The vulnerability of my Nature Journal

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Devem estar a perguntar-se onde é que eu parei para partilhar convosco o resultado final do meu Nature Journal?
Ora bem, eu parei de o partilhar em Outubro mas não desisti dele: as 52 semanas de Nature Journal foram feitas até ao fim. Mas, a certa altura, este tornou-se um assunto um pouco “emocional” para mim, um projeto que eu quis proteger debaixo da minha asa. E com isso acabei por não partilhar o maravilhoso resultado convosco. Não merecem! 99% de vocês não merecem que eu desista de partilhar. Pelo contrário, merecem antes que eu partilhe tudo até ao fim porque vocês fazem parte da minha motivação para continuar: post após post… palavra após palavra.

 

Porém, a certa altura houve um receio em partilhar. Nem todos usam os conteúdos que expomos cá fora da mesma forma. Os desafios de escrever um blog são imensos sobretudo quando partilhamos algo que amamos fazer do fundo do coração. Eu tenho tendência para ver os outros como iguais, que é uma forma muito pouco realista de ver a vida. Há pessoas que nos incentivam e nos desejam o melhor, assim como há quem não seja capaz de respeitar essas forças: os copycats e os trolls são uma constante na internet e já existe um número infindável de conteúdos (mais ou menos intensos) acerca deste assunto. Escrever acerca deste assunto poderia tornar-se um post deprimente sobre um assunto real e motivado por um projecto belíssimo! Eu decidi escrever sobre o assunto porque o que me inibiu não se tratou nem de um copycat (pelo menos não na sua versão virtual) ou de um troll (pelo menos não na sua versão virtual…). Foi muito mais próximo do que isso… E é muito mais difícil quando se trata de alguém que conhecemos e que tenta a todo o custo, a qualquer custo, substituir-nos na vida das nossas pessoas, nas que ocupam o nosso coração, naquilo que fazemos e generosamente partilhamos. A mensagem a reter era “obrigada por partilhares, agora que eu já sei como fazer, nós já não precisamos de ti”. Foi como morder a maçã no jardim do Éden. Eu percebi que estava despida por ter dado tanto de mim e me estarem a decepar as pequenas flores que eu semeara no meu jardim, quando elas podiam estar aqui, para todos as apreciarem. Nunca mais comprei flores. Esta experiência deixou-me perplexa perante tantos de vocês que, muitos sem sequer me conhecer, me dão um apoio positivo tão significativo. Fiquei a conhecer um pouco do mal.

 

Por vezes, alguma distância é absolutamente indispensável e o que eu senti a certa altura era que precisava que, entre todos os projectos do blog, pelo menos um que fosse meu. Só meu, que eu pudesse ter no meu seio, que me cobrisse, que me vestisse de mim. E perante a realidade de eu estar a partilhar tudo, a ideia de “proteger” aquele projeto que me era mais querido foi a solução menos má. Por isso eu decidi guardar para mim o meu Nature Journal.

 

Muito tempo mais tarde, a clareza evidenciou-se no meu caminho, a distância fez-se valer, e eu já envergava um vestido fresco com padrão de flores. Sei que fui a única a aprender com a situação, porque a distância é uma ferramenta que não serve quando ser egoísta é uma marca de caracter, mas foi o suficiente para eu perceber que a este 1% de seguidores eu tenho de dar o valor que foi dado à minha generosidade. Nenhum. Por esse motivo resolvi que queria mostrar-vos o meu Nature Journal completo e terminado. Este foi um projeto com muito poder sobre mim: resiliência, diligência, sensibilidade e aprendizagem. Que enalteceu o meu respeito pela natureza, pela vida sob qualquer forma, a minha vital capacidade de contemplar e aprender, de criar, com as minhas próprias mãos o que mais ninguém conseguirá fazer por mim. Porque eu sou única no mundo. Obrigada aos que me seguem por bons motivos: aos que me embalam na mesma canção. Para os restantes não tenho nada para oferecer.

 

Abaixo podem encontrar o meu Nature Journal de 2018, com uma página por semana revelando o melhor dos meus dias, apesar de tudo o que passou.

 

You must be wondering when did I stop to share with you my 2018 Nature Journal?
Well, I stopped sharing it in October but did not give up on it: all the 52 weeks of the Nature Journal were done until the end. But at one point, this somehow became an “emotional” subject for me, a project that I wanted to protect under my warm wing. And with that I did not share the wonderful result with you. Well, you do not deserve this! 99% of you do not deserve that I just o give up on sharing. On the contrary, you deserve that I share everything until the end because you are part of my motivation: to continue writing and making, post after post … word after word.

 

But at one point there I was afraid of sharing. Not everyone uses the content I expose here in the same way. The challenges of writing a blog are immense especially when we share something we love to do from the bottom of our hearts. I tend to see others as equals, which is a very unrealistic way of seeing life. There are people who encourage us and wish us the best, just as there are those who can not respect these forces: copycats and trolls are a constant on the internet and there are already an endless number of (more or less intense) content about this subject . Writing about this subject could become a depressing post on a real subject and motivated by a gorgeous project! I decided to write about it because what inhibited me was not a copycat (at least not in its virtual version) or a troll (at least not in its virtual version…). It was much closer than that… And it is much more difficult when it comes from someone we know and who tries by all chances, any chances, to replace us in the lives of our people, those who live in our heart, in what we do and generously share. The message to hold was “Thank you for sharing, now that I already know how to do it, we do not need you any more.” This attitude was like biting the apple in the garden of Eden. I realized that I was naked for having given so much of myself. The beautiful small flowers I had sowed in my garden were being gutted off when they could be here for all to enjoy. I never bought flowers again. This experience left me perplexed over so many of you who, many without even knowing me, give me such significant positive support. From that 1% I got to know a bit of evil.

 

Sometimes some distance is absolutely indispensable and what I felt at a certain point was that I needed, among all the blog projects, at least one that was mine. Only mine, that I could have in my lap, to cover me, to dress me. And facing the reality that I was sharing everything, the idea of “protecting” the project that was the dearest to me was the least bad solution. So I decided to save my Nature Journal for myself.

 

A long time later, clarity was back in my path, the distance made its magic and I wasn’t naked again, I was already wearing a fresh dress of flowered pattern. I know I am the only one who learned from the situation, because distance is a tool that is not useful when being selfish is a mark of character, but it was enough at least to me to realize that to this 1% of acquaintances, I have to give them the value that was given to my generosity. None. That is why I decided that I wanted to show you my complete and finished 2018 Nature Journal. This was a project with a lot of power over me: resilience, diligence, sensitivity and learning. That praised my respect for nature, for life in any form, my vital ability to contemplate and learn, to create, with my own hands what no one else can do for me. Because I’m the only one like me in the world. Thank you to those who follow me for good reasons: those who rock me in the same lullaby. For the rest I have nothing to offer.

 

Here is my Nature Journal of 2018, with one page a week revealing the best of my days, despite everything that has gone on.

 

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From gouache to watercolour painting

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Lembram-se deste post?
A minha experiência com o guache foi fascinante. Não creio que o utilize em todos os casos. Para já, continuo a sentir que a aguarela e o óleo são as minhas favoritas, muito embora a aguarela seja um grande desafio para mim. Contudo, compreendi que gosto de trabalhar o guache em determinadas situações e creio que para ilustradores possa ser uma experiência muito enriquecedora. Estudos, tecnicas de sobreposição de manchas, ilustração com aspecto de serigrafia… o guache pode ser tão ou mais interessante do que eu imaginei!

Logo depois chegou o momento de trabalhar a aguarela. E foi aqui que a descoberta foi “diferente”. Para variar, com a aguarela, não estava à espera de outra coisa… só não sabia exactamente o que esperar. Eu já conhecia algumas técnicas pelo que, de início fiquei algo desapontada com o que estava a aprender. Claramente eu estava mais ciente em relação aos meus colegas já que o meu conhecimento prévio era um pouco maior. E vê-los progredir era fascinante. Olhar para os seus trabalhos e ver nas suas caras a expressão da descoberta foi, só por si, uma grande experiência. Mas e eu? Durante algum tempo não me vi a caminhar ao mesmo ritmo, muito embora tenha descoberto novas formas de pintar, novas técnicas. Ora, a certa altura eu estava com menos tempo para pintar e algo desmotivada. Eu queria mais mas não estava a ter os momentos de dedicação que o justificassem.

Ora, numa tarde chuvosa de sábado, esbocei uma série de exercícios, peguei no meu material e fui pintar para um café. Passei uma tarde inteira entre café, aguarelas, podcasts e torradas com compota. Depois de passar quase três horas a pintar percebi os progressos que tinha feito naquele bocadinho: nunca antes tinha pensado que, por vezes é preciso um tempo de aquecimento, uma determinação para várias horas, um ambiente livre e uma boa luz para detectarmos progressos. Não me interpretem mal, mas a verdade é que, por vezes, o período de aula não é paciente connosco, é demasiado consciente, algo condescendente connosco… Confronta-nos. Aquela experiência mostrou-me que, depois do conhecimento básico, da primeira descoberta, é preciso predispormo-nos para saber mais. E, correndo o risco que vos desiludir com aquilo que parece um velho cliché, a única coisa que podemos fazer para evoluir é pintar, pintar, pintar. Não ficar com a dúvida da peça anterior e testá-la na seguinte, minutos depois. Não deixar que arrefeça a dúvida no espaço qua vai entre pintar um e outro quadro. Ao longo de uma sessão de trabalho, a mente vai trabalhando sozinha. O processo não é tão consciente quanto uma metódica como eu gostaria mas a dúvida nunca deve existir.

Do you remember this post?
My experience with gouache was fascinating. I don’t think I’ll use it in many cases. For now, I still feel that watercolor and oil are my favorites, even though  watercolor is a big challenge for me. However, I understood that I enjoy working gouache in certain situations and I believe that for illustrators it can be a very interesting experience. Studies, overlapping layers, illustrations imitating serigraphy… the options are endless and gouache can be so much more interesting than I imagined!

Soon after, it was time to work with watercolour. And it was in that moment that my discoveries were of a very “different” kind. As usual, with the watercolour, I was not expecting anything else… I just did not know exactly what to expect! I already knew some techniques from the work I have done before so, at first I was somewhat disappointed with what I was learning. Clearly I was at least a little more aware of the technique than my colleagues since my prior knowledge was slightly bigger. And watching them progress was fascinating. Looking at their work and seeing in their faces the expression of discovery was, by itself, a great experience. But what about me? For some time I did not see myself walking at the same pace, even though I discovered new ways of painting, new techniques. Well, this was one thing. The other thing was that, at one point I had less time to paint. I wanted more but I was not having the moments of dedication that justified my demand.

So, on a rainy Saturday afternoon, I sketched a series of exercises, took my stuff and went to paint to a coffee shop. I spent the entire afternoon immersed in coffee, watercolours, podcasts and toast with jam. After spending almost three hours painting I realized the progress I had made: first of all I had never before thought that sometimes it takes a warm-up time to make it work, a determination or openness for several hours of dedication, a free environment and a good light to detect progress. Don’t get me wrong: the truth is that sometimes the class period is not patient with us, is too conscious, somewhat condescending with us… it confront us. That makes it necessary to work at home. That experience showed me that, after the basic knowledge, the first discovery, we must be inclined, predisposed to know more. And, taking the risk of disappointing you with what looks like an old cliche, the only thing we can do to evolve from that point on is to paint, paint, paint. Do not forget the doubts about your last piece and try them on the next, minutes later. Do not let them cool in the space that goes between paintings. Throughout a work session, the mind works by itself, all alone, no control. The process is not as conscious as a methodical one as I would like but the doubt must never exist.

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Nature journal: August, September, October

Há algum tempo que não vos dava actualizações do meu Nature Journal embora já tenha o registo feito há semanas!
Agosto e Setembro no meu Nature Journalfocaram-se sobretudo em experiências, caminhadas, dias passados perto da natureza. O verão é uma época em que todos passamos algum tempo extra cá fora, apesar do meu Nature Journal mostrar que qualquer época do ano está repleta de biodiversidade próxima de nós.

I did not give you updates of my Nature Journal for a while although I already had the all the things registered for weeks!
August and September in my Nature Journal focused mainly on experiences, walks, days spent close to nature. Summer is a time when we all spend some extra time out there, although my Nature Journal shows that any time of the year is filled with biodiversity close to us.

O mês de Agosto foi repleto de oportunidades para observar biodiversidade. Durante um passeio na Serra da Freita vimos uma pequena família de codornizes a sair quese debaixo dos nossos pés quando, ao passar, saíram assustadas de um arbusto onde estavam escondidas e fugiram agitadas para o abrigo mais próximo. Vê-las correr lembrou-me um video jogo: os seus saltos combinados com o bater de asas pareciam dirigi-las ao de leve sobre as rochas do cimo do monte.

The month of August was full of opportunities to observe biodiversity. During a walk in Serra da Freita we saw a small family of quail coming out from under our feet as we passed. They jumped frightened out from one bush where they were hiding and fled restlessly to their nearest shelter. Watching them run reminded me of a video game: their heels combined with the flapping of wings seemed to drive them lightly over the rocks at the top of the hill.

A semana seguinte foi dominada por uns dias de descando à beira mar com uma bela oportunidade de visitar as poças de maré! O calor era tanto que nos deixávamos ficar sentadas numa pedra, com os pés dentro de água. Não tardou a que uma amiga fosse mordida por um mexilhão atrevido!

The following week was dominated by a few days of seaside relax time, with a beautiful opportunity to visit the tide pools! Those days were hot so we used to seet on a rock with our feet under water. It was not long before a friend was bitten by a cheeky mussel!

Os dias 12-13 de Agosto são quase sempre marcados pela famosa chuva das Perseidas, uma chuva de estrelas derivada da passagem do cometa Swift-Tuttle e que são assim são denominadas porque têm uma origem próxima da constelação de Perseus e da Cassiopeia.

The days around 12-13 August are marked by the famous Perseid shooting stars, a phenomenon derived from the passage of the comet Swift-Tuttle and that are so denominated because they appear near the constellation of Perseus and Cassiopeia.

Esta semana, por causa da chuva de estrelas, as saídas à noite também me ofereceram a possibilidade de apreciar o voo dos morcegos. Os morcegos são mamíferos com má conotação devido a mitos e folclore com muitos anos de história… Por essa razão, e porque gosto da ideia de sensibilizar para uma atitude mais positiva para com estes mamíferos, resolvi dar-lhes o espaço merecido no meu Nature Journal apesar de não ter sido capaz de identiicar a espécie que observei com exactidão.

This week, because of the shooting stars, the night time also offered me the possibility to enjoy the flight of the bats. Bats are mammals with poor connotations by humans due to myths and folklore with many years of history… For this reason, and because I like the idea of raising awareness for a more positive attitude toward these mammals, I decided to give them the space they deserve in my Nature Journal although I was not able to identify the species I observed.

Os restantes dias de praia e de calor permitiram-me ainda voltar às poças de maré e retratar mais um organismo que podemos encontrar nas rochas: as lapas! Das coisas mais engraçadas que já vi foi uma lapa colada a um virdro que me permitia ver o organismo pelo lado de dentro. Elas têm um músculo fortíssimo que as permite fixar-se ao substrato e, com a boica, raspar as rochas de algas e outros microorganismos que constituem a sua alimentação. Por vezes é até possível ver nas rochas o rasto que as lapas deixam ao longo do tempo…

The remaining days on the beach allowed me to return to the tide pools and to paint another organism that we can find on the rocks: the limpets! Of the funniest things I’ve ever seen was a limpet “glued” to a glass which allowed me to see the organism from the inside. They have a very strong muscle that allows them to attach themselves to the substrate and, with their lips, to scrape the rocks of algae and other microorganisms that constitute their diet. Sometimes it is even possible to see  on the rocks the “scraping trail” that the limpets leave over time…

Na última semana de Agosto tive a oportunidade de me deslocar a Évora e detectei naturalmente uma grande diferença na paisagem em relação ao norte do país, muito embora tenhamos muitas espécies em comum. Apesar de conseguirmos observar libélulas e libelinhas um pouco por todo o país, este passeio deu-me o tempo necessário para as comtemplar, fotografar e fazer um esboço que pintei mais tarde, ao chegar a casa.

On the last week of August I had the opportunity to travel to Évora and I naturally detected a great difference in the landscape compared to the north of the country, even though we have many species in common. Although we could observe dragonflies all over the country, this tour gave me the time to contemplate them, photograph them and make a sketch that I painted later, when I got home.

O mês de Setembro foi turbulento… mas havia tanto que recordar da minha visita a Évora e do Caminho de Santiago que tive muito por onde desenhar! Claro que tive de remeter para fotografias que tinha tirado já que as oportunidades para desenhar na Natureza foram mais limitadas. Voltei a recordar évora por mais umas semanas porque não queria deixar de retratar alguns dos seres vivos que tinha visto naqueles dias.
Exemplo disso foi uma pequena osga que, colada na parede quente de um edifício  aguardava que a luz de um candeeiro atraísse o seu jantar! As osgas são outro exemplo de seres vivos com péssima conotação mas que além de serem absolutamente inofensivos, são companheiros regulares das habitações humanas e que tratam de eliminar os insectos perto das nossas casas.

The month of September was turbulent… but there was so much to remember from my visit to Évora and the Camino de Santiago: I had so much to draw! Of course I had to refer to photographs that I had taken since the opportunities to draw in Nature were more limited. I remembered Évora again for a few more weeks because I did not want to stop portraying some of the living things I had seen in those days.
An example of this was a little  gecko that, glued to the warm wall of a building, waited for the light of a lamp to attract its dinner! The geckos are another example of living beings with very poor connotation by humans but besides being absolutely harmless, they are regular companions of the human dwellings and eliminate the insects near our houses.

Por fim, não pude deixar de retratar o burro que vivia no descampado mesmo atrás do meu quarto. Ver um burro em Portugal não é algum incomum mas há anos que já não ouvia um burro zurrar… de cada vez que ele o fazia, eu sorria porque me lembrava de quão divertida eu achava a Burra Vitória que havia em tempos no Parque Biológio de Gaia!

Finally, I could not help portraying the donkey who lived in the open ground just behind my room. Seeing a donkey in Portugal is not unusual, but for years I had not heard a donkey bray… every time he did it I smiled because I remembered the lovely Donkey Victoria I always at Parque Biológico in Gaia when I was a child!

Depois veio o Caminho… Confesso que me reservei de desenhar muito sobre o caminho já que não levei comigo o meu Nature Journal o que tornava complicado desenhar. Mas aquela raposa foi o ponto alto da penultima jornada a Santiago de Compostela desde Ferrol. A história daquele momento foi muito especial para mim. Com pena, talvez com a anisedade da recordação, não consegui captá-la como gostava no meu Nature Journal. Acho que um dia escreverei a história dela e prometi a mim mesma repetir uma página, 3 páginas, 20 paginas, só para ela…

Then came the Camino … I confess that I didn’t drawing too much during the Camino since I did not take my Nature Journal with me which made drawing complicated. But that fox was the high point of one of the last days to Santiago de Compostela from Ferrol. The story of that moment was very special to me. With pity, perhaps with the anxiety of the memory, I could not grasp it as I would like in my Nature Journal. I think I’ll write her story one day and I promised myself to repeat a nature page, 3 pages, 20 pages, just for her…

A gaivota… as gaivotas: eram aos milhares e pareciam sondar o edifício do Terminal de Cruzeiros de Leixões como quem procura o calor do colo quente de uma mãe. Uma mãe de Betão. Estava há poucos dias ali e já lhes havia percebido os hábitos, as travessuras e as dinâmicas. Em breve será inverno e cherarão mais e mais para passar os meses frios. Com elas espero ver outras espécies invernantes.

The seagull… actually there were lots of seagulls: they were thousands and seemed to surround the building of the Leixões Cruise Terminal as if looking for the warmth of a mother’s hot lap. A mother made of concrete, though. I had been there for a few days, and had already noticed their habits, tricks, and dynamics. Soon it will be winter and they will wash more day after day to spend the cold months in Portugal. With them I hope to see other wintering species!

O olhar sereno de uma mão cheia de peixes zebra, nervosos, assustados mesmo, num aquário à mercê dos olhos esbugalhados de crinaças e adultos, de música e barulho incompreensível. Senti alguma compaixão por eles e pela frustração de não terem escolha senão estar ali com a máxima de sensibilizar um público altamente disperso. Dirigi-lhes alguns momentos de comtemplação por respeito mas sobretudo por carinho.

The serene look of a hand full of zebra fish, nervous, even frightened, in an aquarium at the mercy of the eyes of children and adults, music and incomprehensible noise. I felt some compassion for them and their frustration of having no choice but to be there with the maximum of work for a highly dispersed public awareness. I give them a few moments of contemplation for respect, but especially for tenderness.

A águia que sobrevoava o Castelo de Marialva, contra o vento gelado que contrastava com o Sol quente. Era um juvenil revelado pelas manchas brancas no interior das asas compridas e que, como jovem que tem o mundo aos seus pés, ansiava queriam cobrir de sombra o morro elevado.

The eagle that flew over Marialva Castle, against the icy wind that contrasted with the hot sun. It was a juvenile as revealed by the white spots on the inside of its long wings and who, as a young man who has the world at his feet, longed to cover the entire hill with shadow with just its wings.

E por fim, um trilho de madrugada por terras de Figueira de Castelo Rodrigo, os carvalhos começavam a amadurecer: os ouriços ainda verdes pareciam frágeis e fofos e, no seu interior, as Castanhas já cresciam redondas. Não pude sentir um certo carinho por esta tentativa de proteger algo tão precioso, adormecido. Estava ali eram 7h, já a meio do trilho, e os ouriços lembravam-me os cobertores que tinha deixado na cama…

And finally, a trail at dawn by the lands of Figueira de Castelo Rodrigo where the oak trees began to ripen: the still-green hedgehogs looked fragile and cute, and inside, the Chestnuts were already growing round. I could not stop feeling a certain amount of affection for this attempt to protect something so precious while it is asleeping. It was seven o’clock, we already did half of the trail, and the hedgehogs reminded me of the blankets I had left on my bed…

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My new painting adventure

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Não sei se já visitaram o meu portfólio, este post ou este. Pintar tem sido algo que vem crescendo cá dentro mas minha relação com a pintura nem sempre é simples, por vezes vai e vem e é muito afectada pela forma como me sinto acerca de mim mesma.
Recomecei a pintar há cerca de dois anos, após quatro anos sem praticamente pegar num pincel. Tive quem me encorajasse a voltar a fazê-lo e tinha algum tempo extra em mãos que podia dedicar a explorar com mais confiança a artista que dormitava aqui dentro. Despertá-la novamente implicou um acto de alguma coragem para mim: não só porque eu me sentia enferrujada mas porque o acto de criar obriga-nos a abrir-nos um pouco mais. As obras não são só nossas e expõem a nossa forma de ver o mundo. Num mundo em que a invasão interior é grande, e que o respeito pela individualidade é cada vez menor, este exercício traz consigo consequências. E eu, bom, eu sou uma introvertida.
Uma das dificuldades que senti ao recomeçar foi sistematizar o que sabia. Ha alguns anos atrás tive aulas particulares com um pintor que me foi passando, de forma mais ou menos livre o seu saber mas para quem prevalecia sobretudo o valor da experiência. Eu explorava as técnicas, inventava formas de trabalhar e este método permitiu-me criar alguma intuição no meu trabalho. Mas por outro lado esta forma meio sensorial de pintar falhava em duas coisas: eu estava confinada aos limites que eu própria estabelecia, raramente explorando aquilo que simplesmente não passava por mim. E, por outro lado não me dava a confiança para dizer “eu pinto” e considero-me uma pintora. Eu sabia que havia algo cá dentro mas que tinha dificuldade em assumir. Fiz algumas boas descobertas sozinha e com o empurrão de algumas pessoas e oportunidades que me foram aparecendo, criei as minhas preferências para temas, técnicas mas sobretudo apercebi-me das minhas limitações.

Este ano, depois dos meus progressos no meu nature journal e já a caminho do fim desse desafio de fazer uma página do meu nature journal por semana, e ainda que já bastante assoberbada por alguns projectos pessoais, resolvi criar mais um pouco de entropia a este sistema frágil e inscrever-me num curso de pintura na faculdade de belas artes. Não sei onde estava com a cabeça mas eu queria muito fazê-lo. Este é sem duvida um assunto que, tal como o nature journal, gostava de explorar aqui. Não com uma regularidade fixa mas conforme for sentindo que tenho algo a partilhar convosco.

A minha primeira aula foi sobre o básico: círculo cromático, cores primárias, secundárias, terciárias, complementares, pretos… aparentemente nada de novo, como seria de esperar de um curso que começa desde o mais básico princípio. Em guache… eu nunca tinha apreciado guache nem tintas acrílicas. Secam rápido e têm um arome pouco orgânico… e eu sou lenta e gosto da água e do cheiro quente do óleo de linhaça. Até que, como “trabalho de casa”, me foi sugerido fazer um exercício de degradê entre cores primárias, passando, naturalmente, pelas cores secundárias. Foi um exercício muito marcante para mim… eu não podia acreditar que o guache pudesse ser tão vibrante e que a quantidade de cores interessantes que me apareciam lentamente por acrescentar mais uma pontinha de cor à mistura anterior era tão empolgante. Descobri as cores mais bonitas de sempre, percebi que gosto muito de escarlate, aquele quase a virar para o rosa, e que para fazer um azul petróleo perfeito, cintilante é preferível juntar uma pitada de amarelo ao azul em vez de comprar mais uma cor na loja de artes… porque o pigmento do amarelo se nota e muito no brilho, no tom e na temperatura da cor.

Na segunda aula eu descobri que ainda não me dou bem com o guache e a sua pressa mas, mas felizmente houve bastante tempo para o compreender: as espessuras possíveis, as sobreposições de cor, a sua intensidade. À medida que adicionava água, a tinta ia-se comportando como uma aguarela… eu começava a aproximar-me de algo conhecido. Mas foi precisamente nessa altura que eu notei uma grande diferença. Ao contrário da tinta espessa que é vibrante e intensa, quando guache fica diluído, como uma aguarela, as cores tornam-se mais mais “apagadas”. Como quando se mistura branco na aguarela… meio opacas. Na aguarela, eu posso adicionar água a um vermelho e ele mantém-se vermelho. O que eu notei foi que, se adicionar agua a um vermelho até ficar com a espessura de uma aguarela e cada vez mais diluído, o vermelho perde força e fica meio cor de rosa. E foi já no fim da aula, quando a professora explicou a constituição do guache, que comprendi que a grande diferença é que o guache é tradicionalmente constituído pela goma arábica e pigmento colorido, tal e qual como a aguarela, (entre outros constituintes secundários) mas é-lhe ainda acrescentado pigmento branco que lhe fornece o caracter opaco. Quantidade desse pigmento é moderada e não lhe retira a força da cor quando a tinta é espessa. Mas, pelo menos na minha humilde opinião, o pigmento branco é como um segredo que se descobre quando, aos poucos se dilui o guache mais e mais…

I don’t know if you have visited my portfolio, or even read this or this post. Painting has been something that has been growing inside me but my relationship with it was not always simple, sometimes it comes and goes and it is very affected by the way I feel about myself.
I started painting again about two years ago, after four years not handling a brush. I got some encouragement to do it again… and had some extra time in my hands that I could dedicate exploring more seriously the artist sleeping inside me. Awakening her again was an act of courage for me: not only because I felt rusty but because the act of create involves some difficult opening. The work you do is not only ours and it expose, sometimes too clearly, our way of seeing the world. In a world where the inner invasion is huge, and the respect for individuality is diminishing, this exercise carries with it some consequences. And I, well, I’m an introvert.
One of the challenges I had when starting over was to systematize what I knew. A few years ago I had some private lessons with a painter who passed me, more or less freely, his knowledge. For him it was the experience that prevailed. I explored the techniques, invented ways to work with them and this method allowed me to create some intuition in my work. But on the other hand this “sensory” way of painting failed in two things: on one hand I was confined to the limits that I established for myself, I simply didn’t explore what didn’t came to me. And on the other hand I ended without the confidence to say “I paint” and I consider myself a painter. I knew there was something inside but I had difficulty taking it as seriously as it could be. Don’t get me wrong: I made some good discoveries on my own and with the push of some people that encouraged me and even because of the opportunities that appeared to me. I created my preferences for themes, techniques but above all I realized my limitations.

This year, after my progress in my nature journal, and on the way to the end of this challenge of making a page of my nature journal per week and despite already quite overwhelmed by some personal projects, I decided to create a little more entropy to this frail system and enroll a painting a course at the university fine arts college. I do not know where I was headed, but I really wanted to do it. This is undoubtedly a subject that, like my nature journal, I would like to explore here. Not with a this tight regularity but as I feel I have something to share with you.

My first lessons were on the basics: chromatic circle, primary, secondary, tertiary, complementary, black… seemingly nothing new, as you would expect from a course that starts from the most basic principles. In gouache… I had never enjoyed gouache or acrylic paints. They dry fast and have a little organic arome… and I’m slow and like the water and the warm smell of linseed oil. Until I get home and did my homework. I was suggested to do a gradient exercise between primary colors, passing, of course, by the secondary colors. It was a very striking exercise for me … I could not believe that the gouache could be so vibrant and that the amount of interesting colors that slowly appeared to me by adding another tip of color to the previous mixture was so exciting. I discovered the most beautiful colors ever, I noticed that I really like scarlet, that red almost turning to pink, and that to make a perfect, sparkling teal it is preferable to add a dash of yellow to blue instead of buying one more color in the art store… because the yellow pigment shows and much in brightness, tone and color temperature.

In the second class I discovered that I still do not get along with the gouache and its hurry temper, but fortunately there was plenty of time to understand it: the possible thicknesses, the color overlays, the intensity. As I added water, the paint would behave like watercolor… Perfect! I was beginning to approach something I know! But it was precisely at this point that I noticed a great difference from watercolor. Unlike the thick paint that is vibrant and intense, when gouache gets diluted, like a watercolor, the colors become more “erased”. Like when mixed white in watercolor … it gets “opaque”. What I mean is that, in watercolor, I can add water to a red and it stays red no matter how many water I add. What I noticed was that, with guache, if you add water to a red until you get the thickness of a watercolor and keep adding more water, the red loses it strength and becomes a little more “pinkish”. I was truly intriged… It was only at the end of the lesson, when the teacher explained the constitution of the gouache, that I understood something that might justify it. So, the great difference is that gouache is traditionally constituted by gum arabic and colored pigment, just like watercolor (among other secondary constituents) plus a bit of white pigment that gives it the opaque character. Ta-da! Well, the amount of this pigment is moderate and does not take away the strength of the color when the paint is thick. But, at least in my humble opinion, the white pigment is like a secret that is discovered when you slowly dilute the gouache more and more…

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