Autumn walk at Serralves

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Há sítios que marcam uma vida. Seja porque os vemos repetidamente na rotina diária, seja pelos encontros com amigos, pelos passeios de namorados, pelas memórias de infância.
O jardim da fundação de Serralves marcou vários momentos da minha vida. E estou disposta a lembrar-me de todos eles!

 

Foi no jardim de Serralves que esmaguei a maior quantidade de folhas de outono da minha infância. Serralves era um passeio obrigatório no outono e a alameda dos Liquidâmbares era o meu maior objectivo, uma curta distância que demorava mais de meia hora a ser percorrida. E era um momento de contrastes: os meus pais passeavam aquela avenida a passo calmo, quase em câmara lenta, enquanto um autêntico ballet de folhas e meninos se precipitava por todos os lados como um espetáculo a 360 graus porque, entre mim e os meus irmãos, nenhuma folha do chão podia ficar intacta!
Mas era quase no fim daquele percurso pelo parque que havia o segundo grande momento de euforia. É que durante o outono, o chão do parque a sul do roseiral, perto do lugar da Oliveira, enchia-se de ouriços debaixo dos grandes castanheiros. E, mesmo sabendo que uma grande parte daquelas castanhas não estaria em condições de se comer (naquele tempo os castanheiros não eram cuidados nesse sentido), a minha mãe deixava-nos apanhá-las e eu trazia os bolsos ou o regaço do vestido cheios de castanhas que ela assava depois do jantar. Nunca lhe perguntei se ela assava realmente aquelas castanhas ou se comprava sempre algumas de reserva e, sinceramente, não quero saber porque na minha cabeça eu comia as castanhas que apanhara com as minhas mãos no mítico jardim de Serralves.

 

Depois havia a exposição dos espantalhos junto à quinta pedagógica, no campo mesmo ao lado do lugar do Tanque, na qual a minha escola primária participou com a espantalho “Bianca”, coberta dos copos de iogurte que eu, os meus irmãos e os meus colegas levávamos para o lanche! Foi um grande orgulho para nós ter uma presença activa naquele jardim, uma espécie de responsabilidade de deixar uma marca ao lado, e com a mesma importância (pelo menos na minha perspectiva), que as mais extraordinárias obras de arte presentes na casa e, mais tarde, no novo museu da fundação.

 

E foi precisamente no museu e na casa de Serralves que vi a minha primeira exposição de arte contemporânea. Se frequentemente não nos lembramos da primeira vez que fazemos alguma coisa, para mim, ver aquela exposição foi marcante. Não me lembro de autores, não me lembro de datas, mas lembro-me de quão fortes foram algumas daquelas imagens: balões gigantes, de alumínio, em forma de almofada, cheios de hélio, que cobriam o teto de uma grande sala do piso superior da casa de Serralves; um conjunto de painéis de vidro sobrepostos no chão de uma casa de banho, onde alguém deixou cair um peso gigante que, ausente, revelava como atravessara, firme, aquele conjunto de colchões de vidro criando um padrão inigualável, talvez algo estranho mas muito libertador; duas bolas, uma preta e uma branca, separadas por um espelho que mostrava como elas, na verdade, estavam ligadas e se complementavam na imagem do reflexo; um aquário com detritos, um lixo aparente, que para os mais atentos desvendava detalhes das vivências do povo durante a segunda guerra mundial… Para muitos, tudo aquilo não fazia sentido nenhum! Algumas obras nem eu entendi, mas consegui perceber-lhes uma beleza que fez a minha imaginação despertar. Não é esse o maior objectivo da arte? Podíamos pensar que seria mais interessante para uma garota de 10-11 anos fazer uma actividade “para crianças” mas qualquer experiência artística é capaz de marcar os pensamentos e personalidade de qualquer idade.

 

Não posso também esquecer os passeios de amigos que combinávamos quase como uma celebração: uma autêntica extravagância de adolescentes e jovens, ao domingo à tarde, onde não era o local em si que era apreciado mas sim as nossas relações, os momentos de conversa deitados nos relvados do parterre. E foram incontáveis os passeios de namorados dados a dois, calmamente, de mãos dadas, entre as mais profundas conversas que nos enchiam um do outro e para os quais o jardim parecia ao mesmo tempo absurdamente pequeno e necessariamente mágico.

 

There are places that leave impressions in our life, like tattoos! It can be because we see them repeatedly, in our daily routine, because of the meetings we have there with our friends, the walks as young sweethearts or the most special childhood experiences.
The garden of the Serralves Foundation in Porto, Portugal, marked several moments of my life. And I’m willing to remember them all!

 

It was at the Serralves gardens that I crushed the most amount of autumn leaves of my entire childhood. Serralves was an “must-do” walk during autumn, and the Liquidambar avenue was my main objective, a short distance that took more than half an hour to cross. And this was a moment of great contrasts: my parents walked down the avenue at a leisurely pace, almost in slow motion, while a ballet of leaves and children rushed around them in an authentic 360-degree show because, between me and my siblings, no leaf on that ground could be left intact!
But it was almost at the end of the walk through the park that the second great moment of euphoria usually arrive. During autumn, the ground at the south of the rose garden, near the place of the Olive tree, was filled of chestnuts under the great chestnut trees. And even though I knew that a great number of those nuts would not be edible (at that time the chestnut trees were not taken care for that purpose), my mother would let us pick them and I would bring the pockets or the lap of my dress full of chestnuts that she baked after dinner. I never asked her if she actually baked those chestnuts or if she always bought some just in case and, honestly, I couldn’t care less because, in my head, I was eating the chestnuts I’d picked myself at the mythical Serralves garden.

 

Then, there was the scarecrows exhibit near the farm, right next to the Tank, in which my elementary school participated with this lady scarecrow named “Bianca” that was made of yogurt cups that I, my siblings and my colleagues collected over the school year. It was a giant pride for us to have an active presence in that garden, a sense of responsibility of leaving a mark on the same place, and with the same importance (at least in my perspective), than the most extraordinary works of art present in the house, and later in the foundation’s new museum of contemporary art.

 

And it was precisely there that I saw my first exhibition of contemporary art. If we often do not remember the first time we do something, for me, that exhibition was a remarkable moment. I do not remember authors, I do not remember dates, but I remember how strong some pictures were in my mind: giant aluminum cushioned-shaped balloons, full with helium, covering the ceiling of a large room on the upper floor of the house; a set of glass panels overlapped on the bathroom floor, where someone dropped a giant weight that smashed all the glass mattresses and created an unparalleled pattern, perhaps a little strange but very liberating; two balls, one black and one white, separated by a mirror that showed that they where connected and complemented when observed through the mirror; an aquarium full of garbage that revealed details of the people’s experiences during the Second World War… For many, those art works did not make any sense! Some of them I did not understood too, but I was able see the beauty in all of them, a beauty that made my imagination wake up. Isn’t it the ultimate goal of art? We might think it would be more interesting for a 10-11 years old girl to do a “kids’ activity” but any artistic experience is able leave a mark in our thoughts and personality, at any age.

 

I can not forget the walks with friends we used to do in Serralves, almost like a celebration, an authentic extravagance of teenagers and young adults on a sunday afternoon, where we didn’t appreciate the place as much as our own relationships and the moments of conversation, lying on the lawns of the Parterre. And finally, the countless walks as lovers, quietly carried, hand in hand, among the deepest conversations that filled us with each other’s imagination, and for which the garden seemed absurdly small and inevitably magical.

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