Thank you silence: writing on the Camino de Santiago.

Foto by Carmindo Carvalho

(scroll for the English version)

“O Caminho é sobre o tempo. A maior dificuldade que estava a sentir era ter pressa da próxima coisa: da próxima curva, da próxima seta, do próximo quilómetro, do próximo albergue. O caminho “obriga-te” a parar (…) e fazer o essencial: acordar, caminhar, comer e dormir.”

Esta foi a minha primeira entrada num pequeno caderno no qual escrevi durante o Caminho.

O meu primeiro Caminho foi uma experiência muito marcante. Eu não estava a contar, nem tão pouco estava convencida de que iria sentir alguma coisa especial. Nos primeiros dois dias não via nada a acontecer, parecia que andava à deriva, à procura de alguma coisa que simplesmente não aparecia. Entreguei-me às poucas tarefas que tinha em mãos e deixei-me levar.
O interessante de uma peregrinação de vários dias como é o Caminho de Santiago é que tem várias fases. Em primeiro lugar o caminho obriga-nos a abrandar. E até nos entregarmos de coração a ele, nada mais vai acontecer. Apenas ao terceiro dia é que comecei a sentir alguma transformação que se prolongou até ao fim de toda a jornada.

Eu fiquei com estes grandes capítulos carimbados na minha memória e, para além de alguns episódios muito particulares, dignos de realce, há muito que é filtrado pelo cérebro e fica esquecido… Por isso posso dizer que a coisa mais importante, a mais especial, que fiz durante todo o caminho foi escrever, ao fim do dia, um pouco sobre cada uma das etapas. Eu não quis escrever sobre o que me trazia ali nem desabafar, novamente, as minhas desventuras (todos temos algumas). Disso já tinha escrito que chegue aqui e ali, e as desventuras era o que eu queria deixar para trás, eventualmente escrever e desfazer-me disso. Para mim, o mais importante era criar coisas novas, viver o momento e ser positiva. Mas eu não levei quaisquer expectativas, por isso, mais do que tudo eu queria chegar ao fim do dia e aperceber-me, tomar consciência do que havia recebido diariamente e escrevê-lo. Hoje, este pequeno caderno (também ele feito à mão por alguém) é das coisas mais preciosas na minha estante e de cada vez que leio uma das suas páginas vejo-me mergulhada em sentimentos, em autênticos revivalismos que me levam, por momentos, de volta para esta experiência tão especial. E a prova de que a relatividade existe é que eu acho que, se fechar os olhos, posso mesmo voltar lá… ouvir os mesmos sons, ver o mesmo verde, sentir a mesma adrenalina e amar da mesma forma os meus companheiros de viagem. Está tão integro, não precisei de riscar nada, fazer emendas. Não mudaria uma única palavra, nem as frases de lugar. Admiro-me como saiu tudo tão natural, como se a minha cabeça tivesse organizado aquele texto há muito tempo e apenas estivesse à espera do momento de o escrever. Dá até vontade de o transcrever, na íntegra, aqui!

Há um episódio que não precisaria de escrever mas que, se não tivesse escrito, não teria sequer acontecido e que está intimamente relacionado com esta necessidade humana de assentar ideias, recolher e viver a introspecção. Ao fim da terceira etapa, em Pontevedra, depois de chegarmos, de nos instalarmos no albergue, descansarmos e passearmos um pouco pelo centro, regressamos com mantimentos e alguma vontade de usufruir dos espaços comuns no albergue. Estávamos cansados e a relação com os outros peregrinos já era muito familiar. Estar no albergue, fosse qual fosse, era estar em casa. Como não havia tomadas nas camaratas, deixamos os telefones e baterias a carregar na sala comum que tinha 3 grandes mesas corridas. Para que os meus companheiros pudessem descansar um pouco mais, disponibilizei-me para ficar na sala, com a ideia de aproveitar aquele momento (ainda com pouca gente) para escrever e ir tomando conta dos nossos pertences. Não estive mais do que 10 minutos sozinha, momento que aproveitei para rever mentalmente o dia, pegar no guia e analisar a etapa seguinte. Eles acabaram por se juntar a mim (há alguma coisa que nos liga…) e momentos depois a Cacá e o Vitor também. Escusado será dizer que não comecei a escrever… ficamos ali a conversar sobre cada um de nós, sobre temas leves mas também de alguns bastante profundos e, sem que nos apercebêssemos, muito ligados à essência da peregrinação.

A Cacá era a primeira a ir dormir, ainda o sol raiava. E antes de jantarmos eu alertei! “Bom, aproveito o recolher da Cacá e vou para ali escrever, que era o que tinha em mente quando aqui cheguei antes de vocês me desviarem com as vossas conversas tão boas e tão interessantes!” E desloquei-me para uma das outras mesas corridas que, depois de ter recebido muitos peregrinos a fazer as refeições, ficara completamente vazia.
Sentei-me sozinha, abri o meu caderno e comecei a debitar, a escrever intensamente. Durante uns 20 minutos eu não levantei sequer a cabeça, estava completamente imersa nos meus pensamentos, nas memórias, ainda frescas, do dia, no rolar da minha caneta BIC naquele papel macio. Aquele tempo transportava-me dali e levava o meu espírito.
A certa altura o pensamento, que parecia estar ansioso para ser escrito, aliviava-se um pouco e eu pousei a caneta por um momento, levantei a cabeça e olhei em frente… Os segundos que se seguiram foram de plena surpresa. Sentados à minha volta, naquela que havia sido uma mesa vazia no momento em que me sentei, estavam outros peregrinos que escolheram a minha silenciosa, e de certa forma distante, companhia para… escrever! As lágrimas vieram-me aos olhos e a partir daquele momento, nunca mais me senti, nem tão pouco fiz para estar sozinha. Olhei o meu caderno e a única caneta que tinha trazido comigo, agradeci a sorte de ter aprendido a escrever e pensei o que teria perdido se tivesse trocado aqueles dois objectos por mais uns minutos de Wi-fi. Fiquei ali mais algum tempo, a escrever mas sobretudo a espreitar pelo canto do olho os movimentos daquela pequena comunidade que, de certa forma, eu havia iniciado naquela mesa. Uns desenhavam de memória, de fotografia ou abstratamente, acompanhavam isso com palavras, trocavam canetas e havia até quem tivesse trazido e emprestasse com entusiasmo um pequeno, mas na aquele contexto extraordinário, conjunto de lapis de cor! Nós somos um bicho social e para isso não temos de ser extravagantes, apenas fieis às nossas convicções. Não há um único caminho e não há que ter vergonha de escolher o nosso nem temos de ficar embaraçados por “sermos diferentes”. Quase certamente que em nenhum deles estaremos sozinhos. Haverá mais corajosos que, mesmo sem não nos conhecerem completamente, partilharão vontades e quererão “escrever” esse Caminho ao nosso lado.

“E o nosso andar modifica-se, ainda estamos leves, sentimos uma certa nostalgia, uma vontade enorme de voltar, como se carregássemos carinhosamente e felizes o maior segredo do mundo.”

Foto by Carmindo Carvalho

“The Camino is about time, the biggest difficulty I was feeling was being to anxious for the next thing: the next turn, the next arrow, the next kilometer, the next albergue. The Camino “compels you” to stop and do the essential: wake up, walk, eat and sleep.”

This was my first entry on a small notebook I wrote in during the Camino.

My first Camino was a very remarkable experience. I was not counting on it, I was not convinced that I would feel anything special to be honest. For the first two days nothing happened, I seemed to be drifting, looking for something that simply did not show up. It’s ok. I was not worried. I focused on the few tasks I had in hand and let myself go with the flow.
The interesting thing about a pilgrimage of several days as it is the Camino de Santiago is that it has several phases. In the first phase the Camino forces us to slow down. And until we give ourselves to it interelly, nothing more will happen. It was only on the third day that I began to feel some transformation that lasted until the end of the whole journey.

These big, phases or chapters, are stamped in my memory but, with exception of some particular episodes, worthy to remember forever, much of it is filtered by our brains and is forgotten… How sad! So I can say that the most important thing, the most special, which I did all along the Camino, was to write, at the end of each day, a little about each journey. I did not want to write about what brought me here or about my misfortunes (we all have some). I had already written about my motivations here and there, and about my the misfortunes… well, that was what I wanted to leave behind! Eventually write about them and get rid of it. For me, the most important thing was to create new things, live the moment and be positive. But I didn’t have any expectations, so most of all I wanted to get to the end of the day, become aware of what I received daily and write it down. Today, this small notebook (also handmade by someone) is one of the most precious things on my bookshelf and every time I read one of its pages I find myself immersed in the same feelings, authentic flashbacks that take me back to this very special experience. And the proof that relativity exists is that I think that if I close my eyes, I can even go back there… to hear the same sounds, to see the same green, to feel the same adrenaline and to love my fellow travelers in the same way. It’s so complete, I did not have to scratch anything, make amends. It would not change a single word, nor the place of the sentences. I wonder how it all came out so naturally, as if my head had arranged that text a long time ago and was just waiting for the moment to write it on paper. It even gives me the desire to transcribe it, entirety, for you to read it here!

There is an episode that I would not need to write to remember but if I had not written it, it would not have even happened. And it is intimately related to this human need to settle ideas and live the introspection.
At the end of our third stage, in Pontevedra, after arriving, settling in the albergue, resting and walking around a bit, we return with some food supplies and some willingness to enjoy the common spaces in the albergue. We were tired and the relationship with the other pilgrims was already very familiar. Being at the albergue, wherever it was, was being home. As there were no outlets in the sleeping rooms, we left our phones and batteries charging in the common room which had 3 large tables. So that my fellows could rest a little more, I made myself available to stay in the common room. I was expecting to take advantage of that moment (still with few people in the room) to write and to take care of our belongings while charging. I was alone for just 10 minutes, which I took to mentally review the day, take my guide and analyze the next journey. They ended up joining me (there is something that connects us …) and moments later Cacá and Vitor joined us as well. Needless to say, I did not begin to write… we stayed there to talk about each one of us, about common themes but also on some very deep ones and closely linked to the essence of the pilgrimage.

Cacá was the first to go to sleep, the sun was still shining. And before supper, I warned! “Well, I’ll take the moment and I’ll go there and write, which was what I had in mind when I arrived here before you took me away with your good and interesting conversations!” And I moved to one of the other tables that, after having received many pilgrims eating, was completely empty again.
I sat alone, opened my notebook, and began to write, to write intensely. For about 20 minutes I did not even lift my head, I was completely immersed in my thoughts, in my fresh memories of the day, in the rolling of my pen on that soft paper. That time carried me away from myself, it carried my spirit.
At one point the thoughts, which seemed to be anxious to be written, relieved a little, and I put down my pen for a moment, lifted my head and looked forward… The seconds that followed were are complete surprise. Seated around me, in what had been an empty table the moment I sat down, were other pilgrims who chose my silent, and in a way distant, company to… write! The tears came to my eyes and from that moment, I never felt, nor did I forced to be alone. I looked at my notebook and to the only pen I had brought with me, thanked for having learned how to write, and wondered about what I would have missed if I had exchanged those two objects for a few more minutes of Wi-fi. I stayed there for a while, writing, but also discreetly observing the movements of that small community that I had begun at that table. Some drew from memory, from photograph or abstractly, accompanied their drawings with words, exchanged pens and there was even this pilgrim who had brought a small, but extraordinary, set of colored pencils! We humans are a social animal, and for this we do not have to be extravagant, just loyal to our convictions. There is not one way and there is no shame in choosing ours nor do we have to be embarrassed by “being different”. Almost certainly we will not be alone in any of them. There will be more courageous fellows that, even without knowing us completely, will share wills and will want to “write” our Camino on our side.

“And our pace is different, we are still light, we feel a certain nostalgia, an enormous desire to return, as if we carry with affection and happiness the greatest secret in the world.”

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