Book Review: My guide for the Camino de Santiago

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Este mês está a ser desenhado à volta da minha experiência no Caminho de Santiago de Compostela, por essa razão, o meu “Book review” não podia ser outro senão sobre o guia que levei comigo no Caminho. Há uma enorme quantidade de livros sobre o Caminho de Santiago que visam cobrir os diferentes caminhos até Santiago de Compostela, as diversas vertentes a explorar (turística, religiosa, etc) e com diferentes profundidades. Mas apenas alguns são realmente guias…
Sendo que ia fazer o Caminho Português, consegui rapidamente reduzir esta variedade para um número mais limitado. Contudo, a diversidade continuava grande e por isso eu tive de ser prática. É muito diferente ter um guia para preparar o Caminho de outro para levar no Caminho. Pode, inicialmente parecer uma distinção absurda mas a minha experiência diz-me que um detalhe tão simples, durante o Caminho, faz toda a diferença. A maior parte dos guias são guias turísticos, tal como aqueles que levamos connosco para visitar uma cidade europeia. Estes são os melhores guias para preparamos o Caminho mas nem todos são os melhores para levarmos connosco na mochila. Um guia destes acompanhado com uma boa pesquisa on-line é a combinação ideal para quem se quer preencher de informação que o motive, que o faça apreciar mais o Caminho, que o faça entender o que está prestes a fazer.
Por outro lado, durante o Caminho, o guia, tal como muitas outras coisas que levamos connosco tem de ter as seguintes características: ser leve, pequeno, ter apenas a informação base, contactos dos albergues, espaço para alguns apontamentos, mapas das etapas, gráfico de desníveis, pontos de interesse e, acima de tudo, ser escrito por outros peregrinos. Esqueçam a ideia de que vão precisar de muita informação ou de que terão muitas oportunidades de se dedicarem a ela durante o Caminho.

O guia que, a meu ver, melhor cumpre o equilíbrio entre todas estas coisas é o guia “Caminho Português de Santiago de Compostela – MY WAY”. Este é um guia claramente informal, escrito de peregrinos para peregrinos: a linguagem é terra a terra, tal como tudo no Caminho. Não há palavras caras nem devaneios excessivos porque o Caminho é um exercício de desapego no qual todos caminhamos iguais. E o excesso de palavras e floreados também conta.
Precisamente porque não se perde com coisas extraordinárias é um guia pequeno: não pesa mais de 120g e cabe perfeitamente no bolso lateral de uns calções, calças ou no compartimento mais pequeno da mochila. Como tem um orifício, pode ainda ser pendurado por um mosquetão pequeno nos elásticos e fitas da mochila o que o torna igualmente acessível. Esta questão do peso/tamanho é imprescindível visto que o peso da mochila é das questões mais desafiantes e importantes a ter em conta para o bem-estar dos peregrinos.

O guia inicia-se com uma breve história dos Caminhos de Santiago, em especial o Caminho Português, os símbolos associados às peregrinações a Santiago de Compostela, uma série de perguntas e respostas e uma lista de material para o peregrino a pé ou de bicicleta. Daqui para a frente são apresentados os três principais caminhos em Portugal que levam a Santiago de Compostela: o Caminho de Braga, o Caminho da Costa e o Caminho Central.
Cada etapa está exposta da seguinte forma: número de quilómetros; frase de inspiração; uma breve descrição da etapa com os locais onde passa, as dificuldades a ter em conta e alguns conselhos práticos; espaço para apontamentos (eu preferi usar este espaço com post-its com conselhos de outros peregrinos); pontos de interesse ao longo da etapa por localidade; contactos de albergues e locais para comer; curiosidades; gráfico de desníveis e mapa da etapa. O livro finaliza com um pequeno guia para Santiago de Compostela, os principais “rituais” da chegada e locais a visitar.

Tudo isto parece muito pouco para quem quer explorar um local mais aprofundadamente ou entender todos os segredos da história do Caminho Português. A minha opinião é a seguinte: isso é uma coisa que se faz em casa ou nos eventuais momentos em que tivermos tempo e energia para mais. No caminho as tarefas são muito resumidas. À medida que avançamos no percurso, vemos como, na verdade, o dia do peregrino se foca num número muito pequeno de tarefas que são absolutamente essenciais: caminhar, comer e dormir… e repetir isto diariamente. É isso que o torna encantador. Há espaço para mais, claro que há… se for possível! E este tempo extra em geral é “gasto” a ajudar o corpo a recuperar, a conviver com outros peregrinos (sim, mesmo para introvertidos como eu), a reflectir e a passear um pouco pelas vilas onde estamos alojados. Se por acaso quisermos ter connosco algum material que nos permita uma consulta esporádica mais aprofundada o que eu aconselho é aproveitar as ligações wi-fi nos albergues e ter algum material digital no telemóvel do qual falarei noutro post!

This month is being developed around my experience on the Camino de Santiago de Compostela, so my “Book review” could not be other than about the guide I took with me on the Camino. There is a huge amount of books about the Camino de Santiago that cover the different routes to Santiago de Compostela, the different aspects to explore (tourism, religious, etc.) and with different depths. But only a few are true guides…
Since I was going to walk the Portuguese Camino, I was able to quickly reduce this variety to a more limited number of books. However, the diversity was still big and so I had to be practical. It is very different to have one guide to prepare the Camino than a guide to take on the Camino. At first, this may seem an odd distinction but my experience tells me that such a simple detail makes all the difference while you’re walking. Most guides are tour guides, just like those we take with us to visit an European city. These are the best guides to prepare the Camino but not all are the best to take with us in our backpack. A guide like these along with a good online research is the ideal combination for those who want to have all the information that might motivate and make us appreciate intensively the Camino in a historical way.
On the other hand, the guide you need during your pilgrimage must have the following characteristics: be light, small, have only basic information, albergue contacts, space for notes, slope graphics, points of interest and, above all, it must be written by other pilgrims. Forget the idea that you will need a lot of information or that you will have many opportunities to dedicate yourself to it during the Camino.

The guide that, in my opinion, meets the balance between all these things is the guide “Portuguese Way of Santiago de Compostela – MY WAY”. It is available in several languages: Portuguese, English, French, German and Spanish. This is an informal guide, written from pilgrims to pilgrims: the language is simple, just like everything on the Camino. There are no complicated words or excessive formality because the Camino is all about detachment, a path in which we all are the equal. And the excess of words and ornamentations also counts for this!
Precisely because the guide is base on the essencial, it is a very small guide: it weighs no more than 120g and fits perfectly in the side pocket of shorts or pants, in the smallest compartment of your backpack. As it has this hole, through it can be hung by a small carabiner on the backpack, which makes it equally accessible. This issue about weight/size is imperative since the backpack’s weight is one of the most challenging and important issues to take into account for the well-being of pilgrims on the Camino.

The guide begins with a brief history of the Camino de Santiago, especially about the Portuguese Camino of course, the symbols associated with the pilgrimages to Santiago de Compostela, a section of Q&A and a list of equipment for pilgrims on foot or bicycle. Then it explores the three main routes in Portugal that lead to Santiago de Compostela: the Camino from Braga, the Camino by the Coast and the Central Camino.
Each stage is exposed as follows: number of kilometers; inspirational sentence; a brief description of the stage with the places where it passes, the challenges to be taken into account and some practical advice; space for notes (I preferred to fill this space with post-its with some advice of other pilgrims); points of interest throughout the stage, by location; contacts of albergues and places to eat; curiosities; slope graphic and a stage map. The book ends with a short guide to Santiago de Compostela, the main “rituals” for your arrival and the places to visit.

All this might seem very little for those who want to explore a place more deeply or understand all the secrets of the history of the Portuguese Camino. My opinion is this: this is something that is done at home or at the very few times when your have the time and energy for more… That is not very common and does not worths a more complicated and heavy guide. On the Camino the everyday tasks are few. As we move forward, we see how the pilgrim’s day really focuses on a very small number of tasks that are absolutely essential: walking, eating and sleeping… and repeat this every single day. That’s what makes it special! There is room for more, of course there is … if it is possible! And this extra time is usually “spent” helping the body to recover, socialize with other pilgrims (even for an introvert like me), to reflect a bit and to take a walk around the villages where you’re are staying. If you happen to want to have some extra material that allows you a more detailed (sporadic) consultation, my I advise is to take advantage of the wi-fi connections in the albergues and to have some digital material on your mobile phone. I might be explore this in another post!

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Camino Handmade: cereal bars

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Esta não foi a minha primeira aventura em caminhada. Como já descrevi no blog, fazer trilhos e caminhadas é das minhas coisas favoritas desde sempre. No início ia artilhada com muita água e comida mas, com o tempo, consegui medir cada vez melhor aquilo que deveria levar comigo de forma a ter às costas o menor peso possível sem comprometer o meu bem estar.
Quando uma caminhada se prolonga por mais do que 3h, levo uma sandes reforçada, para almoço, acompanhada de um sumo de frutas, fruta, água, frutos secos e uma ou duas barrigas de cereais. Quando é mais pequena, limito-me à água, aos frutos secos e às barrigas de cereais.
Para o caminho de Santiago, entre as várias coisas feitas à mão que fui concretizando, resolvi investir em criar algumas barras de cereais adaptadas aos nossos gostos e que nos pudessem acompanhar durante os primeiros dias. Podia tê-las comprado, é certo, mas a meio da manhã, quando já estamos longe o bastante, quando o corpo começa a pesar, quando queremos algo que nos reconforte e nos dê ânimo para continuar, são estas pequenas coisas que nos ligam a casa e nos dão amor. É nelas que vemos a nossa capacidade de colocar mãos à obra, de sermos capazes de nos levantarmos, caminharmos, cuidarmos, proteger-nos e alimentar-nos, como qualquer outro ser vivo. Se caminhamos por nossos pés, se decidimos fazer um caminho por nossa determinação, há algo de coerente em sermos também nós a preparar alguma alimentação que nos suporte nas nossas decisões. É toda uma holística que nos devolve alguma autonomia numa sociedade que cultiva a dependência.

Hoje trago-vos uma das receitas que gosto de fazer e que resultou de uma combinação de coisas que fui experimentando ao longo do tempo:

Barras de amaranto, alperce e côco:

1/3 chávena de alperce desidratado bem picado
1/2 chávena de amaranto expandido*
1/2 chávena de manteiga de amendoim (eu uso biológica ou feita em casa)
1/3 chávena de flocos de côco desidratado
1/4 chávena de sementes de chia
1/3 chávena de sementes de abóbora
1/3 chávena de flocos de aveia inteiros
1/2 chávena de mel de flores
1 colher de chá de canela
1 colher de chá de extrato de baunilha
1 pitada de sal

*O amaranto expandido é muito difícil de comprar mas muito fácil de fazer. O amaranto é um grão semelhante à quinoa mas mais pequeno. Pode encontrar-se em lojas de produtos biológicos ou nas áreas de alimentação alternativa dos supermercados. Para o expandir basta aquecer bem o fundo de uma panela alta, como se fosse fazer pipocas (não juntar qualquer óleo ao fundo) e ir deitando lá para dentro pequenas porções (uma colher de sopa de cada vez) de amaranto. Reduzir para lume médio e ir agitando até que deixe de ouvir estalidos das pipocas de amarando a rebentar. Retiram-se as pipocas e volta a acrescentar-se mais uma porção de amaranto à panela. Repetir até obter a qualidade adequada. Com o amaranto expandido podem fazer-se excelentes barras de cereais ou as famosas Alegrías, um doce mexicano com amaranto e mel. Se presidir pode substituir por quinoa (reduzindo a quantidade para metade) e expandi-la exactamente da mesma forma.

Aquecer o formo a 125ºC/260ºF. Entretanto, juntar todos os ingredientes numa taça e envolver muito bem. Cobrir uma forma quadrada com cerca de 25-30cm (também é possível usar duas formas de bolo inglês) com papel vegetal. Colocar a mistura na forma e pressionar bem até que a superfície esteja completamente lisa. Colocar no forno, mais ou menos a meio, durante 30-40 minutos. Retirar do forno e deixar arrefecer completamente antes de desenformar. Cortar em quadrados ou rectângulos e embalar em papel vegetal. Conservar preferencialmente no frigorífico a não ser que sejam para ser comidas no espaço de 2-3 dias!

Acho que esta é uma receita que pela sua suavidade é aceite por maior parte dos paladares. Foi uma excelente companhia no caminho e é um excelente snack para a próxima caminhada!

This was not my first adventure in hiking. As I described sometime ago, walking or hiking is one of my favorite things since ever! When I started, many years ago, I was crawling with lots of water and food, but over time I was able to measure what I should take with me in order to keep the weight of my backpack as low as possible without compromising my well-being during the trail.
When a trail lasts more than 3 hours, I take a reinforced sandwich for lunch, accompanied by a fruit juice, fruit, water, nuts and one or two cereal bars. When it is smaller, I confine my snacks to water, nuts and cereal bars.
For theCamino, among several handmade items that I have done, I decided to create some cereal bars adapted to our tastes that could be the perfect snack for the first two or three days. I could have bought them, of course, but by mid-morning, when we’re far enough away from villages, when the body begins to weigh, when we want something that comforts us and gives us the courage to continue, it’s these little things that bind us to home and give us love. It is through them that we see our ability to get to work, to be able to get up, walk, care, protect and feed ourselves, like any other living being. If we walk on our feet, if we decide to make a path for our determination, there is something coherent about also preparing some food that supports us in our decisions. It is a holistic view that gives us some autonomy in a society that cultivates dependency.

Today I bring you one of the recipes I like to make and that resulted from a combination of things that I have been experimenting with over time:

Puffed amaranth, apricot and coconut bars:

1/3 cup finely chopped dried apricot
1/2 cup of puffed amaranth *
1/2 cup peanut butter (I use bio or made at home)
1/3 cup dried coconut flakes
1/4 cup chia seeds
1/3 cup pumpkin seeds
1/3 cup oats
1/2 cup of honey
1 teaspoon cinnamon
1 teaspoon vanilla extract
1 pinch of salt

* Expanded amaranth is very hard to buy but very easy to make. Amaranth is a grain similar to quinoa but smaller. It can be found in organic food stores or in the alternative food areas of supermarkets. To expand it, simply heat the bottom of a tall pan, as if making popcorn (do not add any oil to the bottom) and pour in small portions (one tablespoon at a time) of amaranth. Reduce to medium heat, cover the pan and shake it until you no longer hear any popping from the amaranth grains. Remove the puffed amaranth to a bowl and add another portion of amaranth to the pan. Repeat until you get the amount of puffed amaranth you need. Using puffed amaranth you can make excellent cereal bars or the famous Alegrías, a Mexican sweet made with amaranth and honey. If you want you can substitute it with quinoa (reducing the amount by half) and puff the quinoa it in exactly the same way.

Heat the oven to 125ºC / 260ºF. Meanwhile, combine all the ingredients in a bowl and mix well. Cover a square tin with about 25-30cm (it is also possible to use two English cake tins) with greaseproof paper. Put the mixture in the tin and press well until the surface is completely smooth. Put it in the oven, in the middle, for 30-40 minutes. Remove from the oven and let it cool completely. Cut into squares or rectangles and pack them in greaseproof paper. Store preferably in the refrigerator unless they are to be eaten within 2-3 days!

I think this is a recipe that, by its softness, is accepted by most of the people. It was a great company on the Camino and is a great snack for your next hike!

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Camino de Santiago: no expectations.

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Já falei aqui antes sobre a pergunta “porquê?”. Mas confesso que a primeira questão que me colocaram foi “quais as tuas expectativas?”
A minha resposta foi tão honesta quanto possível: “eu não tenho expectativas.”
Em troca recebi um nariz torcido. “Como assim? Vais andar quilómetros a pé sem teres nada em mente? Não é coisa que se faça apenas por fazer… Tens de ter algo para te guiar!”

Hoje em dia há uma certa confusão entre objectivos e expectativas, é certo. Porque eu nunca disse que não tinha objectivos. Em princípio todos temos objectivos: é isso que nos faz tomar decisões em vez de ir apenas na maré. Expectativas são uma consequência de compromisso e, por isso, habituei-me a tê-las para aquilo que depende apenas do meu próprio esforço e dos que me amam como a família e amigos de coração… nunca para algo que não posso controlar. Já o fiz, e não foi bom.
Quantos de nós esperávamos que o nosso dia de aniversário fosse “aquele dia” e, em vez disso, tivemos direito a um dia chuvoso, cheio de trabalho no qual todos pareciam fazer o frete de vir dar-nos os parabéns e ainda levamos um ralhete do chefe que até estava mal disposto? E o trânsito que ficou ao fim do dia? E o bolo que ainda vamos ter de fazer ao chegar a casa? Que grande chatice…

Não quero com isto dizer que não possamos sonhar, mas exigirmos isso como “real” faz-nos ficar frustrados com qualquer outra coisa que apareça em sua substituição. Mesmo que seja igualmente boa, não é o que imaginamos… Quando procuramos muito uma coisa perdemos a noção de tudo o resto porque estamos focados apenas nela. Se o olho humano tem visão periférica, saibamos aproveitá-la quando há oportunidade para isso já que estamos, hoje em dia, em modo constante de focagem automática.

O Caminho é um desafio mental, físico, social, emocional e espiritual… Pode não ser todas estas coisas ao mesmo tempo para todos os que o fazem mas, invariavelmente, batemos de encontro a pelo menos duas ou três destas coisas.
Atracar isso a ter dias solarengos, dias de isolamento total, dias completos no meio da natureza, noites dormidas profundamente por força do cansaço, dias de mudança de vida, de fazer amigos de todo o mundo, de comer bem, de resolver relações amorosas, de resolver problemas do trabalho, de despertar, de voltar outra pessoa, de encontrarmos resposta para a nossa relação com Deus ou outras missões que tais, e sobretudo em condições tão desafiantes, é puxar a corda. É não facilitar a vida a ninguém. É não ser amigo de nós próprios. É criar frutrações numa experiência que é suposto ser vivida e não apenas cumprida.
Se o caminho é facilitador em alguma coisa é em deixar cair tudo isto. É uma questão biológica: nenhum de nós fica preocupado com o aquecimento global enquanto tiver fome, sede, frio, sono, cansaço e uma enorme vontade de ir à casa de banho. Há prioridades. Enquanto as necessidades básicas não estão supridas, nada mais importa. Está nos genes, felizmente, porque é uma questão de sobrevivência. Não podemos simplesmente escolher.

Por esta razão, eu quero ir sem expectativas. Quero ficar aberta, isso sim, ao que vier: ficarei animada se houver dias de sol; para alguém tímido como eu, poder ficar isolada alguns minutos por dia seria uma benção; seria óptimo se pudesse realmente dormir acampada perto de um charco sem o ressonar do peregrino da cama do lado ou adormecer à luz das estrelas; seria excelente vir com certezas sobre o meu futuro ou deixar os medos de parte; comeria com prazer, estaria com Deus a cada segundo e fortaleceria as minhas relações com os meus companheiros de caminho… Mas não posso controlar nenhuma destas coisas, sobretudo se estiver ocupada em gerir o cansaço, em comprar algo para comer que preencha as minha necessidades metabólicas ou a tentar encontrar um local onde pernoitar.

Ficar aberta é receber o que vier, é ficar atenta, é ver nas pequenas coisas as maiores maravilhas do mundo, é ficar emocionada com o canto de uma ave, é ter um sorriso cúmplice com outros peregrinos, é compreender outras culturas que se cruzam comigo, é estar à distância de um simples “olá” e perceber que afinal eu até preciso de falar de vez em quando (porque, sejamos sinceros, quando não há trabalho, não há ensaios, não há livros, projectos handmade, hobbies, quando há quilómetros pela frente, sem tablet, televisão, pipocas, sofá e um filme, sem internet, quando a energia e os dados são limitados e estamos rodeados das mesmas pessoas 24h por dia… nós acabamos por falar, e falamos de coisas fascinantes!). Ficar aberta é conhecer a força interior, é perceber o valor das coisas que temos, é criar espaço para filosofar sem vergonha, é receber de braços abertos, é perceber que alguém precisa da nossa mão. É conhecer para amar melhor.
Todas estas coisas podem, isso sim, levar a experiências maravilhosas e inesquecíveis… sem haver a obsessão com nenhuma que nos feche os olhos a tudo o que se passa à nossa volta.

Normalmente vivemos convencidos de que sabemos exactamente o que precisamos. A maior parte das vezes não é verdade. A maior parte das vezes o que acontece é que não nos damos o espaço para ouvir o nosso corpo e a nossa alma pedirem… E raramente o sabemos até fazermos a seguinte experiência: dar-nos um momento e ver o que o corpo e alma absorvem. É disso que temos sede.

Estas fotografias foram tiradas na albufeira do Azibo, numa das últimas caminhadas que fiz como treino para o Caminho de Santiago. These photos were taken in albufeira do Azibo, Portugal,  during one of my last hiking trails as training to the Camino de Santiago.

 

I have already wrote about the question “why?”. But I confess that the first question someone ever made me was “what are your expectations on the Camino?”
My answer was as honest as possible: “I have no expectations.”
I got a twisted nose from the person that asked. It’s ok… “How? Are you going to walk miles without having anything in mind? It’s not something you do just go for… You have to have something to guide you!”


Nowadays there is a certain confusion between goals and expectations, that’s for sure. Because I never said I had no goals. Usually we all have goals: this is what makes us take decisions instead of going in with the tide. Expectations, on the other hand are a consequence of commitment, and so I became used to having them only for what depends only on my own effort and those who love me as family and friends at heart… rather on something I can not control. I already did, and it wasn’t nice.
How many of us expected our anniversary to be “just as we imagined” and, instead we got that rainy day, full of work in which everyone seemed to make the a huge effort to congratulate us or had a bad meeting with our boss? What about the traffic at the end of the day? What about the cake we still have to make when we get home? What a mess…

I do not mean by this that we can not dream, but to think about it as “must be” makes us frustrated by anything else that appears in its place. Even though it is equally good, it is not what we have imagined… When we look for one specific thing, we lose the notion of everything else because we are focused only on it. If the human eye has peripheral vision, let us take advantage of it when there is opportunity for it, since nowadays, we seem to be in a constant mode of autofocus.

The Camino is a mental, physical, social, emotional and spiritual challenge… It may not be all these things at the same time for all who walk the Camino but, invariably, we hit against at least two or three of those things.
Think about the Camino as an amount of sunny days, days of total isolation into nature, great nights of sleep through exhaustion, life changing moments, days about making friends from all over the world, about great food, about solving romantic relationships, solving problems at work and came back to another person, clear our relationship with God, with ourselves or other types of “missions” in such challenging conditions… come on, is to be out of line! This is just not making life easier for anyone. It is not being friends with ourselves. It is to create frustration about an experience that is supposed to be lived and not just performed.
If the Camino is a facilitator in something is on dropping all this. It’s a biological issue: none of us are worried about global warming as long as you are hungry, thirsty, cold, sleepy, tired, and a huge urge to go to the bathroom. These are priorities. While basic needs are not met, nothing else matters. It’s in the genes, fortunately, because it’s a matter of survival. We can not just choose.

For this reason, I wanted to go on the Camino without expectations. On the other hand I wanted to be open, yes, to whatever comes: I will be happy if there are sunny days; for someone shy like me, being able to be isolated for a few minutes a day will be a blessing; if I could actually camping near a pond without the pilgrim’s snoring from the bed on my side and fall asleep under the starry sky it would be nice; it would also be great to come back with certainties about my future or leave the fears aside; I would eat with pleasure, I would be with God every second and strengthen my relationships with others… But I can not control any of these things, especially if I am busy managing fatigue, buying something to eat that fulfills my metabolic needs or trying to find a place to stay overnight.

To be open is to accept what comes, to be attentive, to see great stuff in the small things the, is to be moved by the song of a bird, to trade a smile with other pilgrims, to understand other cultures that cross us, is to be as distant from someone as a simple “hello”, and realize that, after all, even I need to speak from time to time (because, let’s face it, when there is no work, there are no tasks, no books, handmade projects, hobbies, no tablet, television, popcorn, sofa and movie or the internet, when energy and data are limited and we are surrounded by the same people 24 hours a day… we end up…talking! And we talk about fascinating things. Be open is knowing our inner strength, to realize the value of the things we have, to create space to philosophize without embracement, to receive with open arms and feel like we deserve it, to realize that someone needs our hand. Is to know how love better.
All these things can lead to wonderful and unforgettable experiences… and are out of any of our expectations.

Usually we live convinced that we know exactly what we need. Most of the time this is not true. Most often what happens is that we do not give ourselves the space to listen to our body and our souls to ask… And we rarely know until we do the following experience: give us a moment and see what the body and soul absorb. This is what we are thirsty for.

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Camino handmade: Scalop

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Eu prometi que o meu caminho tinha de ser feito à minha maneira e um dos pesos que foi na minha balança foi a questão da criatividade que é um dos temas explorados neste blog. E é aqui que entra, entre várias coisas, a minha vieira.

Se há símbolo que identifica os peregrinos a Santiago de Compostela é a vieira.
Hoje é possível encontrar vieiras grandes, bonitas, muitas vezes com a pintura da espada de Santiago a vermelho e que são comuns entre os peregrinos. Eu não ia comprar nenhuma vieira mas dois amigos que fizeram o Caminho algumas semanas antes surpreenderam-me com uma com as características que referi acima. É linda e tem o significado associado à amizade daquelas duas pessoas!

Mas eu não levei uma mas sim duas vieiras. A segunda foi “feita” à mão, por mim.
Bom, idealmente eu apanharia conchas de vieiras na praia…! É uma perspectiva muito romântica mas isso não é um acontecimento regular por aqui sobretudo porque eu queria arranjar vieiras para mim, para os meus companheiros no Caminho e para os amigos que fariam o Caminho antes de mim. Claro que medi as minhas idiossincrasias e cedi à opção mais próxima do ideal: arranjei-as localmente, nos pescadores em Matosinhos. Estas vieiras têm o seu caracter. São mais pequenas e por isso parecem concentrar em algo frágil alguma magia. Não são perfeitas, tal como nós: umas têm manchas no interior, outras têm as abas partidas, mas a verdade é que todas são especiais e todas me atraíram a atenção.

A primeira coisa que tive de fazer foi um furo em cada uma delas para poder enfiar um cordel que me permitisse prendê-las às mochilas. Como o material é frágil, optei por usar uma antiga broca manual do avô Artur e ainda o jeito do Carlos para a utilizar!

Depois, em casa, testei a absorção de vários tipos de tinta em conchas que apanhei na praia e aventurei-me a pintar as vieiras com aguarela, que é também uma técnica que se vem cruzando comigo em momentos e locais especiais.
Não queria um desenho definido, apenas manchas como as que faço regularmente para o blog, com as cores que gostaria de levar no coração. Por fim, escolhi um cordel de algodão e as vieiras ficaram prontas a pendurar!

A experiência foi muito interessante e o resultado lembra-me constantemente a vertente criativa que pesava na minha balança. Além disso sinto que foi um pequeno passo que já fazia parte desta grande caminhada. Por fim, sendo eu um bocado “galinha”, o facto de arranjado vieiras para outros peregrinos também me uniu, de certa forma, ao seu caminho e ofereceu-lhes um pouco do amor, apoio e protecção que um bom amigo espera oferecer.

 

I promised that I would walk my Camino my way! And one of the weights that was on my scale was the issue of creativity, that is one of the themes explored on this blog. And this is where my scallop comes in, among other things.

If there’s a symbol that identifies the pilgrims to Santiago de Compostela is the scallop.
Today it is very common among pilgrims some beautiful, large scallops, with the symbol of Santiago’s sword painted in red. I was not going to buy those scallops but two friends of mine, who walked the Camino a few weeks before me, surprised me with one of those scallops. It is beautiful and has the meaning associated with the feelings I have about those two friends!

However I decided I will take, not one but two scallops to the Camino. The second one was “made” by me.
Well, ideally I’d pick some scallops on the beach …! It is a very romantic view but this is not a regular occurrence here, mainly because I wanted to get scallops for myself, for my companions and for the two friends who would walk the Camino before me. Of course I measured my idiosyncrasies and went with the closest option to the ideal: I got them locally, in the fishermen in Matosinhos, Porto. These scallops have character! They are smaller and so they seem to retain some magic. They are not perfect, just like us: some have spots on the inside, others have broken tabs, but the truth is that they are all special and all attracted my attention when I was picking them.

The first thing I had to do was punch a hole in each of them so I could thread a string that would allow me to attach them to the backpacks. As the material is very fragile, I chose to use an old hand drill from my grandpa Artur and the skill of Carlos to use it!

Then, at home, I tested the absorption of various types of paint into shells I found on the beach and finally ventured to paint the scallops with watercolor, which is also a technique that has come across me at special moments and places.
I did not want a special design or drawing, just some blurs like the ones I do regularly for the blog, with the colors I would like to carry in my heart. Finally, I chose a cotton string and the scallops were ready to hang!

The experience was very interesting and the result reminds me constantly of the creative side that weighed on my scale. I also feel that it was a small step that was already part of this great journey. Finally, being a bit of a doting friend, the fact that I was able to get scallops for other pilgrims somehow joined me to their Caminos and offered them some of the love, support and protection that a good friend hopes to offer.

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