A few of my favourite things: hiking

Vattern Lake, Sweden

 

Vouzela, Portugal

 

Parteira de Fermentemos, Águeda, Portugal

 

Tivedens National Park, Sweden

 

Rio Paiva, Portugal

 

Ermelo, Portugal

 

Vale do Rio Bestança, Portugal

 

Lake District, England

 

Arouca, Portugal

Durante os últimos anos de trabalho estudei a relação entre o ser humano e a restante biodiversidade. Entre as teorias mais fascinantes destaca-se a “Biophilia hypothesis”. Esta é uma teoria científica descrita em 1984 pelo biólogo Edward O. Wilson que defende que nós, seres humanos, temos uma afinidade inata para o mundo natural e temos tendência para procurar conexões com a natureza e com outras formas de vida. A palavra Biophillia significa amor/amizade pela vida e trata-se de uma inclinação psicológica para tudo o que é vivo ou natural e que parece ser herdada ao longo das gerações, muito possivelmente na carga genética que carregamos connosco. É magico pensar que possuímos, em cada célula, um pequeno livro que conta a história da nossa evolução, que nos mostra o nosso lugar nesta grande árvore da vida e nos aparenta a todos os seres vivos do presente, do passado e do futuro. Estar com a natureza é estar em família, é estar em casa e por essa razão é natural sentirmos-nos acolhidos, protegidos, confortáveis e livres.

Nada me preenche mais do que ficar horas no meio da natureza onde não possa ver praticamente sinais de civilização. Uma das minhas coisas favoritas é fazer trilhos pedestres. Para terem uma noção, depois do meu casamento, adiamos uma grande viagem para uns meses mais tarde, alojamo-nos no interior do país e fomos fazer trilhos! Já fiz muitos em Portugal e, nos últimos anos, alguma vontade de conhecer os países mais intensamente tem possibilitado descobrir alguns trilhos longe de casa.
De qualquer das maneiras, dentro ou fora de Portugal, é uma forma de turismo muito particular. O sightseeing das grandes cidades e pontos turísticos pode ser entusiasmante mas, ao longo dos anos fui percebendo que não me preenchia na totalidade. Eu gosto de ver os grandes ex-libris de uma cidade ou de um país, mas também tenho gostos pessoais que me atraem para pequenos pormenores que quase ninguém escolhe ver. As minhas “creative tours” têm muito a ver com isso. Mas passear é mesmo assim: há uma parte de nós que quer ver o que outros já viram… e outra que quer ver o que só o nosso coração pede.

Fazer um trilho tem em si uma atitude de desapego, ainda que seja por um pequeno período de tempo. Sair de casa, deixar o carro e carregar numa mochila tudo o necessário para nos “protegermos do mundo” lá fora é, nos dias de hoje uma pequena vitória. Se isso decorrer no espaço desconhecido, selvagem, onde não há ninguém para esclarecer dúvidas, onde vale a voz da natureza que dos desabituados de reconhecer, em que são apenas alguns sinais pintados em árvores ou pedras que nos impedem de nos perdermos em zonas remotas onde por vezes não há rede de telemóvel… bom, pode ser uma pequena aventura! Pagam-se caro as experiências radicais. Delegamos facilmente a uma empresa de turismo preparar tudo, responsabilizar-se para que tudo corra impecavelmente bem e a quem podemos reclamar no caso de chover… E há, de facto, experiências que só são viáveis assim, de forma sistematizada. Contudo, muitas vezes deixamos de as fazer quando temos aventuras gratuitas, a alguns quilómetros de casa, adaptadas a diferentes capacidades e gostos! A vantagem de pegar na mochila e num amigo e fazer um trilho é que podemos escolher, como se a “casa” fosse (porque é) nossa. É escolher como queremos fazer as coisas, aquilo a que queremos dar valor, que esforço e tempo queremos despender. É saber respeitar, cuidar um espaço que é de todos e que sentimos orgulho de partilhar. É ter confiança de abrir um portão e atravessar uma propriedade porque alguém gentilmente nos cedeu essa liberdade. É ter um planeta inteiro para descobrir. E é também fazer de uma ou duas horas de caminhada, uma semana inteira de experiências: a sonhar, apreparar, a concretizar e no fim a assimilar e recordar. Tão promissor!

During the last years I studied the relation between the humans and the rest of biodiversity. Among the most fascinating theories, “Biophilia hypothesis” stood out. This is a scientific theory described in 1984 by the biologist Edward O. Wilson who argues that we humans have an innate affinity for the natural world and tend to seek connections with nature and other life forms. The word Biophillia means love/friendship for life, it’s a psychological inclination towards everything that is alive or natural and that seems to be inherited throughout generations, quite possibly through the genetic information we carry with us. It is magical to think that we all have in each cell a little book that tells the story of our evolution, which shows us our place in this big tree of life and get us close to at all living things of the present, the past and the future. To be in nature is to be in family, to be at home and for that reason it is very natural for us to feel welcomed, protected, comfortable and free.

Nothing fills me more than spending hours in the midst of nature where I can see, virtually, no signs of civilization. One of my favorite things is hiking. For you to understand how I feel about it, after my marriage, we delayed this huge trip for a few months, we went to the interior of the country and went to hike! I’ve done a lot of hiking trails in Portugal and, in recent years, this desire to know other countries more intensely has made it possible to discover some trails away from home.
In any case, inside or outside Portugal, it is a very particular way of be a tourist. The sightseeing of the big cities and tourism sights can be exciting but, over the years, I have realized that it did not fill me entirely. Of course I like to see the great ex-libris of a city or a country, but I also have personal tastes that attract me to small details that almost nobody chooses to see. My “creative tours” have a lot to do with it. Traveling is all about this: there is a part of ourselves that wants to see what others have seen… and another that wants to see what only our heart asks for.

Hiking a trail involves some detachment, even if it is for a short period of time. These days, leaving home, leaving our car on the road and carrying in our backpack all that is necessary to “protect ourselves from the world” is a small victory. If this happens to occur in the unknown wild space, where there is no one to clarify doubts, where the voice of nature is the only voice you hear (and that we are getting unable to recognize), in which we have to trust in just some signs painted on trees or stones that prevent us from getting lost in remote areas, where sometimes there is no phone coverage… well, we might be asking for a little adventure! Radical experiences are costly. We easily delegate to a tour company to prepare everything, to make sure that everything runs smoothly and to whom we can complain if it rains… And there are, in fact, experiences that are only viable this way, in a systematized way. However, we often stop doing them even when we have free adventures, a few miles from home, adapted to different capacities and tastes! The advantage of grabbing a backpack and a friend and hike a trail is that we can choose, as if the “house” was (because it is) ours. It is choosing how we want to do things, what to value, what effort and time we want to spend. It is knowing how to respect, care for a space that belongs to everyone and that we are proud to share. It’s to have confidence while opening a gate and crossing a property because someone kindly gave us that freedom. It’s having a whole planet to discover. And it’s also to transform an hour or two of walking in a whole week of experiences: to dream, to prepare, to do it and, in the end, assimilate and remember. How bright!

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A few of my favorite things: children books

(scroll for the English version)

Já estou cansada de ouvir a frase “tens de começar a comprar livros pra a tua idade!”
É verdade, eu tenho uma paixão por livros infantis.

Se há paixões para as quais nós não conseguimos descortinar razões, neste caso eu consigo enumerar pelo menos três razões para gostar tanto de livros infantis. Em primeiro lugar, eles fazem parte das minhas memórias de infância. Os meus pais liam-me histórias antes de adormecer, eu pedia as mesmas constantemente (como é frequente nas crianças), sabia algumas histórias e poemas de cor e tinha dois ou três livros que a minha memória guardou como tesouros e que ainda hoje habitam numa das mais importantes prateleiras da minha estante.
A segunda razão é porque a minha mãe é professora de Língua Portuguesa e acumulou em casa uma estante inteira de histórias para os mais pequenos. A estante é demasiado grande para se dever única e simplesmente à sua profissão ou ao facto de ter tido três filhos que, por sua vez também iniciaram as suas colecções. Creio porém que ela fica feliz de poder justificá-la dessa maneira às pessoas crescidas embora eu saiba que a principal razão é que muitos destes livros são autênticas obras literárias, autênticas obras de arte. Para mim é uma justificação mais que legítima e que eu partilho inteiramente.
A minha última razão deriva necessariamente das duas anteriores. Durante o doutoramento percebi o quanto os livros infantis podem ser importantes ferramentas de comunicação do tema da biodiversidade já que estão repletos de seres vivos. Motivada por este pensamento, fiz um grande estudo sobre a forma como a biodiversdade está presente nos livros para a infância. É um estudo complicado mas com um princípio e uma conclusão muito simples.
O poder dos livros infantis sobre mim foi, a partir desse momento, arrebatador. Não consigo entrar numa livraria sem passar pela área infantil, já perdi a vergonha de só requisitar livros infantis na biblioteca e dizer que são para mim, de ser a única adulta nos sofás dedicados aos miúdos e já me vi aconselhar com sucesso alguns adultos desorientados à procura de um bom presente. Até já ofereci livros infantis a outros adultos (sim, para além da minha mãe)…

Isto pode parecer não ter nada a ver com o tema do “fazer à mão”, mas faz parte, certamente, do tema “viver devagar” que lhe está imediatamente associado. Senão, ora vejam:
Face aos desenhos animados tão intensos e cheios de efeitos extraordinários, é fácil desvalorizar o poder de um bom livro infantil. Contudo há uma coisa que nenhum desenho animado permite: ter poder sobre o ritmo. Um livro lê-se mais depressa ou mais devagar, à medida do leitor. Podemos dispensar horas num só poema e há quem domine a técnica vulgarmente denominada “ler na diagonal” e captar o que para si é o bastante num tempo recorde. No caso dos livros infantis esta questão ainda se torna mais evidente. A combinação das imagens com o texto faz com que haja vários níveis de profundidade em cada página nos quais o leitor se pode perder e imaginar. E não desvalorizem a mente de uma criança: há palavras que de preferência não são ditas, há imagens que contam à maneira de cada um dando-nos o tempo e o espaço necessário para imaginar. Não há nada melhor para apaziguar, fortalecer perspectivas, aumentar a auto estima do que ler e explorar ao nosso próprio ritmo. E isso aprende-se de pequenino, com um bom livro na mão.
Mais, quando é que perdemos o hábito de ir à biblioteca e lá perder um bom pedaço só a explorar as prateleiras ainda que seja lado a lado com um miúdo de 8 anos? Porque razão acham que nas bibliotecas infantis há um tapete no chão com almofadas? É obviamente para todas as alturas se poderem sentar (ou deitar) e demorar! Quando é que viver devagar e explorar saiu de moda?

Não consigo pensar que este será o único post em que falo de livros infantis pelo que entretanto prometo actualizar e recomendar as minhas novas aquisições. Por hoje queria falar-vos de sete livros com mensagens poderosas para pequenos e grandes.

I’m tired of hearing: “you have to start buying books for your age!”
It’s true, I have a passion for children’s books.

If there are passions for which we can not understand the reasons, in this case I can enumerate at least three reasons to love children’s books so much. First of all, they are part of my childhood memories. My parents read me stories before sleep, I asked for the same stories constantly (as children do often), I knew some stories and poems by heart, and I had two or three books that my memory kept as treasures and that still inhabit on one of my most important shelves.
The second reason is because my mom is a Portuguese Language teacher and she has accumulated an entire bookshelf of stories for the little ones. The bookshelf is too large to be solely due to her profession or to the fact that she had three children who also started their collections. I believe, however, that she is happy justify it in this way to the grownups, although I know the main reason is that many of these books are authentic literary works of art. For me this is a more than legitimate justification and that I fully subscribe.
My last reason necessarily derives from the previous two. During my PhD I realized how children’s books can be important tools for communicating the theme of biodiversity since they are full of living beings. Motivated by this thought, I did a large study on how biodiversity is present in books for children. It is a complicated study but with a very simple principle and conclusions.
The power of children’s books over me was, from that moment on, trully overwhelming. I can’t enter a bookstore without visiting the children’s area, I’m not embarrassed any more by borrowing children’s books in the library and say that they are for me or to be the only adult in the kid’s sofas at the bookstores. I already successfully advised some disoriented adults looking for a good gift and I even offered children’s books to other adults (yes, besides my mom)…

This may seem to have nothing to do with the “handmade” theme, but it is certainly part of the “slow living” theme that is immediately associated with it.
Compared with cartoons that are so intense and full of extraordinary effects, it is easy to devalue the power of a good children’s book. However there is one thing that no cartoon allows: to have power over the rhythm. A book can be read as fast or slow as we want. We can spend hours in a single poem and there are those people who master the technique of capturing a book content in a record time. In the case of children’s books this is even more obvious. Combining the images with the text means that there are several levels of depth on each page for the reader to spend time, get lost and imagine. And please, do not undervalue a child’s mind: there are words that don’t have to be written, there are images that tell the way by themselves, giving us the necessary time and space to imagine. There is nothing better to appease, strengthen perspectives, increase self-esteem than read and explore at our own pace. And this is learned as early as you can imagine since you have a good book in your hand.
Plus, when did we lost the habit of going to the library and spend a good time just exploring the shelves, even if it’s side by side with an 8-year-old kid? Why do you think that in children’s libraries there is a rug on the floor with cushions? It is obviously for all heights to sit (or lie down) and delay! When did slow living and exploring went out of style?

I can not think that this will be the only post in which I speak of children’s books so I promise to update and recommend my new purchases sometimes. Today I wanted to tell you about seven books with powerful messages for young and old “children”.

O primeiro foi-me oferecido pela respectiva editora aquando do estudo que referi acima. Chama-se “Espelho”, escrito pela autora Susy Lee e é um album, ou seja, um livro no qual a imagem prepondera sobre o texto. Neste caso não há de todo texto mas suas poderosas ilustrações criam uma história de descoberta. Tenho-lhe especial carinho porque me revejo um pouco e, mais tarde, ofereci-o a um amigo que me dizia que por vezes é preciso fazermos umas boas caretas ao espelho para entrar nele e conhecermo-nos no íntimo da nossa sensibilidade e criatividade.

The first one was offered to me by the publisher during the study I mentioned above. It is called “Mirror“, written by Susy Lee and is a silent picture book, a book in which the image predominates over the text.In this case there is not text at all but its powerful illustrations create a story of discovery. I have a special affection for this one because I see myself on that story and later I offered it to a friend who once told me that sometimes we must make faces at the mirror to enter it and to know ourselves deeply, our sensitivity and creativity.

 

Outro livro inesquecível para mim chama-se “Selma” autora Jutta Bauer. É um livro bem pequeno mas tem dentro de si uma das maiores lições sobre o que é a felicidade, o significado do sucesso e da importância de uma vida preenchida… do que amamos fazer, seja isso o que for aos olhos dos outros.

Another memorable book for me is “Selma” by Jutta Bauer. It is the smallest book but it has one of the greatest lessons about what happiness is, the meaning of success and the importance of a fulfilled life … with what we love to do, whatever that is and whatever it may seems to others.

 

Tenho porém uma relação agridoce com um livro, mais uma vez um album, chamado “Aquário” de Cynthia Alonso. E foi porque me deixou esta sensação tão marcante que o trouxe para a minha prateleira. Por vezes temos de resolver-nos e desafiar-nos. Confesso que, até hoje ainda não fiz as pazes com ele: deixa-me algo triste mas reconheço-lhe o encanto. O livro conta sobre uma amizade entre uma menina e um peixe. Apesar de se divertirem muito pertencem a mundos bem diferentes…

I have, however, a bittersweet relationship with a book called “Aquário” by Cynthia Alonso, and it was because it left me this striking feeling that I brought it to my shelf. We sometimes have to solve ourselves and challenge ourselves. I confess that I still haven’t made up with him: it makes me a little sad but I recognize its magic.This book tells about a friendship between a girl and a fish.Though they have a lot of fun together, they belong to very different worlds…

 

Como bióloga, não pude de me deixar impressionar pelo poder do livro “A Toupeira que Queria Saber quem lhe Fizera Aquilo na Cabeça” de Werner Holzwarth. O livro conta a história de uma toupeira que aborda uma série de animais, determinada em descobrir quem foi o palerma que lhe fizera “aquilo” em cima da cabeça! Não sei se a história foi pensada com esse objectivo mas, consciente ou inconscientemente, mostra como através das características dos vestígios deixados pelos animais os biólogos conseguem estudar a presença e distribuição de espécies mesmo quando é difícil observá-los.

As a biologist, I could not help myself to not be impressed by the power of the book “The Story of the Little Mole Who Knew it Was None of His Business” by Werner Holzwarth. The book tells the story of a mole approaching several animals determined to find out who was the fool who did “that” over her head. I don’t not know if the story was intended for this purpose but, consciously or unconsciously, it shows how biologists can study the presence and distribution of species through the traits left by animals when it is very difficult to observe them.

 

Este Alce é Meu” de Oliver Jeffers é um livro que nos devolve à nossa pequenez. Temos uma tendência para achar que somos donos de tudo. Mais, que somos donos de alguém e que podemos mudar-lhes ou afinar-lhes os hábitos, os gostos, as relações… Há um certo egocentrismo, um poder ilusório, como uma fantasia de carnaval, que não é mais que isso, um disfarce, e que nos magoa mais cedo ou mais tarde. Felizmente, o livre arbítrio e a individualidade genuína é inevitável e, para quem tiver essa abertura, é das coisas mais belas que há. O ideal é que, em vez de possuir, nos deixemos cativar.

This Moose Belongs to Me” by Oliver Jeffers is a book that bring us to our place. We have a tendency to think we own everything, more, that we own someone and that we can change or adjust their habits, they tastes, their relationships… There is a some kind of egocentrism, an illusory power, like a carnival fantasy, which is nothing more than this, a disguise, and that hurts us sooner or later. Fortunately, free will and genuine individuality is inevitable, and for those who have this openness it is one of the most beautiful things there is. Ideally, instead of possessing, let us be captivated.

 

Foi recentemente que conheci “Uma Aventura debaixo da Terra” de Mac Barnett. É sobre uma dupla de amigos que quase, quase a encontrar um tesouro aventura-se noutra direcção. É um pouco sobre o acaso, o destino mas também de como a mente leve e desprendida nos permite viver verdadeiras aventuras e encontrar os melhores tesouros.

It was recently that I met Mac Barnett’s “Sam and Dave Dig a Hole”. It’s about a pair of friends that almost, almost found a treasure but, every time they were approaching it, they venture in another direction. It is a little about chance and fate but also how a light and detached mind allows us to live true adventures and find the best treasures.

 

Por fim queria falar-vos de “Vazio” de Catarina Sobral. Mais uma vez é um album e sem vergonha digo-vos que me trouxe as lágrimas aos olhos. Quantas vezes sentimos que somos diferentes e que não há lugar para nós? Sentimos-nos vazios. Tudo nos preenche mas apenas temporariamente… Só quando encontramos uma alma igual, seja ela no amor ou nas amizades, é que ficamos cheios!

E sim, podia prolongar-me indefinidamente. Acho que amanhã vou à biblioteca, alguém alinha?

The last but not the least, I wanted to share “Vazio” by Catarina Sobral, a portuguese author. Once again it’s a silent picture book (so you don’t have to worry about the Portuguese language!) and I tell you that it brought tears to my eyes. How often do we feel that we are different and that there is no place for us? We feel empty. Everything that fills us seems only temporary… It’s when we find an equal soul, in love or in friendship, that we feel full!

And yes, I could go on indefinitely. I think I’m going to the library tomorrow, who’s in?

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A few of my favourite things: singing

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Este é o segundo post na serie “A few of my favorite things”. Para quem lê, é possível imaginar que há uma ordem de preferências nestes posts. Claramente não há, nenhuma. Talvez haja, isso sim, momentos para o post certo. E hoje é o dia certo para este.

Uma das minhas coisas favoritas é cantar. Cantei toda a minha vida. Tenho duas cassetes cheias de gravações das minhas cantorias aos 3, 4 anos de idade. Depois cantei anos a fio num pequeno coro de crianças. Mais tarde, no fim da minha adolescência, fui convidada por uma amiga para uma audição. E sem dar por mim, comecei a cantar de forma mais séria num grande coro que responsabilizo totalmente por me ter oferecido um mundo novo. Desde esse momento, já se passaram mais de 12 anos, alguns outros coros pelo meio, e hoje posso dizer que cantar é do melhor dos meus dias.

Eu sou uma introvertida: se falar é difícil, quanto mais cantar? Os introvertidos são famosos por terem dificuldades em expressar-se por palavras, em trabalhar em grandes grupos e assumir lideranças… o que, desenganem-se, não significa que não consigam fazer, e sem igual ou comparação, todas essas coisas. Talvez precisem de estratégia! Uma delas, garanto-vos, é ter momentos contínuos de desafio… mas com risco pequeno. Como para toda a gente, esses momentos são importantes para criar equilíbrio, autoconfiança, determinação e uma sensação de expansão interior. Dar espaço para esses momentos é fundamental para nos prepararmos para os grandes riscos que a vida nos propõe. Porque um introvertido vai preparar-se sempre para fazer bem, nunca para menos.

Ora eu tenho a sorte de cantar. De cantar num coro onde nunca senti o peso das minhas limitações, onde o pouco que dou é ouro, sempre ouro. E onde por causa disso eu me desafio ensaio após ensaio, sem abrir excepções. Onde gravaram em mim o sentimento de ser, como todos, absolutamente essencial. Onde aprendi mais do que imaginei conquistar, onde cresci muito para lá do tamanho da minha altura, onde me conheci e constantemente me superei e surpreendi! Onde sem dar conta, me fui deixando partilhar como coralista e como pessoa. Onde me assaltaram, desprevenida, com amizades para a vida. Onde o lema é nunca ferir os sonhos e sentir, deliberadamente e sem constrangimentos, as fantasias que a música cria cá dentro. Eu fico “na zona” e o tempo distorce-se bem ao jeito da teoria da relatividade, essa que os corações sempre souberam existir aguardando simples e pacientemente que um espírito aberto a descobrisse e a formulasse com números e letras.

Cantar em coro é para mim uma forma gratificante de criar algo com e para o resto do mundo… Mas cantar entre amigos, ah, como é intenso! Transmite uma lealdade e confiança que o dia-a-dia não assegura. Que nenhuma conversa, nenhum abraço substitui. Cultiva arrepios conjuntos, calores concertados, silêncios a oito vozes, segredos suspensos e sorrisos cúmplices. E cria aquele lugar elementar onde os sentimentos se expressam sem sobrecarregar as palavras, dando-lhes o descanso necessário para as usarmos como ferramentas nos desafios de todos os dias. Afrouxa-nos os nós, restaura uma nostalgia saudável, pulsa emoções esquecidas. Despe-nos, deixa-nos complacentes, tolerantes. E por ironia das nossas vidas tão preenchidas mas tão pouco vividas, para isto, basta um punhado de gente munida das duas cordas vocais com que a natureza nos presenteou. A palavra que, com isto, estou a tentar definir é “arrebatador”.

 

This is the second post of the serie “A few of my favourite things”. You may imagine that there might be some kind of preference in the order of the posts. Clearly there isn’t. Maybe, however, there are proper moments for the right post. And today is the day for this one.

One of my favourite things is singing. I sang all my life! I have two cassettes full of homemade recordings of my songs when I was 3 or 4 years old. After that, I sang for years in a small children choir. Later, at the end of my adolescence, I was invited by a friend to an audition. And without knowing exactly how, I began to sing more seriously in a big choir that I totally blame for offering me a completely new world. Since that time, more than 12 years have passed, I joined some other choirs in between, and today I can say that singing is the best of my days.

I’m an introvert: if talking could be difficult, what about singing? Introverts are known for having difficulties expressing themselves in words, working in large groups and taking leadership… which, don’t fool yourself, does not mean that they can’t do all those tasks extremely well. Maybe they just need strategy! One strategy, I assure you, is to have continuous (but small) moments of challenge. As for everyone, these moments are important to create balance, self-confidence, determination and a sense of inner expansion. Making room for these moments is fundamental to prepare ourselves for the great risks that life presents us everyday. Because an introvert will always, always prepare himself to do something “very well”, never less.

Well, I’m lucky enough to sing! I’m lucky to sing in a choir where I never felt the weight of my limitations, where the small things I give are simply gold, always gold. And where, because of this, I challenge myself rehearsal after rehearsal without making exceptions. Where people impressed on me the feeling of being, as every other member, absolutely essential. Where I learned more than I imagined conquering, where I grew much beyond the size of my height, where I met myself and constantly overcame and surprised myself! Where I opened myself as singer and as a person without making it hard for me. Where I was assaulted, totally unprepared, with friendships for life. Where the motto is never hurt your dreams and feel, deliberately and without constraints, the fantasies that the music creates inside. I get “in the zone” and the time distorts just as relativity determined, that strange theory that the Human heart always knew to exist, but just waited patiently for an open spirit to discover it and formulate it with numbers and letters.

For me, singing is a rewarding way to create something with and for the rest of the world… But singing among friends, ah, how intense it is! It conveys a loyalty and confidence that daily life does not guarantee. That no conversation, no embrace replaces. It cultivates joint shivers, concerted heats, eight voices silences, suspended secrets and complicit smiles. And create that elementary place where the feelings express themselves without overloading words, giving them the deserved rest for us to use them as tools in the every day challenges. It looses the knots, restores a healthy nostalgia, pulsates that forgotten emotions. It leave us naked, complacent, tolerant. And as an irony in our lives so full but so little lived, for this, we just need a handful of people equipped with the two vocal cords that nature kindly offered us. The word I am trying to define with this is “overwhelming”.

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A few of my favourite things: painting

(scroll for the English version)

 

Já se devem ter apercebido que, de onde a onde, o cabeçalho do blog (e o do facebook) se vai modificando com uma nova mancha de cores. Esta foi a minha forma de valorizar duas coisas muito importantes para mim. Em primeiro lugar a mudança das estações e a dinâmica natural, algo que sempre quis que o blog exprimisse quer nos textos como na sua imagem. Em segundo lugar, a minha paixão pelos crafts e pela arte.
Eu sou bióloga, mas o meu amor pelas artes sempre falou tão alto cá dentro como o meu amor pela natureza.

 

Uma das minhas coisas favoritas é pintar. As aguarelas, óleos e pastel apareceram na minha vida há alguns anos atrás, numa espécie de experimentação, um hobby para distrair e alimentar o gosto por usar as mãos para exprimir.
Hoje, a pintura tem um significado maior, mais consciente: não é apenas um hobby. É a criação de uma memória. Se há algo que nos pode ultrapassar, mais do que a profissão que fazemos todos os dias ou o dia-a-dia, aquilo que, mais do que nós, perdura é o que deixamos feito. É esse o segredo, o elixir, para a imortalidade.

 

Infelizmente estamos num mundo de escolhas. E a excelência está por trás de uma dedicação algo doentia por essas mesmas escolhas: uma exclusiva dedicação a uma profissão, que é a única coisa que nos permitimos que tenha tanta importância como a família. As duas grandes torres instituídas: família e o trabalho. Assim escrito parece até redutor.
Ora, há uns tempos atrás ouvi um podcast, precisamente sobre fazer escolhas e sobre dizer “não” num mundo em que é muito mais fácil (e agradável) dizer “sim”. O objectivo do podcast era desmistificar a ideia de que dizer não é fechar uma porta. Porque não é… é poder escolher que tipo de porta se quer fechar, ao pormenor e, por outro lado, permitir abrir outras. Dizer “não” também é dizer “sim”. Dizer “não” é criar possibilidades. Se eu não alimentar este amor por criar? Se eu lhe disser não por ter dito sim a algo que não amo? Se for aos poucos fechando essa porta, discretamente, para não ter de admitir a minha escolha? Não ficarei repetidamente em frente a essa porta fechada, com vontade de escutar de ouvido colado à madeira ou de espreitar pela fechadura, sempre que passar por ela?

 

Lembrei-me de uma frase de um amigo: “só temos uma vida”. Caramba, parece frase feita mas é uma grande verdade… e a vida que temos está limitada por todos os lados. E essas são “escolhas” que não pudémos fazer. Face à imensidão do tempo, o período durante o qual vivemos é insignificante, face à imensidão do espaço, o “pale blue dot” a que chamou Carl Sagan à Terra onde moramos é infinitamente pequeno, face à originalidade da vida (o nosso ADN é o único) tudo o que não fizermos ficará por fazer porque ninguém mais o fará de igual maneira, ninguém. Esta vida é tudo o que temos, é a oportunidade de ouro para experimentar tudo aquilo que o coração mandar, para lá das escolhas que a nossa vida em sociedade determina. As exigências da vida contemporânea são grandes, e sinto-me sempre inexperiente quando deparada com um desafio. Por mais que tenha estudado, por mais títulos académicos que tenha, por mais funções importantes que desempenhe, vou sempre sentir-me insuficiente, vou sempre sentir que é um grande risco. Mas quando tenho um desafio desses, é precisamente na arte que encontro refúgio e orientação: é então que penso nas telas e papeis que começam em branco e que eu vou, aos poucos, preenchendo, calmamente, sem pressas nem obrigações, e acabo sempre por admirar-me com as minhas próprias capacidades. É uma experiência extraordinária e uma grande lição de vida. É uma porta que não quero fechar.

 

A partir de hoje para além das séries de posts nas quais tenho já vindo a trabalhar (Book Reviews, Creative Trips e Crafts on the screen), vou publicar uma mão cheia de posts sob o título “A few of my favorite things”. Entretanto, contem sempre com novas manchas de aguarela a preencher o blog de onde a onde. Talvez esta seja mesmo a minha imagem de marca.

 

You should have noticed that, here and there, I change the blog header (and that of Facebook) with a new watercolor blur of colors. This was my way of valuing two very important things for me. In the first place the changing seasons and the natural rhythms, something that I always wanted the blog to express both in the texts as in the image. Secondly, my passion for crafts and art.
I am a biologist, but my love for arts has always spoken as loudly inside me as my love for nature.

 

One of my favourite things is painting. Watercolors, oils and pastels appeared in my life a few years ago, as a kind of experimentation, a hobby to distract and nourish my willing for using my hands to express something.
Today, painting has a greater, more conscious meaning: it is not just a hobby. It is the creation of a memory. If there is something that can overtake us, more than the job we do every day or our daily life, that, more than ourselves, endures, is what we make. This is the secret, the elixir, for immortality.

 

Unfortunately we are in a world of choices. And excellence lies behind a somewhat sickening dedication to those same choices: an devotion to a profession, which is the only thing we allow ourselves to be as important as family. The two great towers instituted: family and work. Somehow, it feels limited.
Well, some time ago I heard a podcast, about making choices and saying “no” in a world where it is much easier (and pleasant) to say “yes.”
The purpose of the podcast was to demystify the idea that saying no is not closing a door. Because it’s not … it’s being able to choose what kind of door you want to close, with detail and, on the other hand, to open other doors. To say “no” is also to say “yes.” To say “no” is to create possibilities. What if I don’t feed this love for create? What if I say no to something I really want just because I said yes to something else I don’t even love? If I slowly shut that door so I do not have to admit a choice? Won’t I be held in front of that closed door, eager to hear behind it or look through the keyhole whenever I pass by?

 

I remembered a phrase from a a good friend: “We only have one life.” Heck, it sounds like a catch phrase, but it’s a great truth… and the life we have is bounded on all sides. And these are “choices” we could not make.Regarding the immensity of time, the period during which we live is insignificant. Taking into account the immensity of space, the “pale blue dot” (Carl Sagan) where we live is infinitely small. Given the originality of life (our DNA is the only one of its kind) everything we don’t do will be lost forever because nobody else will do it in the same way, no one. 
This life is all we have, it is the golden ticket to a experience where our heart commands, beyond the choices that our life in society determines. The demands of contemporary life are huge, and I always feel inexperienced when faced with a new challenge. As much as I have studied, as many academic titles I could have, as more important my functions could be, I will always feel inadequate, I will always feel that making is a great risk. But when I have such a challenge, it is precisely in my painting and artsthat I found my refuge and orientation: I think of my canvases and papers that begin white and to whichI gradually add with colour, one brushstroke at a time, calmly, without haste or obligation, and I always end up surprising myself with my own abilities. It is an extraordinary experience and a great lesson in life. It’s a door I don’t want to close.

 

From now on, along with the series of posts I’ve been working on (Book Reviews, Creative Trips and Crafts on the screen), I’m going to publish a handful of posts under the title “A few of my favorite things.” Meanwhile, you can count with a new watercolor blur here and there. 
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