vagueio frequentemente durante o verão. Foi muito interessante percorrê-lo durante o Inverno, tomar consciência da sua dimensão, tê-lo praticamente só para mim e descobrir quem se aproxima quando a confusão foge…
Podem ficar a pensar que este projecto não resulta em mais do que contar gaivotas. Mas estão enganados. Para além das habituais gaivotas, consegui observar Pilritos, Maçaricos, Rolas-do-mar, Corvos-marinhos, Guinchos e um bando de cerca de 250 Patos-pretos!

E como a minha quadrícula terminava junto a uma zona húmida, no regresso resolvi visitá-la e tive o prazer de me cruzar com Patos-reais, Garças-reais, Girada-Rios, Cartaxos e mais uns quantos Corvos-Marinhos!
Esta é uma experiência de Inverno que aconselho vivamente e que quero muito voltar a repetir!

 

Winter is a challenging season for a lot of us! Nature looks dead, gray, uninteresting. You want to spend your days tucked on the couch, literally hibernating, waiting for the winter to pass and expecting the unforgettable spring explosion! But it is when we leave our comfort zone, when we are predisposed to see beyond it that we are surprised by winter…

When we think that nature has abandoned us in the fall, winter offers so much new things to see, projects to put into practice and prepare “our house” for a new life cycle! Contrary to what we may think, it is precisely during the winter that some living beings dare a little bit closer to humans, seeking sources of food and provoking unexpected encounters with us. It is also time to observe the migratory birds that arrived in the autumn from the northern countries, and are our company only for a few months, returning to the north as soon as the weather gets warmer. And if there are several animals hibernating, there are also those who come out when temperatures drop and there is more water available, like amphibians, making any wetland a real concert hall! The dunes and the sand on the beaches is so flat without anyone, and let us discover who lives there by following their footprints and signs. And this is the best of all times to visit estuaries and lagoons throughout our country! If we want to feel nature in an intense way, with the greatest impact on our interior instead of just absorb the enormous exuberance of the hot months, winter is certainly the season that most challenges us. Even the neutral colors of winter are interesting: the saturations and contrasts are attenuated, everything seems covered with a mantle of tulle that blurs the landscape and a haze that leaves everything calm, misty, as if we were daydreaming.

It is precisely during the winter that most of the bird census projects take place. And since these are, for the most part, citizen science projects (that is, scientific projects that count on the collaboration of the public), they are an excellent opportunity to get out and be surprised!

This year, I participated for the first time in the project ARENARIA. The project aims to estimate the distribution and abundance of wintering coastal birds by covering the coastline on our country. I am a biologist, naturally I am aware of the importance of the subject and make a bird count, it is not scary for me. However, believe, most of the times, these projects do not require more than a small training, a bird guide, a careful reading of the methodology and a preparation of your field trip. And for any doubt, feel free to ask for advice to the regional organizers who are always ready to collaborate!

I was responsible for covering a 10km grid along the coast and counting the birds in the tidal zone. This made me walk at least 10km along the beach, on the sand, where I usually wander often during the summer. It was very interesting to go through it during the winter, to be aware of its dimension, to have it almost only for me and to discover who is approaching when the confusion of the summer runs away…
You may be thinking that this project does not result in more than counting gulls. You couldn’t be more wrong. In addition to the usual seagulls, I was able to count sanderlings, common sandpipers, ruddy turnstones, great cormorants, black-headed gulls and a flock of about 250 common scoters!

And as my grid finished near a wetland, on the return I decided to visit it and had the pleasure of crossing with mallards, herons, kingfishers, european stonechats and a few more cormorants!
This is a winter experience that I strongly advise you to try and that I really want to repeat!

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I am making a quilt… for me!

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É verdade! Depois do quilt que fiz para o Carlos este Natal, fiquei com uma grande vontade de fazer um para mim usando tecidos pré-cortados que fui coleccionando ao longo do tempo com o objectivo de fazer um half-square triangle quilt.
Ao longo do tempo fui coleccionando alguns fat quarters que combinassem entre si. O tecido de referência foi o das raposas! Tenho uma paixão inexplicável por raposas, há tecidos lindíssimos com raposas e um dia hei-de fazer este ou este quilt!
Mas por outro lado, eu sempre quis fazer um half-square triangle quilt de fundo branco para mim!

Por isso, juntei mais alguns padrões que fui encontrando e agora estou pronta para avançar para o meu quilt. Não vou usar um modelo concreto. Mais uma vez vou fazer adaptações daqui e dali, calcular as geometria dos cortes e avançar! Já o fiz anteriormente no quilt de quadrados e sinto que consigo introduzir mais alguma complexidade ao meu próximo quilt com pequenos blocos de half-square triangles.

Os tecidos foram adquiridos em locais muito diferentes e é incrível como eu não esqueci a sua origem e, por essa razão haverá mais histórias para contar sobre este quilt no momento em que ficar pronto!

O tecido das raposas comprei em Lisboa na At Home Hobby.

O das cruzes comprei na City Quilter em Nova Iorque (prometo fazer um Creative Tour post sobre esta viagem).

Estes quatro foram comprados Na Ponta d’Agulha, a minha loja de tecidos de eleição e onde a Isabel está sempre pronta para partilhar comigo a sua sabedoria!

E estes três foram comprados numa loja de crafts em Linkoping na Suécia (vou escrever um Creative Tour post sobre isto também).

Estes nove tecidos vão ser combinados com um tecido branco e só depois de fazer os 120 blocos é que vou decidir como os distribuir, embora não queira ser demasiado exigente nesta questão!

Têm conselhos, propostas de modelos para mim?
E alguém sabe que tecido é aquele das raposas? Por mim usava-o no backing mas não estou a conseguir encontrá-lo em lado nenhum e não há referência de marca ou designer nas ourelas…

 

It’s true! Since I made the quilt for Carlos this Christmas that I have this big desire to make one for myself using pre-cut fabrics that I have been collecting over time with the aim of making a Half-square triangle quilt.
Over time I have been collecting some fat quarters that might combine with each others. The reference fabric was the one with the foxes! I have an inexplicable passion for foxes! Inexplicable is the word because I really don’t know why I love them so much! Foxes are, for sure, my favourite animal. Well, there are beautiful fabrics with foxes and someday I’ll do this or this quilt!
But on the other hand, I always wanted to make a Half-square triangle quilt a white background for me!

So I’ve put together some more fabrics I found and now I’m ready to move on to my quilt. I will not use a pattern again. Once again I will make adaptations from here and there, calculate the geometry of the cuts and move forward! I have done this previously in the Game in the Woods quilt and I feel that I can introduce some more complexity to my next quilt with this small blocks of Half-square triangles.

The fabrics were purchased in very different places and it is amazing how I did not forget their origins! For that reason there will be more stories to tell about this quilt in the end!

The fabric of foxes I bought in Lisbon at At Home Hobby.

The one with the crosses I bought in the City Quilter in New York (I promise to do a Creative Tour post on this trip).

These four were bought in Na Ponta d’Agulha, the fabric store of my choice and where Isabel is always ready to share her wisdom with me!

And these three were bought at a crafts shop in Linkoping, Sweden (I will write a Creative Tour about it too!)

These nine fabrics will be combined with a white fabric and only after doing the 120 blocks will I decide how to distribute them, although I do not want to be too picky about this issue!

Do you have advice, pattern proposals for me?
And does anyone know what fabric is that of the foxes? I really loved the idea of using it in the backing but I can not find it anywhere and my cut has no brand reference or designer in the selvages…

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Thank you silence: writing on the Camino de Santiago.

Foto by Carmindo Carvalho

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“O Caminho é sobre o tempo. A maior dificuldade que estava a sentir era ter pressa da próxima coisa: da próxima curva, da próxima seta, do próximo quilómetro, do próximo albergue. O caminho “obriga-te” a parar (…) e fazer o essencial: acordar, caminhar, comer e dormir.”

Esta foi a minha primeira entrada num pequeno caderno no qual escrevi durante o Caminho.

O meu primeiro Caminho foi uma experiência muito marcante. Eu não estava a contar, nem tão pouco estava convencida de que iria sentir alguma coisa especial. Nos primeiros dois dias não via nada a acontecer, parecia que andava à deriva, à procura de alguma coisa que simplesmente não aparecia. Entreguei-me às poucas tarefas que tinha em mãos e deixei-me levar.
O interessante de uma peregrinação de vários dias como é o Caminho de Santiago é que tem várias fases. Em primeiro lugar o caminho obriga-nos a abrandar. E até nos entregarmos de coração a ele, nada mais vai acontecer. Apenas ao terceiro dia é que comecei a sentir alguma transformação que se prolongou até ao fim de toda a jornada.

Eu fiquei com estes grandes capítulos carimbados na minha memória e, para além de alguns episódios muito particulares, dignos de realce, há muito que é filtrado pelo cérebro e fica esquecido… Por isso posso dizer que a coisa mais importante, a mais especial, que fiz durante todo o caminho foi escrever, ao fim do dia, um pouco sobre cada uma das etapas. Eu não quis escrever sobre o que me trazia ali nem desabafar, novamente, as minhas desventuras (todos temos algumas). Disso já tinha escrito que chegue aqui e ali, e as desventuras era o que eu queria deixar para trás, eventualmente escrever e desfazer-me disso. Para mim, o mais importante era criar coisas novas, viver o momento e ser positiva. Mas eu não levei quaisquer expectativas, por isso, mais do que tudo eu queria chegar ao fim do dia e aperceber-me, tomar consciência do que havia recebido diariamente e escrevê-lo. Hoje, este pequeno caderno (também ele feito à mão por alguém) é das coisas mais preciosas na minha estante e de cada vez que leio uma das suas páginas vejo-me mergulhada em sentimentos, em autênticos revivalismos que me levam, por momentos, de volta para esta experiência tão especial. E a prova de que a relatividade existe é que eu acho que, se fechar os olhos, posso mesmo voltar lá… ouvir os mesmos sons, ver o mesmo verde, sentir a mesma adrenalina e amar da mesma forma os meus companheiros de viagem. Está tão integro, não precisei de riscar nada, fazer emendas. Não mudaria uma única palavra, nem as frases de lugar. Admiro-me como saiu tudo tão natural, como se a minha cabeça tivesse organizado aquele texto há muito tempo e apenas estivesse à espera do momento de o escrever. Dá até vontade de o transcrever, na íntegra, aqui!

Há um episódio que não precisaria de escrever mas que, se não tivesse escrito, não teria sequer acontecido e que está intimamente relacionado com esta necessidade humana de assentar ideias, recolher e viver a introspecção. Ao fim da terceira etapa, em Pontevedra, depois de chegarmos, de nos instalarmos no albergue, descansarmos e passearmos um pouco pelo centro, regressamos com mantimentos e alguma vontade de usufruir dos espaços comuns no albergue. Estávamos cansados e a relação com os outros peregrinos já era muito familiar. Estar no albergue, fosse qual fosse, era estar em casa. Como não havia tomadas nas camaratas, deixamos os telefones e baterias a carregar na sala comum que tinha 3 grandes mesas corridas. Para que os meus companheiros pudessem descansar um pouco mais, disponibilizei-me para ficar na sala, com a ideia de aproveitar aquele momento (ainda com pouca gente) para escrever e ir tomando conta dos nossos pertences. Não estive mais do que 10 minutos sozinha, momento que aproveitei para rever mentalmente o dia, pegar no guia e analisar a etapa seguinte. Eles acabaram por se juntar a mim (há alguma coisa que nos liga…) e momentos depois a Cacá e o Vitor também. Escusado será dizer que não comecei a escrever… ficamos ali a conversar sobre cada um de nós, sobre temas leves mas também de alguns bastante profundos e, sem que nos apercebêssemos, muito ligados à essência da peregrinação.

A Cacá era a primeira a ir dormir, ainda o sol raiava. E antes de jantarmos eu alertei! “Bom, aproveito o recolher da Cacá e vou para ali escrever, que era o que tinha em mente quando aqui cheguei antes de vocês me desviarem com as vossas conversas tão boas e tão interessantes!” E desloquei-me para uma das outras mesas corridas que, depois de ter recebido muitos peregrinos a fazer as refeições, ficara completamente vazia.
Sentei-me sozinha, abri o meu caderno e comecei a debitar, a escrever intensamente. Durante uns 20 minutos eu não levantei sequer a cabeça, estava completamente imersa nos meus pensamentos, nas memórias, ainda frescas, do dia, no rolar da minha caneta BIC naquele papel macio. Aquele tempo transportava-me dali e levava o meu espírito.
A certa altura o pensamento, que parecia estar ansioso para ser escrito, aliviava-se um pouco e eu pousei a caneta por um momento, levantei a cabeça e olhei em frente… Os segundos que se seguiram foram de plena surpresa. Sentados à minha volta, naquela que havia sido uma mesa vazia no momento em que me sentei, estavam outros peregrinos que escolheram a minha silenciosa, e de certa forma distante, companhia para… escrever! As lágrimas vieram-me aos olhos e a partir daquele momento, nunca mais me senti, nem tão pouco fiz para estar sozinha. Olhei o meu caderno e a única caneta que tinha trazido comigo, agradeci a sorte de ter aprendido a escrever e pensei o que teria perdido se tivesse trocado aqueles dois objectos por mais uns minutos de Wi-fi. Fiquei ali mais algum tempo, a escrever mas sobretudo a espreitar pelo canto do olho os movimentos daquela pequena comunidade que, de certa forma, eu havia iniciado naquela mesa. Uns desenhavam de memória, de fotografia ou abstratamente, acompanhavam isso com palavras, trocavam canetas e havia até quem tivesse trazido e emprestasse com entusiasmo um pequeno, mas na aquele contexto extraordinário, conjunto de lapis de cor! Nós somos um bicho social e para isso não temos de ser extravagantes, apenas fieis às nossas convicções. Não há um único caminho e não há que ter vergonha de escolher o nosso nem temos de ficar embaraçados por “sermos diferentes”. Quase certamente que em nenhum deles estaremos sozinhos. Haverá mais corajosos que, mesmo sem não nos conhecerem completamente, partilharão vontades e quererão “escrever” esse Caminho ao nosso lado.

“E o nosso andar modifica-se, ainda estamos leves, sentimos uma certa nostalgia, uma vontade enorme de voltar, como se carregássemos carinhosamente e felizes o maior segredo do mundo.”

Foto by Carmindo Carvalho

“The Camino is about time, the biggest difficulty I was feeling was being to anxious for the next thing: the next turn, the next arrow, the next kilometer, the next albergue. The Camino “compels you” to stop and do the essential: wake up, walk, eat and sleep.”

This was my first entry on a small notebook I wrote in during the Camino.

My first Camino was a very remarkable experience. I was not counting on it, I was not convinced that I would feel anything special to be honest. For the first two days nothing happened, I seemed to be drifting, looking for something that simply did not show up. It’s ok. I was not worried. I focused on the few tasks I had in hand and let myself go with the flow.
The interesting thing about a pilgrimage of several days as it is the Camino de Santiago is that it has several phases. In the first phase the Camino forces us to slow down. And until we give ourselves to it interelly, nothing more will happen. It was only on the third day that I began to feel some transformation that lasted until the end of the whole journey.

These big, phases or chapters, are stamped in my memory but, with exception of some particular episodes, worthy to remember forever, much of it is filtered by our brains and is forgotten… How sad! So I can say that the most important thing, the most special, which I did all along the Camino, was to write, at the end of each day, a little about each journey. I did not want to write about what brought me here or about my misfortunes (we all have some). I had already written about my motivations here and there, and about my the misfortunes… well, that was what I wanted to leave behind! Eventually write about them and get rid of it. For me, the most important thing was to create new things, live the moment and be positive. But I didn’t have any expectations, so most of all I wanted to get to the end of the day, become aware of what I received daily and write it down. Today, this small notebook (also handmade by someone) is one of the most precious things on my bookshelf and every time I read one of its pages I find myself immersed in the same feelings, authentic flashbacks that take me back to this very special experience. And the proof that relativity exists is that I think that if I close my eyes, I can even go back there… to hear the same sounds, to see the same green, to feel the same adrenaline and to love my fellow travelers in the same way. It’s so complete, I did not have to scratch anything, make amends. It would not change a single word, nor the place of the sentences. I wonder how it all came out so naturally, as if my head had arranged that text a long time ago and was just waiting for the moment to write it on paper. It even gives me the desire to transcribe it, entirety, for you to read it here!

There is an episode that I would not need to write to remember but if I had not written it, it would not have even happened. And it is intimately related to this human need to settle ideas and live the introspection.
At the end of our third stage, in Pontevedra, after arriving, settling in the albergue, resting and walking around a bit, we return with some food supplies and some willingness to enjoy the common spaces in the albergue. We were tired and the relationship with the other pilgrims was already very familiar. Being at the albergue, wherever it was, was being home. As there were no outlets in the sleeping rooms, we left our phones and batteries charging in the common room which had 3 large tables. So that my fellows could rest a little more, I made myself available to stay in the common room. I was expecting to take advantage of that moment (still with few people in the room) to write and to take care of our belongings while charging. I was alone for just 10 minutes, which I took to mentally review the day, take my guide and analyze the next journey. They ended up joining me (there is something that connects us …) and moments later Cacá and Vitor joined us as well. Needless to say, I did not begin to write… we stayed there to talk about each one of us, about common themes but also on some very deep ones and closely linked to the essence of the pilgrimage.

Cacá was the first to go to sleep, the sun was still shining. And before supper, I warned! “Well, I’ll take the moment and I’ll go there and write, which was what I had in mind when I arrived here before you took me away with your good and interesting conversations!” And I moved to one of the other tables that, after having received many pilgrims eating, was completely empty again.
I sat alone, opened my notebook, and began to write, to write intensely. For about 20 minutes I did not even lift my head, I was completely immersed in my thoughts, in my fresh memories of the day, in the rolling of my pen on that soft paper. That time carried me away from myself, it carried my spirit.
At one point the thoughts, which seemed to be anxious to be written, relieved a little, and I put down my pen for a moment, lifted my head and looked forward… The seconds that followed were are complete surprise. Seated around me, in what had been an empty table the moment I sat down, were other pilgrims who chose my silent, and in a way distant, company to… write! The tears came to my eyes and from that moment, I never felt, nor did I forced to be alone. I looked at my notebook and to the only pen I had brought with me, thanked for having learned how to write, and wondered about what I would have missed if I had exchanged those two objects for a few more minutes of Wi-fi. I stayed there for a while, writing, but also discreetly observing the movements of that small community that I had begun at that table. Some drew from memory, from photograph or abstractly, accompanied their drawings with words, exchanged pens and there was even this pilgrim who had brought a small, but extraordinary, set of colored pencils! We humans are a social animal, and for this we do not have to be extravagant, just loyal to our convictions. There is not one way and there is no shame in choosing ours nor do we have to be embarrassed by “being different”. Almost certainly we will not be alone in any of them. There will be more courageous fellows that, even without knowing us completely, will share wills and will want to “write” our Camino on our side.

“And our pace is different, we are still light, we feel a certain nostalgia, an enormous desire to return, as if we carry with affection and happiness the greatest secret in the world.”

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