Mistake Rib Cowl

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E a gola em lã Amélia que tinha começado está pronta!

 

Receber uma peça feita à mão é uma sensação única. E se quem recebe conhece o empenho que ela deposita, sabe também que não há outra maneira de a fazer a não ser com carinho, muito carinho. Portanto, os sintomas são o coração aconchegado, o corpo leve como de um bebé e um sorriso comovente e meio contido, por ser muitas vezes casado com uma ou outra lágrima de felicidade. Por isso, fazer uma peça para oferecer, sobretudo se for para ser usada no dia-a-dia, é um trabalho muito gratificante porque antecipa tudo isto! É tornar físico o conforto de estar acompanhado, porque quem usa uma peça feita à mão nunca está completamente sozinho. E é oferecer isso, de todo o coração.

 

A gola parece ser um acessório mais frequente para as senhoras já que o número de acessórios para homem é muito mais limitado. Contudo, parece-me ser uma peça especialmente versátil os homens que gostam de se fazer acompanhar de uma peça bonita, discreta mas com ar descontraído e fácil de usar. Uma gola é tudo isso porque não sai do sítio, não cai (e portanto, não se perde), fica sempre bem posicionada ao pescoço e dá um ar tranquilo e confortável.

 

A Mistale Rib Cowl foi feita para o Carlos com a lã Amélia, da qual vos falei aqui. E portou-se lindamente neste projecto! Inicialmente tive algum receio de que o tweed mascarasse a textura proposta pelo modelo e que o desenho ficasse confuso. Mas rapidamente compreendi que, em vez disso, os valorizava: o tweed é suave, dá volume e os seus reflexos permitem justaposição com muitas cores, o que fez desta gola uma óptima opção para o dia-a-dia. Além disso, é mais macia do que a Ofélia que usei para fazer este xaile, é muito leve mas mantém a rusticidade que faz dela uma lã tão interessante: vejo-a usada em todo o tipo de peças mas reconheço-lhe uma vocação para as peças masculinas!

 

Esta gola é bem capaz de estar na minha lista de favoritos: pelo resultado ter sido melhor do que imaginava, por ser um daqueles projectos que se fazem rapidamente com um efeito muito compensador, porque foi uma peça pedida com jeitinho (e não há nada melhor do que receber um pedido de quem aprecia genuinamente uma peça feita por mim) e porque foi feita com todo o carinho.

 

And the Amelia cowl that I had begun is finished!

 

Receiving a handmade piece is a unique sensation. And if those who receive know the commitment that it carries, also know that there is no other way to do it other than with a great amount of affection, lots of it. The symptoms: a cozy heart, a body as light as a baby, and a touching, half-contained smile often married to one or two tears of happiness. Therefore, making a piece to offer, especially if it is to be used on a daily basis, is a very rewarding task because it anticipates all this! It is physical form of comfort of having the best company, because everyone who wears a handmade piece would never be completely alone. And it is to offer this, with all my heart.

 

The cowl seems to be a more frequent accessory for ladies since the number of accessories for men is much more limited. However, for me, it seems to be a particularly versatile piece for men who generally like a beautiful piece yet discreet, relaxed and easy-to-use. A cowl is all this because it does not move a lot, does not fall (and therefore, doesn’t get lost), is always well positioned and gives a calm and comfortable feeling.

 

The Mistale Rib Cowl was made for Carlos with the Amélia yarn, of which I wrote about here. And it behaved beautifully in this project! Initially I was afraid that the tweed would mask the texture and that the design would be confusing. But I quickly realized that the tweed is soft, adds volume and its colour reflex allow juxtaposition with so many other colours, which makes this cowl a great option for daily use. In addition, it is softer than the Ofélia I used to make this shawl, it is very light but maintains the rusticity that makes it such an interesting wool: I see it used in all kinds of projects but I recognize its propensity for men accessories.

 

This cowl might be one of my favorites: the result was better than I imagined, it is one of those projects that are quickly done with a very rewarding effect, because it was a requested piece from someone special (and there is nothing better than having a request from someone who genuinely appreciates a piece made by me) and because it was done with a lot of love.
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Book review: Knitting Portuguese designs

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Como combinado, resolvi escrever sobre o livro “Malhas Portuguesas” da Rosa Pomar.
Eu comprei o livro pouco tempo depois de ter saído e já o ofereci a pelo menos duas pessoas. É um livro fora de série!

 

Não é um livro prático com a ambição de ensinar todos os segredos do tricô ou propor modelos puramente estilizados. Pela postura que vou conhecendo da Rosa dos anos em que tenho seguido o blog “A Ervilha Cor-de-Rosa”, há coisas que são para serem aprendidas com os outros: ou com a avó, com a mãe, mas também com uma amiga ou alguém completamente desconhecido mas que sabe e que ama. E para se amar, é preciso conhecer. Por essa razão este livro é muito pertinente para qualquer tricotadeira porque, depois de o lerem, vão ver a arte do tricô com outros olhos, os olhos de quem ama.
O livro “Malhas Portuguesas” é um livro que resultou de uma profunda investigação sobre a história da arte têxtil em Portugal. Nos primeiros capítulos é precisamente a história geral do “fazer malha” que é abordada, tão remotamente como a idade média. É ainda nesta parte do livro que a Rosa explica melhor a forma portuguesa de tricotar com o fio ao pescoço, como vos apresentei aqui.

 

Na segunda parte do livro, a autora propõe-se a vasculhar o melhor que sabe nos modelos tradicionais reavivando com sabedoria a nossa memória e a da nossa cultura artesanal com modelos para tricotar inspirados em peças tradicionais portuguesas. Os 20 modelos do livro derivam directamente dos modelos tradicionais que muitas vezes eram passados de geração em geração sem qualquer tipo de registo. Desde meias, barretes, almofadas e xailes, o livro “Malhas Portuguesa” contempla um pouco de tudo e todos os modelos têm um sentido prático e utilitário, tal como as peças que lhes deram origem. Contudo a beleza dos modelos, dos detalhes demonstra com destreza como o lado prático pode bem estar ligado ao belo e decorado, e ainda como é possível reviver o tradicional e valorizar a cultura artesanal Portuguesa.
Todos os modelos vêm acompanhados de belíssimas fotografias, num jeito tão sentido como o povo que procura caracterizar. São geralmente introduzidos com uma curta contextualização e procedidos por explicações passo-a-passo e ilustrações sobre as técnicas utilizadas, para que qualquer tricotadeira seja capaz de as reproduzir sem receios.

 

É um excelente livro para oferecer a mães e avós e para abrir mesmo quando estamos a tricotar outra coisa qualquer! É uma óptima fonte de inspiração.

 

As promised, I decided to write about Rosa Pomar’s book called “Malhas Portuguesas”. Again, the book is in Portuguese but you will find it so inspirational that I decided to present it any way.
I bought the book shortly after it came out and I already offered it to at least two beautiful ladies. It’s an outstanding book!

 

It is not like these common practical books with the ambition to teach all the secrets of knitting or to present a number of stylized models. From what I know of Rosa from the years I’ve been following her blog “A Ervilha Cor-de-rosa”, there are things that are to be learned from others: either with your grandmother, with your mother, but also with a friend or even someone completely unknown but who knows and loves to knt. And to love, you must know and be aware. For this reason this book is very pertinent for any knitter because, after reading it, you will see the art of knitting in a very different way: you will fall in love.
The book “Malhas Portuguesas” is a book that resulted from a profound investigation into the history of the Portuguese textile art. In the first chapters it is history of “knitting” that is approached, as remotely as the middle age. It is also in this part of the book that Rosa explains better the Portuguese way of knitting using the yarn around your neck, as I explained in other post.

 

In the second part of the book, the author proposes to search the best that she knows in the traditional models reviving with wisdom our memory and the one of our artisan culture with models to knit inspired by traditional Portuguese pieces. The 20 models in the book derive directly from the traditional models that were often passed from generation to generation without any kind of registration. From socks, hats, cushions and shawls, the book “Malhas Portuguesas” contemplates a little bit of everything and all the models have a practical and utilitarian character, just like the traditional pieces from which they get their inspiration. However the beauty of the models, and their details demonstrates that the practical side can be connected to the beautiful and decorated side, and also that it is possible to revive the traditional designs and value the Portuguese artisan culture.
All the models are accompanied by beautiful photographs, in a way as meaningful as the country they seek to characterize. They are usually introduced with a short text for context, proceeded by step-by-step explanations and illustrations on the techniques used, so that any knitter can able to reproduce it without fear.

 

It is an excellent book to offer to mothers or grandmothers and also to open even when we are knitting something else! It is an amazing source of inspiration.
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Portuguese knitting

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Para nós portuguesas, tricotar é com a malha ao pescoço!
Pode parecer uma artimanha louca para a maior parte dos países mas a verdade é que existem algumas formas curiosas de tricotar espalhadas pelo mundo. Não consegui encontrar muita informação sobre isso. Mas, num encontro do Dia Mundial de Tricotar em Público, conheci uma tricotadeira espanhola que tricotava com uma agulha debaixo do braço. Aparentemente é uma técnica ancestral ainda usada em alguns territórios de Espanha.
Também o tricô à portuguesa parece já ter centenas de anos. Segundo o livro da Rosa Pomar, a forma de tricotar com o fio ao pescoço passou de geração em geração, de tal forma que é pouco frequente encontrar neste Portugal alguém que prefira apenas tricotar à inglesa.

 

O blog Knitting Daily já falou sobre as vantagens de tricotar à portuguesa mostrando como esta forma de tricotar pode ser uma excelente alternativa quer para as iniciadas como para as tricotarias veteranas que começam a queixar-se de dores nas articulações.
Senão vejam: as portuguesas colocam o fio ao pescoço o que cria uma tensão mais firme durante o trabalho gerando um resultado muito homogéneo mesmo antes do blocking (por vezes ele nem chega a ser necessário). Isto é especialmente útil para quem tem algumas dificuldades em manter a tensão do fio ao longo dos trabalhos. E, para quem não gostar de ter o fio ao pescoço (o que pode ser mais desconfortável durante o verão), nós inventamos um gancho específico para o efeito que se prende ao peito para fazer passar o fio.

 

A segunda grande vantagem é que nunca é necessário retirar a mão da agulha para fazer as laçadas visto que basta movimentar o fio com o polegar, o que torna o trabalho muito mais rápido!
Daqui vem a terceira grande vantagem: como o fio está sempre na frente o ponto de liga fica extremamente fácil de fazer. Por causa disso, o ponto de liga é o preferido de todas as portuguesas!

 

Podem encontrar mais detalhes sobre como tricotar à portuguesa no livro da Rosa Pomar (entretanto prometo fazer um review), uma blogger Portuguesa que se dedica a conhecer melhor as origens dos lavores tradicionais Portugueses, ou no blog da Andrea Wong (em inglês) uma blogger Sul Africana que aprendeu esta técnica com a mãe, aos 7 anos de idade e que tem ensinado muitas tricotadeiras americanas a tricotar com o fio ao pescoço. A Andrea já tem vários DVD sobre o assunto e acabou de lançar o seu primeiro livro! É incrível a forma como ela valorizou a nossa forma de tricotar.

Se ficaram curiosos acerca deste assunto, deixem um comentário! Comprometo-me a esclarecer toadas vossa dúvidas.

 

Portuguese knitters knit in the Portuguese way: with their yarn around the neck!
It may seem a crazy trick for you knitters from other countries but the truth is that there are some curious ways of knitting around the world. I wasn’t able to find much information about it but I once met a spanish girl who knitted with one needle under the arm. Apparently, this is an ancient technique still used in some areas of Spain.
 
The Portuguese way of knitting also is a technique with hundreds of years. According to the book of Rosa Pomar, this technique was a truly success and passed from generation to generation, so it is rare to find Portuguese knitters who prefers to knit in the English way.
 

 

The blog Knitting Daily already talked about the advantages of knitting the Portuguese way by showing how this method of knitting can be a great alternative either for beginners as for veterans that complain of joint pain.
 
The Portuguese knitters put their yarn around their neck which creates a better tension and generates a very homogeneous result even before blocking (sometimes it is not even necessary). This is especially useful for those who have some difficulties in keeping the yarn tension during the work. For those who do not like to have their yarn around their neck (which may be more uncomfortable during the hot summer days), we invented a specific hook that attaches to your chest or your shoulder.
 

 

The second major advantage is that you never need to remove your hand from your needles to catch your yarn. You can move it just using your thumb, which makes the job much more faster!
Finally the third major advantage of Portuguese knitting way is that the purl stitch is very easy to make since the yarn is always in front of the work. Because of this, purl stitch is the favorite of all Portuguese knitters!
 

 

You can find more details on how to knit the Portuguese way in Rosa Pomar book (in Portuguese), a Portuguese blogger that dedicated to the origins of the Portuguese traditional handcrafts (meanwhile I promise to write a book review), or at Andrea Wong blog (in English) a South African blogger who learned this technique from her mother and who has taught many American knitters using their yarn around their necks. Andrea already has several DVD on the subject and has just released her first book! It’s amazing how she appreciated and valued our way of knitting.

 

If you’re curious about this an you want to know more, please leave your comment below! I will be glad to talk a little more about the portuguese knitting. 
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Book review: Complete Guide to Needlework

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O Grande Livro dos Lavores é a bíblia dos lavores mais comuns na década de 70-80. Desde o bordado, passando pela tapeçaria e pela cestaria, este livro aborda as bases e as técnicas dos lavores tradicionais mais comuns e é o meu principal recurso quando quero aprender uma nova técnica ou tenho alguma dúvida. A edição peça Selecções do Reader’s Digest foi bastante limitada mas ainda existe uma grande quantidade de exemplares espalhados pelas casas portuguesas.
O Grande Livro dos Lavores foi, certamente, um grande alívio para muitas senhoras naquele tempo! Apesar de muitas delas terem tido a oportunidade de aprender os diferentes lavores durante a infância, muitas ficavam limitadas a esse conhecimento ou ao que as suas mestras e colegas lhes podiam ensinar. A grande parte começava também a ter uma profissão pelo que o tempo dedicada à aprendizagem dos lavores e à sua execução começava a ser menor. Este livro veio possibilitar a aprendizagem mais rápida de novos métodos, reunir os principais saberes tradicionais e encerrá-los de forma permanente numa publicação e assim evitar a sua perda já algo anunciada pelos ventos favoráveis dos processos industrializados que prometiam substituir definitivamente as peças feitas à mão. Foi, portanto, uma grande ideia!

 

O livro tem a minúcia característica dos livros práticos dos anos 70 e, como guia, tem uma forma inteligente de abordar as técnicas. Em cada capítulo começa por apresentar de forma leve os diferentes lavores, os respectivos instrumentos e até um pouco da forma de trabalhar. Depois, à medida que as técnicas se vão tornando cada vez mais complexas, propõe uma série de projectos que permitem explorá-las mais aprofundadamente.
As explicações breves e sucintas são acompanhadas de ilustrações simples e muito esclarecedoras de todos os passos que envolvem a execução das técnicas. Há obviamente alguns lavores que são abordados mais aprofundadamente do que outros, o que reflecte um pouco a informação disponível e ainda as principais tendências da época! Não obstante, é um dos livros mais completos sobre os principais lavores tradicionais e comuns aos principais países da Europa onde este livro foi publicado.
Infelizmente só houve uma edição deste livro e nunca mais houve outro igual que o ultrapassasse. Apesar disso ainda é possível comprá-lo. O meu foi comprado há uns anos, em segunda mão, num alfarrabista portuense que também já me vendeu o seu irmão “O Grande Livro da Costura” do qual falarei noutra altura.

 

The Complete Guide to Needlework (english version of the featured book) is the bible of the most common needlework in the decade of 70-80. From embroidery, tapestry and basketry, this book covers the basics and techniques of the most traditional crafts and is my main resource when I want to learn a new technique or have doubts to clarify. This book was edited by the Selections of Reader’s Digest and only a small number of copies were available in Portuguese that are scattered throughout our very Portuguese homes.
The Complete Guide to Needlework was certainly a great relief to many ladies at that time! Although many of them had the opportunity to learn different crafts during childhood, many were limited to the knowledge their teachers and colleagues could transmit. Many of them also began work which decreased the amount of time available to craft. This book has made possible to learn new methods more quickly, gather the traditional techniques into a book and thus avoid the loss of this precious knowledge announced by the winds of the industrialized processes that promised to definitively replace the handmade pieces. It was, therefore, a great idea!

 

The book has the characteristic detail of the practical books of the 70’s and, as a guide, has a clever way of approaching the techniques. Each chapter presents a craft, the instruments and the main technique of working it. Then, as the techniques become more and more complex, the book proposes a series of projects that allow to explore them in depth.
The brief and succinct explanations are accompanied by simple illustrations of all the steps that involve the execution of the techniques. There are obviously some tasks that are addressed more in depth than others, which reflects a bit the information available and the main trends of the time! Nevertheless, it is one of the most complete books on the main traditional needlework crafts in Europe.
Unfortunately, there was only one edition of this book in Portuguese, and since then there wasn’t another book that surpassed it. In spite of this, it is still possible to buy it second hand. Mine was bought a few years ago in a Portuguese bookstore that also sold me its brother book “Complete Guide to Sewing” of which I will speak at another time.
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